Obra espiritual nascida na França no século XIX aproxima fiéis brasileiros da espiritualidade da comunhão dos santos e do consolo dos enlutados

A oração pelos falecidos, prática antiga da tradição cristã, continua mobilizando fiéis em diferentes partes do mundo por meio da Fraternidade de Montligeon, obra espiritual nascida na França no fim do século XIX e que, nos últimos anos, tem fortalecido seus vínculos com o Brasil.
Fundada em 1884 pelo Padre Abbé Buguet, a Fraternidade reúne milhões de membros vivos e falecidos inscritos para participar espiritualmente da chamada “missa perpétua”, celebrada diariamente no Santuário de Nossa Senhora de Montligeon, na França, e em outros locais do mundo.
Ligada à devoção a Nossa Senhora Libertadora das Almas do Purgatório, a Fraternidade promove um apostolado voltado à oração pelos falecidos, à esperança cristã diante da morte e ao acompanhamento espiritual de pessoas enlutadas. Segundo o site oficial do Santuário, mais de 30 mil associados rezam atualmente pelos membros da Fraternidade, enquanto cerca de 1.250 grupos de oração estão em pelo menos 32 países.
APOSTOLADO

A relação entre Montligeon e o Brasil tem se tornado mais próxima graças à atuação de leigos e sacerdotes que difundem essa espiritualidade em diversas dioceses. Uma das pessoas envolvidas nessa missão é Liliane Ferreira Gonçalves, membro da Fraternidade, que esteve pela primeira vez no santuário francês em abril de 2025, durante o Jubileu da Esperança.
Ela contou ao O SÃO PAULO que sua aproximação com Montligeon começou ainda em 2023, a partir da experiência de amizade e oração com uma aluna francesa, Marie-Laure, que enfrentava a doença terminal da avó. “A experiência partilhada do amparo da fé, da Santa Comunhão e do exercício do Santo Rosário nos deu força e esperança para passar pelo drama do luto”, recordou.
A avó de Marie-Laure faleceu justamente em 16 de novembro, data da festa de Notre-Dame de Montligeon. A partir dessa experiência, o grupo passou a rezar regularmente a oração de Nossa Senhora de Montligeon, inicialmente em francês. Após sua visita ao Santuário, Liliane articulou, com apoio do Reitor, o Padre Paul Denizot, além de sacerdotes e colaboradores ligados à obra, uma nova tradução da oração para o português, buscando maior proximidade com o texto original e destacando o consolo aos corações enlutados.
Desde então, a oração passou a ser recitada semanalmente após o Terço do Apostolado da Oração na Paróquia Nossa Senhora do Brasil, no Jardim América, Região Sé.
EM SÃO PAULO
Em novembro de 2025, durante nova peregrinação a Montligeon, Liliane assumiu o compromisso de divulgar a devoção no Brasil. Poucos meses depois, em abril de 2026, o Padre Paul Denizot esteve em São Paulo para uma série de encontros, missas, entrevistas e conferências sobre o purgatório, a esperança cristã e o carisma da Fraternidade.
A programação incluiu passagens pela Rede Vida de Televisão e por paróquias em São Paulo, Sorocaba (SP) e Embu-Guaçu (SP), além de encontros com diversos bispos, entre os quais o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo.
RAÍZES NO BRASIL

A visita também buscou estreitar os vínculos históricos entre o Santuário de Montligeon e a Igreja no Brasil, especialmente em São Paulo, onde há registros antigos da devoção e da participação de brasileiros na Fraternidade. Os nomes inscritos passam a integrar registros conservados no Santuário desde a fundação da obra. Todos os anos, esses livros são conduzidos em procissão até o “obituário”, espaço especial da basílica em que permanecem guardados.
Há também registros históricos da presença brasileira em Montligeon desde o início do século XX. Segundo Liliane, documentos do Santuário apontam inscrições de pessoas vindas de São Paulo já nos primeiros anos de funcionamento da Fraternidade. Ela destaca ainda que a devoção às almas do purgatório possui forte tradição popular no Brasil, citando obras como “Tenhamos compaixão das pobres almas”, do Monsenhor Ascânio Brandão.
Para saber mais sobre a Fraternidade de Montligeon, acesse: https://montligeon.org/pt-br/.
O que é o purgatório?
A doutrina católica sobre o purgatório está ligada diretamente à esperança cristã na vida eterna e à misericórdia de Deus. Segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC), aqueles que morrem na graça e na amizade de Deus, mas ainda necessitam de pu-rificação para alcançar a santidade plena, passam por uma etapa de purificação final antes de entrar no Céu (cf. CIC 1030). Essa realidade espiritual é chamada de purgatório.
A Igreja ensina que essa purificação não deve ser compreendida como uma “segunda chance” após a morte, mas como a conclusão do processo de santificação daqueles que já pertencem a Cristo. O Catecismo afirma que “a Igreja chama Purgatório a esta purificação final dos eleitos” (CIC 1031), distinguindo-a claramente da condenação eterna. Trata-se, portanto, de uma expressão da misericórdia divina para com os que morreram reconciliados com Deus, mas ainda marcados pelas consequências do pecado.
FUNDAMENTOS BÍBLICOS
A fé no purgatório possui raízes antigas na tradição judaico-cristã. Um dos fundamentos bíblicos frequentemente citados pela Igreja está no Segundo Livro dos Macabeus, no qual Judas Macabeu manda oferecer sacrifícios pelos mortos, considerando “santo e salutar rezar pelos defuntos, para que sejam libertos dos seus pecados” (2Mc 12,46). Desde os primeiros séculos, os cristãos mantiveram a prática de rezar pelos falecidos, especialmente durante a celebração da Eucaristia.
O Catecismo recorda que a Igreja sempre honrou a memória dos mortos e ofereceu sufrágios em seu favor, sobretudo o sacrifício eucarístico (CIC 1032). As orações em sufrágio são precisamente essas preces e obras espirituais oferecidas a Deus pelos falecidos: missas, orações, esmolas, penitências e atos de caridade. A tradição católica entende que esses gestos exprimem a comunhão dos santos, isto é, a união espiritual entre os fiéis da terra, as almas em purificação e os santos do Céu.
Mais do que uma devoção ligada ao medo da morte, a oração pelos falecidos manifesta a certeza de que o amor é mais forte do que a separação causada pela morte. Ao rezar por aqueles que partiram, os cristãos professam a fé na ressurreição e reafirmam que a Igreja continua unida para além desta vida.




