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Igreja conclama à defesa e à acolhida das crianças migrantes e refugiadas

Na capital paulista, as celebrações do 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado ressaltam a urgência de acolher crianças, adolescentes e suas famílias que enfrentam a dor da separação, o preconceito e as barreiras sociais

Igreja conclama à defesa e à acolhida das crianças migrantes e refugiadas - Jornal O São Paulo

“Mesmo uma só destas crianças”. O tema da mensagem do Papa Leão XIV para o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado esteve em destaque no domingo, 27, na Paróquia Nossa Se­nhora da Paz, na capital paulista.

Cartazes erguidos por crianças com dizeres como “não sou invisível”, “brincar” e “família unida” expressa­vam a urgência de olhar para a infân­cia e a juventude em meio aos fluxos migratórios.

UM MAPA VIVO DE NAÇÕES EM UM SÓ TRAJETO

Antes da missa, os participantes se reuniram nas escadarias da Cate­dral da Sé, por volta das 9h. Rostos, histórias e passos vindos de diferen­tes partes do mundo deram as mãos e caminharam em referência à data. Sob forte calor, o cortejo seguiu rumo à Paróquia Nossa Senhora da Paz, no Glicério, espaço histórico de acolhida.

A mobilização uniu forças de uma ampla rede solidária, incluindo a Rede Clamor, Arsenal da Esperança, a Cari­tas Arquidiocesana de São Paulo, Casa do Migrante, Missão Paz, Irmãs Scala­brinianas, Casa de Assis, Serviço Pas­toral do Migrante, Sefras – Ação So­cial Franciscana, entre outros. Juntos, compuseram um mapa vivo de nações em um só trajeto.

A maioria dos participantes era formada por mulheres. Entre elas, mães recém-chegadas ao Brasil, algu­mas com dois meses em solo nacional, outras com pouco menos de um ano, acompanhadas dos filhos. Fugindo de graves conflitos e crises sociopolíticas em países como a República Demo­crática do Congo e o Congo-Brazza­ville, elas personificam a face humana de um fluxo que desafia as fronteiras globais.

A caminhada ecoou fé e esperan­ça nas ruas, dialogando com dados do 12º Relatório Anual do Observa­tório das Migrações Internacionais (OBMigra), divulgado neste ano. O documento aponta cerca de 2 milhões de migrantes e pessoas refugiadas no Brasil; desse total, mais de 17 mil são crianças refugiadas.

VOZES DA TRAVESSIA: ENTRE A SAUDADE E O RECOMEÇO

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A força do ato reside em trajetórias reais. Mariana Banza (nome fictício), natural do Congo-Brazzaville, chegou ao Brasil há nove meses. Mãe de cin­co filhos, teve de deixar quatro deles e o marido no país de origem devido à perseguição política. Após passar oito meses acolhida na Missão Paz, hoje vive em uma casa alugada com um fi­lho e uma sobrinha.

“A situação lá está muito compli­cada e sem perspectiva”, assegurou Mariana, cuja rotina é marcada pelo trabalho intenso e pela saudade persis­tente dos que ficaram.

Outro relato é o de Laide Ngoy (nome fictício), que veio de Angola há três anos com os filhos menores, fugindo do cenário sociopolítico de seu país. Hoje, atua no Centro de In­formação e Assistência aos Migrantes (CIM). Na mesma família, o pequeno Weza (nome fictício), 11 anos, resume a chegada com simplicidade: “Eu me senti alegre, curioso… Aqui tem mais oportunidade de estudo. Lá não”.

A adaptação, entretanto, impõe de­safios. O pequeno Vitor (nome fictí­cio), 8 anos, irmão de Weza, afirma ter sofrido racismo na escola onde estuda. Questionado sobre como lidou com o episódio, respondeu com firmeza: “Ué, eu vou para a direção e falo com o di­retor: ‘Não pode fazer racismo com as pessoas só porque não são da sua cor ou por que são de outro país’”.

O OLHAR DA IGREJA E A URGÊNCIA DAS CRIANÇAS

Ecoando as frases “Todos somos migrantes” e “Para o migrante, a pátria é o lugar que o acolheu”, a celebração trouxe como foco central a infância, apontada na mensagem do Papa Leão XIV como a camada mais vulnerável da mobilidade humana. O Pontífice também denuncia a “tripla vulnerabili­dade” do menor migrante: estrangeiro, indefeso e exposto a conflitos, pobreza extrema, violência e traumas da rota.

Na acolhida na Paróquia Nossa Se­nhora da Paz, a diversidade cultural deu o tom. Comunidades de paraguaios, bolivianos, equatorianos, venezuela­nos, vietnamitas e de outras naciona­lidades exibiram bandeiras e danças típicas, demonstrando que a integração também se consolida pela cultura e pela convivência fraterna.

A missa foi presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, e concelebrada por padres e missionários, com leitu­ras proclamadas em francês, espanhol e inglês.

“As crianças são as maiores víti­mas da migração forçada e do refúgio. Agradeço às organizações que as aco­lhem e as ajudam a recomeçar”, desta­cou o Arcebispo de São Paulo. “A Igre­ja é casa de todos os migrantes, mas é preciso também exigir do Estado leis e proteção contra a exploração e a injus­tiça”, complementou.

ACOLHER E NÃO GERAR MAIS VULNERABILIDADE

Essa atenção diária foi reforçada pela Irmã Inês Spacione, que desta­cou o perfil cada vez mais familiar das chegadas e o rico potencial de aprendi­zado dessas crianças, e pela Irmã Mal­garet Scapinelli Conte, ao lembrar da “fronteira burocrática” que muitas ve­zes invisibiliza o ser humano por trás dos números.

Padre Paolo Borsato, diretor do Centro Pastoral de Mediação dos Mi­grantes na Missão Paz, apontou para feridas urgentes na saúde: “O que me choca e me toca profundamente no dia a dia é que estou celebrando mui­to mais funerais de crianças migrantes do que de idosos, devido à falta de pré­-natal e de cuidados médicos básicos. Nas escolas, também vemos grandes dificuldades, como o bullying e o cho­que cultural”.

Na ponta do atendimento, a assis­tente social Aline Moreno, da Casa de Assis, mantida pelo Sefras, subli­nhou a responsabilidade institucio­nal: “Trazer essa discussão, focando as crianças e adolescentes que sofrem com o processo migratório, com a in­serção na sociedade e na escola, além do preconceito e do racismo, é funda­mental. Se nós, adultos, muitas vezes já não sabemos como lidar, imagine uma criança ou um adolescente refu­giado em outro país”.

Após a celebração, a programa­ção contou com um almoço cultural e oferta de vacinação, viabilizados em parceria com a rede Accor, que desde 2022 apoia cursos de capacitação pro­fissional na Missão Paz.

Conforme frisaram o Frei Vagner Sassi, Diretor-Presidente do Sefras, e o Padre João Paulo Buchinger, a respos­ta ao fenômeno migratório extrapola a assistência caritativa: exige políticas públicas de moradia e inclusão, assegu­rando que o país de acolhida jamais seja causa de nova vulnerabilidade.

Entre passos firmes pelas ruas do centro da capital paulista, preces de crianças e cânticos entoados em múltiplos idiomas, a celebração em São Paulo do 112º Dia Mundial do Mi­grante e do Refugiado reforçou a men­sagem de que a defesa da dignidade dos migrantes não tem fronteiras: a pátria é onde a vida encontra abrigo.

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