Desde agosto de 2025, o local sedia o “Projeto Rango’, realizado há mais de 40 anos pelo falecido sacerdote em favor das pessoas em situação de vulnerabilidade social

Alô, alô, quem vai querer rezar a via-sacra? Quem quiser pode vir, que a gente já vai começar!” Após o convite ecoar pelo corredor da Casa Padre Vitor Bertoli, na Rua Fradique Coutinho, em Pinheiros, lentamente as mesas e cadeiras do refeitório ganham nova disposição e muitos dos que há pouco tinham tomado o café da tarde se unem para o momento de oração, já à espera do jantar, sempre servido às sextas-feiras e sábados, às 18h.
Há mais de 40 anos tem sido assim no “Projeto Rango”, da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Passos, na Região Sé, idealizado pelo Padre Vitor Bertolli, atento à realidade dos pobres que iam trabalhar nas imediações do Jardim América e que passavam horas sem comer, além das pessoas em situação de rua. O Sacerdote morreu em setembro de 2023, mas a iniciativa caritativa prosseguiu e desde agosto de 2025 está neste novo endereço, onde antes funcionava uma creche vinculada à Paróquia Nossa Senhora do Brasil, na Região Sé.
“A instalação de uma sede própria foi idealizada e lavada a cabo pelo Padre João Bechara Ventura, que desejava oferecer atendimento mais acolhedor em um local melhor e mais estruturado. Hoje, por exemplo, o Centro de Acolhida Padre Vitor Bertoli oferece a possibilidade de banhos e troca de roupa para as pessoas em situação de rua, o que antes não era possível”, comenta o Padre Michelino Roberto, Pároco da Paróquia Nossa Senhora do Brasil e Administrador Paroquial da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Passos.
REDE SOLIDÁRIA, ACOLHIDA FRATERNA

Entre os que aguardavam pelo jantar no fim da tarde da sexta-feira, 27 de fevereiro, estava Fábio Zula Tavares, catador de materiais recicláveis. Até abril do ano passado, ele vivia em uma casa alugada, mas sua esposa, que trabalha como diarista, teve de mudar de cidade para cuidar da mãe adoentada, e o que ele ganha com os recicláveis não é o suficiente para pagar o aluguel. Restou-lhe viver nas ruas.
“Quando encontro um marmitex descartado, eu pego e como, e se tem um restinho de copo de milkshake, eu tomo. Como vou andando por aí, as pessoas me dão as coisas, mas comida mesmo [refeição] é difícil de conseguir”, relata Fábio à reportagem do O SÃO PAULO. “A comida daqui é boa demais, também dão água e suco, tem serviço de banho e roupa limpa se a gente precisar. Um lugar igual a este não existe!”, enfatiza.

Além do lanche da tarde e do jantar às sextas-feiras e aos sábados, em geral para mais de 200 pessoas, na Casa Padre Vitor Bertoli também são servidas refeições de terça a quinta-feira, das 14h às 16h.
Maria Aparecida Melges, responsável pelas atividades da casa, conta que a maior parte dos atendidos vive em albergues, mas também há pessoas em situação de rua, catadores de materiais recicláveis e trabalhadores de entrega de comida por aplicativos. A ação é mantida graças a uma ampla rede de solidariedade: boa parte dos alimentos é doada pelo Instituto Amélia Lee e pelo supermercado Quitanda. Também há os pães produzidos pela Casa de Oração do Povo da Rua, e kits de higiene e roupas obtidos por doação.
“As maiores necessidades hoje são de roupas masculinas: cuecas, calças, tênis. Também sempre precisamos de itens de higiene pessoal, porque aqui acontecem cerca 40 banhos por dia. Doações de barbeadores também são bem-vindas”, detalha Maria Melges.
DOAR-SE AO PRÓXIMO

Atualmente, ao menos dez pessoas se voluntariam a cada dia para os atendimentos. Rosaria Ferreira Guimarães é uma delas, desde 1992. Atualmente, ela participa sempre às sextas-feiras e aos sábados, tendo como uma das missões organizar a récita do Terço, bem como a via-sacra às sextas-feiras durante a Quaresma.
“Aqui nada é imposto. Cada pessoa tem sua religião e a gente respeita. Tem até um senhor que é evangélico, mas que gosta de participar do Terço”, recorda Rosaria. “Aqui retribuo tudo aquilo que o Senhor me deu e me dá. Se mais pessoas soubessem o bem que faz ser voluntário, muitas mais viriam de coração, dispostas a entregar o melhor pelo próximo”.
Zilda Pereira chegou ao projeto em busca de alimentos há cerca de cinco anos. Com o tempo, tornou-se voluntária nos trabalhos da cozinha. Hoje também ajuda no espaço das roupas. “Eu moro na Vila Guilherme e venho todos os dias. Faço tudo o que for preciso. Este espaço de agora é maior que o da Paróquia, quando as filas se formavam na porta da igreja, na Praça Portugal. Aqui ficou bem melhor em tudo”, assegura.
À reportagem, Padre João Bechara Ventura, Vigário Paroquial da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Passos e que acompanha pastoralmente o “Projeto Rango”, lista ao menos três impactos desta ação caritativa e evangelizadora: a restauração de vidas, já que muitos, a partir da acolhida que recebem, procuram ajuda em espaços como a Missão Belém e hoje têm família e filhos; a garantia de alimentação digna a quem precisa – “na casa vão pessoas em situação de rua, idosos e até entregadores de comida por aplicativos que não teriam condições de pagar por um jantar nesta região da cidade”; e um itinerário de fé a quem deseja: “Muitos acabam participando do Terço, da via-sacra, das catequeses, missas e demais comemorações religiosas que fazemos. Certamente, essas pessoas estão sendo evangelizadas”, conclui.
FEITO COM MUITO AMOR

Quando o relógio marcou as 18h daquela sexta-feira, as conversas nas mesas silenciaram para as orações do Pai-Nosso e da Ave-Maria. Depois, o jantar foi servido: arroz, feijão, ovo pochê, chuchu refogado e berinjela à milanesa, além de suco natural e, de sobremesa, doce de banana. Ao final, quem desejasse, podia levar marmitex para se alimentar depois.

Antonio Alexandre da Silva, natural de Fortaleza (CE), foi um dos que jantaram: “Estou pelas ruas aqui da região de Pinheiros há uns 20 dias, e me falaram da Casa. E eu vim não só para comer, mas também para me alimentar de uma oração. A verdade é que se não tivesse essa comida aqui, eu ia passar a noite inteira com fome. No outro dia, talvez conseguiria um lanche. Marmita dificilmente eu ia arrumar. Hoje em dia, as pessoas só sabem julgar quem vive na rua. Aqui ninguém julga ninguém, as pessoas se preocupam em acolher a gente bem”.

Rogério Grecco, 50 anos, conheceu aos 16 o trabalho que o Padre Vitor realizava. Por 25 anos, teve casa e uma vida em família. Hoje está nas ruas, ou “no trecho” como prefere dizer, já que em seu estilo hippie de vida percorre cidades em busca de recicláveis para produzir artesanatos. Há dois meses, regressou do Mato Grosso e soube da nova sede do “Projeto Rango”. Segundo ele, o local pode ter mudado, mas a acolhida é a mesma: “O calor humano daqui é bem melhor do que em qualquer outro lugar. A gente vê como tudo é feito com amor. Dá para perceber isso nos alimentos, nas conversas da casa, na atenção do pessoal”.
“Os próprios atendidos nos falam que aqui é diferente, que eles conseguem sentar-se à mesa para comer e que têm quem os sirva com todo carinho e amor”, conclui Maria Melges.
CONHEÇA E COLABORE
Casa Padre Vitor Bertoli
Rua Fradique Coutinho, 956, Pinheiros.
Aberta de terça a quinta-feira, das 10h às 18h (refeições das 14h às 16h);
e às sextas-feiras e aos sábados, das 8h às 20h (jantar das 18h às 19h).
Saiba mais detalhes pelo Instagram: @bomjesusdospassos.sp





