No centro de São Paulo, paróquia mantém viva a fé e a cultura italiana

Padre Paolo Parise, novo Pároco da Paróquia Pessoal Italiana São Francisco de Assis e Santa Catarina de Sena (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Os fiéis da Paróquia Pessoal Italiana São Francisco de Assis e Santa Catarina de Sena, em São Paulo, estavam em festa na noite do domingo, 11. No entanto, não era para comemorar a vitória da seleção italiana de futebol na Eurocopa, mas para acolher seu novo Pároco, Padre Paolo Parise.

Natural de Marostica, no norte da Itália, Padre Paolo tem 54 anos e é sacerdote há 22. Missionário de São Carlos Borromeu (Scalabrinianos), ele vive no Brasil desde 2010 e é um dos coordenadores da Missão Paz, serviço voltado ao atendimento de migrantes e refugiados.

A celebração aconteceu na igreja matriz da Paróquia Nossa Senhora da Paz, na baixada do Glicério, região central. A posse foi presidida pelo Padre Aparecido Silva, Vigário-Geral Adjunto da Região Episcopal Sé, que representou o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo. 

Padre Paolo sucede o Padre Giorgio Cunial, que atuou na comunidade por cerca de 50 anos e faleceu em maio. Na mesma missa, o Missionário também tomou posse do ofício de Vigário Paroquial na paróquia territorial, que tem como Pároco o Padre Antenor João Dalla Vecchia.   

Paróquia Pessoal 

Diferentemente das paróquias territoriais, uma paróquia pessoal é voltada à assistência pastoral de um grupo de fiéis de determinada língua, etnia ou cultura, no caso, os imigrantes italianos e seus descendentes que residem em São Paulo.

Embora a Paróquia Pessoal Italiana São Francisco de Assis e Santa Catarina de Sena tenha sido oficialmente instituída em 1956, sua origem se confunde com a da Paróquia Nossa Senhora da Paz, fundada em 1940 e constituída pelos imigrantes italianos que viviam no antigo centro operário da cidade, localizado entre os bairros do Cambuci, Mooca e Liberdade.

Com o passar dos anos, os italianos se espalharam para outros bairros da cidade e acabaram se fixando nas paróquias mais próximas de suas casas. No entanto, sentiam falta de uma comunidade onde pudessem cultivar suas tradições religiosas, a língua e a cultura próprias. Então, nasceu uma paróquia pessoal voltada a esse público, dedicada aos santos padroeiros da Itália.  

Manter as raízes  

Atualmente, é quase impossível contabilizar quantos italianos vivem na cidade de São Paulo. A maioria dos italianos natos que frequentam a comunidade chegou ao Brasil entre as décadas de 1950 e 1960. Também seus filhos, netos e demais descendentes, contudo, herdaram não apenas a tradição, como, também, a nacionalidade italiana e, por isso, também são considerados filhos da Itália. Muitas dessas famílias são ligadas a associações culturais de diferentes regiões italianas, que são responsáveis pela animação das missas.  

Há, ainda, uma estreita ligação com o Colégio Eugenio Montale, instituição de ensino localizada no Morumbi, na zona Sul, onde estudam inúmeros filhos de jovens famílias italianas que chegam ao Brasil. Todos os anos, uma média de 10 a 12 alunos fazem a primeira Eucaristia na Paróquia.

Norma Maradei, diretora social do Circolo Italiano e presidente da Associação Centro Calabrês de São Paulo, frequenta a Paróquia há mais de 30 anos. Filha de italianos, para ela, participar da comunidade não é apenas recordar a cultura de seus pais e avós, mas é uma forma de cultivar a fé como os seus antepassados lhe transmitiram. “Aqui eu me sinto como em uma grande família”, disse. 

(foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Encontro com a identidade

Já Fausto Marabello e sua esposa, Ivone de Abreu Marabello, se aproximaram das suas raízes italianas graças à Paróquia Pessoal. Embora sejam netos de italianos, eles não tinha proximidade com a tradição de seus avós, até que decidiram conhecer melhor suas origens.

Morador do Jardim França, na zona Norte, o casal é ativo na Paróquia de seu bairro, mas não abre mão do vínculo mensal com a comunidade italiana. “Talvez tenha sido tarde, mas, hoje, é como se tivéssemos reencontrado nossa identidade cultural”, relatou Fausto, destacando que sente saudade dos momentos de confraternização e convívio entre os membros da comunidade, marcados por muita música e pratos típicos, interrompidos pela pandemia.

Missas

Antes da pandemia, as missas em italiano eram celebradas uma vez por mês. Agora, passaram a acontecer todos os domingos, às 11h, também transmitidas pelas mídias digitais.

Nas celebrações, são entoados os mesmos cantos litúrgicos executados na maioria das paróquias da Itália, o que estreita os laços de comunhão com o país de origem. Há cerca de um ano no Brasil, a cônsul-geral adjunta da Itália em São Paulo, Lívia Satullo, constatou isso, afirmando que se sentiu “em casa” ao participar da Eucaristia na Paróquia Pessoal Italiana e ouvir as músicas comuns em seu país, em um ambiente que mantém viva a cultura e a identidade de seu povo.

Laboratório de comunhão

Padre Paolo destacou que a experiência vivida na Igreja Nossa Senhora da Paz é um laboratório de comunhão dos diferentes grupos étnicos que participam da comunidade pastoreada pelos Scalabrinianos. Além da Paróquia territorial e da pessoal italiana, essa igreja é sede da Paróquia Pessoal dos Fiéis Latino-Americanos de língua hispânica, e também acolhe grupos de haitianos, filipinos e indonésios, que participam de missas mensais em inglês e francês, sem contar os 4,5 mil imigrantes e refugiados atendidos pela Missão Paz só este ano.  

O novo Pároco enfatizou que os principais desafios são dar uma atenção especial ao grande número de idosos da comunidade, que, sobretudo nesse período de  pandemia, não podem participar das celebrações, e, por outro lado, envolver mais as jovens famílias italianas que chegam |à capital paulista e ainda buscam uma referência cultural e espiritual de sua pátria. 

IGREJA HISTÓRICA

Igreja Nossa Senhora da Paz (foto: Missão Paz)

Construída pela comunidade italiana, em 1940, a Igreja da Paz, como é mais conhecida, possui um rico acervo cultural desconhecido pela maioria dos paulistanos.

Suas paredes são decoradas com afrescos de grandes dimensões, de autoria de Fulvio Pennacchi (1905-1992), artista ítalo-brasileiro nascido na Toscana, ligado ao grupo Santa Helena – de nomes como Volpi, Rebolo e Graciano.

O projeto, concretizado entre 1942 e 1945, inclui 31 afrescos de Pennacchi, sendo os mais destacados os 22 murais. No presbitério, há um afresco com Cristo Crucificado de mais de 6 metros de altura. Ao lado direito do altar-mor, está o afresco da Anunciação da Encarnação do Senhor e, à esquerda, na capela do Santíssimo, a ceia de Emaús e o Bom Pastor.

Em 2019, os três sinos, datados da década de 1950, passaram por um restauro feito pela Fábrica de Sinos de Piracicaba e patrocinado pelo Grupo Comolatti.

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