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Nos passos de Jesus, da condenação até a cruz, pelo centro histórico da cidade de São Paulo

Nos passos de Jesus, da condenação até a cruz, pelo centro histórico da cidade de São Paulo

A maioria das lojas da Rua San­ta Ifigênia já estava fechada quando, por volta das 19h da sexta-feira, 27 de março, a cruz de Cristo, ladeada por velas, foi levada até a frente da Basílica Menor de Nossa Senhora da Conceição, onde frades francisca­nos, monges beneditinos, religiosas, padres, servidores do altar, coroi­nhas e leigos uniram-se para partici­par da via-sacra pelo centro históri­co da capital paulista.

“Jesus é condenado à morte por aqueles que Ele cumulou de benefí­cios. Com amor, aceitou esta senten­ça. Para sofrer e morrer, Ele veio ao mundo, ensinando-nos a fazer o mes­mo. Jesus ainda é condenado à morte na Eucaristia”, meditou-se na 1ª esta­ção (Jesus é condenado à morte) da via-sacra eucarística segundo São Pe­dro Julião Eymard (1811-1868).

Frei Gustavo Medella, OFM, Vi­gário Provincial, Guardião e Pároco do Convento e Santuário São Fran­cisco, explicou ao O SÃO PAULO que a iniciativa de realizar a via-sacra foi pensada pelas paróquias que com­põem o Decanato São João Evange­lista, na Região Sé, com o intuito de retomar uma tradicional, popular e piedosa prática de fé do povo de Deus no centro da cidade.

“No meio desta pujança de men­talidades, pessoas, atividades e preo­cupações, nós fazemos um testemu­nho visível da adesão à fé, de todo o percurso de Jesus Cristo na entrega generosa por nós, o seu povo. É uma expressão da nossa fé, não de ma­neira proselitista, nem triunfalista, mas na humildade do testemunho. Com a mesma humildade de Cristo no caminho do calvário, queremos mostrar à nossa querida São Paulo este gesto de amor de Jesus por nós”, enfatizou Frei Gustavo.

MÚLTIPLAS REALIDADES NO CAMINHO DO CALVÁRIO

Durante quase duas horas, as ora­ções, os cânticos e o som da matraca anunciaram à cidade os passos da Pai­xão de Cristo. Após a 2ª estação (Jesus levando a cruz às costas), realizada em frente ao Hotel São Paulo, os partici­pantes seguiram pelo Viaduto Santa Ifigênia, onde ocorreu a 3ª estação (Jesus cai pela primeira vez), em meio ao som do intenso trânsito comum em uma noite de sexta-feira na maior cidade do País. De lá, partiram para a frente do Mosteiro de São Bento para a 4ª estação (Encontro de Jesus com sua Mãe Santíssima), onde as preces e cân­ticos ecoaram em meio ao som vindo dos trens nos trilhos do metrô.

No trajeto para a 5ª estação (Jesus é ajudado por Simão Cirineu a levar a Cruz) aconteceu um dos momentos mais emblemáticos: com velas nas mãos, os fiéis seguiram pela Rua São Bento em direção ao Largo do Café, em meio a muitas lojas ainda abertas e bares repletos de pessoas: algumas se mostraram indiferentes, mas a maioria adotou uma postura respei­tosa durante a passagem da via-sacra.

No transcorrer da 6ª estação (A piedosa Verônica enxuga o rosto de Jesus), em frente à Igreja Santo An­tônio; da 7ª estação (Jesus cai pela respei­

segunda vez), na Igreja de São Fran­cisco das Chagas; da 8ª estação (Jesus consola as filhas de Jerusalém), em frente ao Santuário São Francisco de Assis; e da 9ª estação (Jesus cai pela terceira vez debaixo da cruz), na Pra­ça do Patriarca, os fiéis puderam se aproximar da realidade das pessoas em situação de rua: algumas dormin­do nas calçadas, outras em barracas móveis e muitas sentadas à espera das refeições ofertadas voluntaria­mente por diferentes grupos.

“É impressionante como as pes­soas são carentes da presença de Deus. Algo que me impressionou positivamente foi que aquelas que estavam nos bares festejando a sex­ta-feira pararam e, com alguma re­verência, contemplaram a procissão, percebendo que não é só de pão que vive o homem. Voltaram o seu olhar para Cristo e para a Semana Santa que se inicia”, destacou à reportagem o Padre João Paulo Rizek, Pároco e Reitor da Basílica Menor de Nossa Senhora da Conceição.

Entre a 10ª estação (Jesus no ato de O despirem e de Lhe darem o fel a beber), em frente à sede da Prefeitu­ra, e a 11ª estação (Jesus pregado na cruz), realizada em uma das laterais do Shopping Light, a via-sacra pas­sou pelo Viaduto do Chá, desper­tando a atenção dos que transitavam pelo centro histórico.

‘É NOSSO DEVER DAR CRISTO AO POVO AQUI NO CENTRO’

Nos passos de Jesus, da condenação até a cruz, pelo centro histórico da cidade de São Paulo

A 12ª estação (Jesus morre na cruz) ocorreu em frente ao Theatro Munici­pal de São Paulo, e a 13ª estação (Je­sus é descido da cruz), na Praça das Artes, durante a qual se fez memória das muitas mães que já tiveram de se­pultar seus filhos vítimas da violência na cidade.

A via-sacra foi concluída em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissan­du, com a 14ª estação (Jesus é coloca­do no sepulcro).

“Como foi bom nós passarmos pelo centro histórico. Vimos a desi­gualdade, vimos pessoas que talvez nem acreditem mais que Cristo mor­reu por nós, mas no meio desta cidade existem luzes, existe esperança. Vocês que caminharam conosco são estas lu­zes. Jamais percam a esperança”, exor­tou o Padre Luiz Fernando Oliveira, Capelão da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

À reportagem, Padre João Paulo Rizek avaliou que a realização da via-sacra foi extremamente positiva: “Ao longo da procissão, vimos aumen­tar o número de pessoas. Acredito que havia mais de mil na última estação. Temos a obrigação de fazer a via-sa­cra novamente nos próximos anos, pois se nos cabe a missão de conduzir, ensinar e santificar, é nosso dever dar Cristo ao povo aqui no centro de São Paulo”.

CAMINHEMOS COM JESUS

“Eu fiquei muito feliz pela quantidade de pessoas na via-sacra, o que significa que elas estão se conscientizando de que levar a vida sem Deus é impossível”. (Cidinha Reis)

“Apesar de algumas pessoas não terem dado a mínima para a passagem da via­-sacra, muita gente parou e olhou com respeito para a procissão. E é importante que a Igreja esteja na rua para anunciar a fé, pois isso sempre acaba atraindo alguém”. (Maria Bethânia)

“Foi muito bonito ver tantas pessoas reunidas na via-sacra. Foi um momento de devoção muito grande, reconhecendo as dores de Jesus e o sacrifício que Ele fez para nos salvar”. (Higor Binuto)

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