
“Ser cristão é trabalhar para que haja justiça e solidariedade em todos os lugares.” A frase de Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016) está estampada em um quadro, ao lado de uma de suas fotos, no centro do novo Ponto de Encontro da Rede Rua.
Localizado na Rua Conselheiro Furtado, 191, próximo à Praça da Sé, o local, sedido pelo Sindicato dos Bancários, funciona desde fevereiro e atende de terça-feira a sábado.
Na terça-feira, 15, o Cardeal Odilo Pedro Scherer abençoou o Ponto de Encontro Dom Paulo Evaristo Arns, que acolhe pessoas em situação de rua, promove atividades de convivência e formação e fortalece a busca por caminhos de acesso a direitos e à cidadania.

A cerimônia de bênção foi marcada pela memória de Dom Paulo, Arcebispo de São Paulo entre 1970 e 1998, e que em 2026 completaria 105 anos de vida. Antes do momento celebrativo, todos assistiram a um vídeo com registros da atuação da Rede Rua desde a década de 1990, incluindo falas de Dom Paulo sobre a realidade dos pobres e a responsabilidade da sociedade e da Igreja diante daqueles que vivem em situação de vulnerabilidade.
Na sequência, houve um momento de oração, com o canto da oração de São Francisco de Assis, “Senhor, fazei de mim instrumento de vossa paz”. Pessoas em situação de rua, voluntários e integrantes de instituições ligadas à Rede Rua participaram das preces, apresentando a Deus situações de desigualdade e sofrimento vividas na cidade. Dom Odilo também recordou, durante a oração, especialmente as pessoas que sofrem e os idosos que muitas vezes permanecem esquecidos.

UM ESPAÇO DE ENCONTRO
Para o Padre Arlindo Pereira Dias, SVD, Presidente da Rede Rua, a proposta do novo espaço vai muito além da oferta de serviços: “Esse é um espaço dos pobres da rua, perto da Praça da Sé, onde nós queremos acolhê-los e queremos conversar com eles sobre direito, direito à moradia, direito ao trabalho, direito à dignidade”.
Segundo o Sacerdote, o objetivo é que aqueles que vivem nas ruas possam encontrar no local não apenas acolhimento, mas também um ambiente de convivência, escuta, formação e organização. “O nosso desejo é que aqui eles se sintam em casa, sejam acolhidos e que nós, juntos, busquemos políticas públicas”, explicou.
A programação foi organizada justamente a partir dessa perspectiva de convivência. Às terças-feiras, são realizadas oficinas de arte, especialmente de pintura. Nas quartas-feiras, há formação de educadores sociais, com o objetivo de ampliar a compreensão sobre a realidade das ruas. As quintas-feiras são dedicadas às rodas de leitura e à literatura. Às sextas-feiras, ocorrem oficinas de artesanato, enquanto os sábados são reservados a encontros de filosofia.

Também fazem parte das atividades momentos de espiritualidade, encontros bíblicos e outras iniciativas que permitem aos frequentadores expressarem experiências, talentos e conhecimentos por meio da música, da pintura e de outras linguagens artísticas.
O atendimento ocorre das 9h às 14h30, de terça a sexta-feira, e aos sábados, das 9h às 12h. Mais do que um local de passagem, a proposta é fazer do espaço um lugar de vínculos. Padre Arlindo resumiu o propósito ao explicar a escolha do nome “Ponto de Encontro”: “Aqui é um espaço de encontro. É um ponto para estarmos juntos.”

ESTAR JUNTOS
Na fala que antecedeu a bênção, Dom Odilo destacou a presença de religiosos, institutos de vida consagrada e representantes de diferentes organizações da Igreja reunidos em torno de uma preocupação comum: a atenção aos pobres da cidade.
Ao recordar as imagens de Dom Paulo exibidas antes da cerimônia, o Cardeal Scherer observou que muitos dos desafios enfrentados décadas atrás continuam presentes. Para ele, a passagem do Evangelho sobre os pobres não deve ser entendida como uma justificativa para a indiferença, mas como um chamado à proximidade e à solidariedade.
Dom Odilo ressaltou também que acolher a população em situação de rua significa reconhecê-la integralmente como parte da sociedade. “O pobre também pensa. O pobre também faz poesia. O pobre também pode debater os problemas sociais. O pobre também pode ter opinião política”, afirmou.

Ao falar sobre o novo espaço, o Arcebispo destacou que existem diferentes formas de ajudar uma pessoa em situação de vulnerabilidade a se reconhecer como parte da comunidade humana. Segundo ele, iniciativas como a da Rede Rua contribuem para que essas pessoas não sejam tratadas como descartáveis ou como alguém que não tem nada a dizer.
A reflexão de Dom Odilo também esteve ligada ao Evangelho proclamado na celebração de Nossa Senhora das Dores. Ao recordar Maria junto à cruz de Jesus, o Arcebispo associou a atitude de permanecer perto de quem sofre à missão de quem trabalha com os pobres. “O trabalho com os pobres tem muito a ver com isso, estar junto. Sinal de presença solidária, de presença fraterna, amorosa, para ajudar a carregar a dor”, afirmou.

Para Dom Odilo, mesmo diante de problemas sociais complexos, a presença solidária pode favorecer a construção de respostas. Ele também destacou a importância de somar esforços e fortalecer a ação conjunta de pessoas, comunidades e instituições.
Ao final, o Arcebispo afirmou que a caridade organizada consiste justamente em envolver mais pessoas na construção de soluções e desejou que a iniciativa se desenvolva e reúna novos colaboradores.
A MEMÓRIA DE DOM PAULO
A escolha do nome do espaço remete diretamente ao testemunho de Dom Paulo Evaristo Arns e à sua atuação em defesa da dignidade humana e dos direitos das populações mais vulneráveis.
Dom Odilo analisou que a homenagem contribui para manter viva na cidade a memória de um Arcebispo marcado pela atenção aos pobres e aos que eram frequentemente esquecidos.

“Esta ligação de Dom Paulo com os pobres dessa sua preocupação com os mais pequenos, os mais esquecidos. E é um legado importante que agora este lugar aqui, levando o nome Dom Paulo, mantém vivo para a nossa cidade”, afirmou.
Padre Arlindo também recordou essa trajetória ao explicar a homenagem. Segundo ele, Dom Paulo esteve próximo das pessoas em situação de rua e dedicou especial atenção à promoção dos direitos humanos. Por isso, homenageá-lo no novo Ponto de Encontro significa associar o espaço a esse compromisso histórico com os pobres.

Ao terminar a cerimônia, enquanto os presentes rezavam o Pai-Nosso, Dom Odilo aspergiu o espaço e as pessoas que participavam do encontro, realizando a bênção do novo Ponto de Encontro.
A cerimônia também contou com a presença do Cônego Marcelo Monge, Vigário Episcopal da Caridade Social da Arquidiocese de São Paulo, de religiosos e representantes de institutos ligados à Rede Rua, além de pessoas em situação de rua que participam das atividades do espaço.




