
Instalada no alto da Freguesia do Ó, a matriz da Paróquia Nossa Senhora da Expectação, na Região Brasilândia, chama a atenção dos que a veem de longe e encanta a quem a adentra para participar das missas ou para rezar diante do altar-mor e das imagens sacras.
No dia 15, a comunidade de fiéis deu início à comemoração dos 230 anos da Paróquia, destacando que ela é muito mais do que o templo: está alicerçada no testemunho de fé das pessoas, de ontem e de hoje, suas “Pedras vivas, alegres na esperança”, tema deste ano jubilar.
“Muita gente passou por aqui antes de nós, trabalhou, fez a sua parte. Nesta missa, queremos agradecer a Deus por todos eles e, ao mesmo tempo, pedir por vocês, que hoje são a Paróquia Nossa Senhora da Expectação, para que continuem a ser o sinal de Deus para todo o bairro e esta região da cidade”, afirmou o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, ao saudar os fiéis na missa de abertura do ano jubilar, concelebrada pelo Padre Jorge da Silva, Pároco, e sacerdotes que já atuaram na Paróquia.
RESILIÊNCIA NA FÉ

A Paróquia Nossa Senhora da Expectação foi fundada em 15 de setembro de 1796, quando a Rainha de Portugal, Maria I, decretou a tripartição da Freguesia da Sé, até então a única da Diocese de São Paulo, criando as Freguesias de Nossa Senhora da Penha de França e de Nossa Senhora do Ó. A palavra freguesia, à época, remetia à expressão filii ecclesiae, o lugar dos ‘Filhos da Igreja’, hoje equivalente ao que se entende por paróquia.
A tradição da fé católica na região, porém, data do início do século XVII, quando o bandeirante português Manuel Preto e sua esposa, Águeda Rodrigues, construíram uma capela dedicada a Nossa Senhora da Esperança (Expectação), que rapidamente ficou conhecida como Capela de Nossa Senhora do Ó, em razão das Antífonas do Ó, recitadas nos festejos da padroeira. Com a deterioração das estruturas do templo, outra capela foi construída no alto de uma colina e tornou-se a matriz quando da criação da Paróquia em 1796. Entretanto, um incêndio a consumiu em setembro de 1896. Graças ao engajamento da comunidade, uma nova igreja foi inaugurada – a atual matriz – em 1901.
PEDRAS VIVAS


Em entrevista ao O SÃO PAULO, Padre Jorge da Silva destacou que a escolha do tema para celebrar o jubileu ressalta o papel de todos os que nestes 230 anos deram seu testemunho da fé: “Todos aqui são como um tijolinho e, unidos, formam a Igreja de Jesus, as pedras vivas, da qual nos fala São Paulo Apóstolo”.
Leonardo Sassi, ministro extraordinário da Sagrada Comunhão e integrante da comissão preparatória do jubileu, explicou que o tema busca fortalecer a identidade da Paróquia: “O nosso bairro foi moldado em volta da igreja e não do prédio. Pertencer ao prédio é uma coisa, pertencer à comunidade é outra. Prova disso é que sobrevivemos à perda da primeira igreja por um incêndio e, cinco anos depois, inaugurou-se todo este templo. Como batizados, somos as pedras vivas que carregam o nome do Cristo e que juntas formam a comunidade. E o ‘alegres na esperança’ recorda a nossa padroeira, Nossa Senhora da Expectação”.
Dom Odilo, na homilia, cumprimentou a comunidade pela escolha do tema e lembrou que cada batizado “é como uma pedra viva na edificação do templo espiritual, a Igreja do Deus vivo. Ela, portanto, não é o templo, é a comunidade reunida em nome do Senhor”.
O Arcebispo desejou que, a partir do tema, todos percebam que são chamados a tomar parte nas ações da Igreja, celebrando a fé na liturgia, transmitindo-a às novas gerações, vivendo os sacramentos e dando testemunho cristão, o que inclui a realização das obras de misericórdia. “Onde está a Igreja de Jesus, ali deve se irradiar a caridade de Cristo”, enfatizou.
GRATOS AO PASSADO, ESPERANÇOSOS NO FUTURO

Ao longo do jubileu, a Paróquia fará uma exposição fotográfica para recordar fatos e pessoas que fizeram parte destes 230 anos e apresentará uma maquete da primeira sede paroquial. Além disso, no dia 15 de cada mês, serão celebradas missas em ação de graças pelo ano jubilar.
Quem for ao templo também poderá saber mais sobre a tradicional Festa do Divino Espírito, realizada desde 1821, na Solenidade de Pentecostes, reconhecida pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), em maio de 2025, como patrimônio cultural imaterial da cidade de São Paulo.
Maria Lúcia Miserochi de Oliveira Lins, 80, atual curadora da Festa do Divino, se diz orgulhosa de ver a Paróquia manter-se como referência para o bairro, mesmo com a chegada de novos moradores: “Hoje, nas missas, eu cumprimento muita gente que ainda não conheço; não são pessoas das famílias tradicionais aqui da Freguesia. Fico muito feliz com isso, pois é sinal de que a Casa da Mãe está ‘botando os seus tentáculos’ por toda a Freguesia do Ó”.
Percepção similar tem Carlos Mikola, integrante do conselho administrativo e que vive no bairro desde 1952: “Sempre tenho visto nas missas muita gente nova. E são cada vez mais famílias, pais e mães com as suas criancinhas”. De acordo com Padre Jorge, as missas estão cada vez mais cheias e tem havido intensa procura pelos sacramentos de Iniciação à Vida Cristã: atualmente há cerca de 600 crianças na catequese e três turmas de catequese de adultos; além disso, cinco turmas de crismandos receberam o sacramento da Confirmação neste ano e muitos deles têm participado do grupo de jovens, que conta com aproximadamente 100 membros ativos.
Diácono Benedito Camargo, que por décadas atuou na Paróquia e se dedica a resguardar sua história, lembrou à reportagem que uma das marcas da comunidade é atuar alinhada à Doutrina Social da Igreja, o que proporcionou algumas conquistas para a região, como a casa de cultura da Freguesia do Ó, a instalação da Linha 6 do Metrô (parcialmente inaugurada), além de hospitais e escolas: “Estamos mergulhados na realidade que nos cerca, mas sem perder a nossa identidade católica, a nossa marca. Não ficamos apenas na dimensão da celebração religiosa e nas questões doutrinais”.
A comunidade paroquial tem participado ativamente das discussões sobre o projeto de criação, por parte da Prefeitura de São Paulo, de um boulevard no Largo da Matriz. “Se soubermos aproveitar a instalação do boulevard, será um bom espaço para a evangelização. Sempre temos de nos perguntar o que Jesus faria diante das novas realidades”, avaliou o Diácono.
IRRADIAR A PRESENÇA DE DEUS

“Que Deus abençoe esta Paróquia da Freguesia do Ó, que está bem no alto, visível, e que ela continue a irradiar a presença de Deus neste pedaço da nossa cidade”, desejou o Cardeal Scherer na missa, em que foi homenageado e especialmente abraçado por dezenas de crianças.
“Ontem, outros construíram; hoje, nós somos chamados a construir; e amanhã, outros continuarão a missão. Esta história que recebemos é também uma responsabilidade que assumimos. Que possamos permanecer unidos, como verdadeiras pedras vivas, colocando nossos dons, nossa fé e nossa vida a serviço desta comunidade, para que ela continue sendo um lugar de encontro com Cristo e de anúncio do Evangelho”, exortou Padre Jorge da Silva em mensagem especial dirigida aos fiéis na ocasião.
Todos os detalhes sobre o jubileu de 230 anos podem ser vistos no Instagram (@senhoradoo).




