Psicólogas voluntárias atendem acolhidos pela Missão Belém

O trabalho voluntário tem sido realizado no Edifício Nazareth, na Praça da Sé; ao longo de sua atuação, a Missão Belém já atendeu mais de 60 mil pessoas em situação de rua 

Pessoas em situação de rua acolhidas pela Missão Belém, no centro da capital paulista, são atendidas por psicólogas voluntárias (foto: Ira Romão)

Entre fevereiro e março deste ano, a Missão Belém ganhou reforço da área de Psicologia para contribuir com a saúde mental de seus acolhidos. 

Duas psicólogas que fazem parte da associação Cor Unum, criada durante a pandemia na Paróquia Nossa Senhora do Brasil, na Região Sé, passaram a integrar o grupo de médicos e enfermeiros voluntários que atende no Edifício Nazareth, a casa de triagem da Missão, localizada na Praça da Sé, na capital paulista, e que recebe, em média, de 25 a 30 pessoas por dia. 

No local, permanecem apenas homens maiores de 18 anos, que após alguns dias de acolhimento são encaminhados a outras casas da Missão, onde passarão cerca de seis meses em processo de recuperação. Mulheres que chegam ao edifício em busca de acolhimento são recebidas e direcionadas a outra casa da Missão. 

Os atendimentos psicológicos têm ocorrido de modo individual, às quartas e sextas-feiras, e em grupo, às quartas-feiras. 

A Missão 

Há 15 anos, a Missão Belém acolhe pessoas em situação de rua e desenvolve com elas um trabalho que visa à restauração de suas vidas. Nesse processo, não é utilizado qualquer medicamento para a superação do álcool e das drogas, somente a Palavra de Deus. 

“Nas casas [de acolhimento], há uma rotina de espiritualidade com momentos de oração e de meditação da Palavra, em que os acolhidos tiram diariamente um propósito da leitura do dia para viver na prática o Evangelho. Um propósito preciso, pequeno e concreto”, explica a Irmã Jéssica Jagochitz Bertoldo, missionária que ajuda na organização dos voluntários da área da Saúde no Edifício Nazareth. 

Ao final de cada dia, os irmãos, como são chamados os acolhidos, fazem um exame de consciência, refletindo como vivenciaram seu propósito do dia, avaliando se o cumpriram ou não, como o fizeram e como se sentiram. Tudo é anotado em um caderno individual intitulado de “diário espiritual”, que os acompanha durante todo o período de acolhimento.

Os membros da Missão testemunham que a saúde mental dos irmãos pode ser recuperada por meio da oração e da vivência familiar. “Sempre reforçamos que aqui é a casa e a família deles. Aqui eles têm uma vivência familiar de verdade: comem, rezam e fazem tudo juntos. Acreditamos que isso vai devolvendo a dignidade deles e que também ajuda na saúde mental”, afirma Irmã Jéssica, reforçando que a casa de acolhida é movida pelos próprios irmãos. 

À medida que vão ficando na Missão, os acolhidos, além de cuidarem uns dos outros, assumem responsabilidades de organização e manutenção da casa em que estão. “Nós temos um lema que é ‘náufrago salvando náufrago’. Se eu estou me salvando, vou salvando o outro”, narra a Missionária.

O voluntariado

A psicanalista Renata Aleotti é uma das médicas que se voluntariaram há dois meses e meio para dar atendimento às pessoas em situação de rua na Missão Belém. Ela faz os atendimentos em grupo no Edifício Nazareth e explica que este trabalho não se trata de psicanálise, mas sim de uma abordagem terapêutica psicológica. 

“Eu faço uma escuta, uma ressignificação das coisas que são ditas no sentido de poder ajudá-los a pensar e refletir sobre as diversas situações de suas vidas”, elucida a profissional. “O fato de eu estar escutando as histórias de vida deles, as questões que eles trazem e que de alguma forma os mobilizam no dia a dia, ajuda a dar um sentido às coisas que eles vivem. Tanto as coisas que vivem atualmente na casa quanto as que já viveram nas ruas.” 

A psicanalista adverte que muitas pessoas foram para as ruas em função das questões mentais, que acabam sendo aprofundadas ou até adquiridas, caso não as tenham. “Nas ruas, elas se sentem, muitas vezes, humilhadas, pouco consideradas e reconhecidas como pessoas. Então, todos os problemas de baixa autoestima, desamparo e de rejeição afloram.”

Por meio do atendimento voluntário aos acolhidos, Renata tem percebido a falta de “familiaridade de convívio social” por parte deles. Para ela, além da espiritualidade, a Missão Belém está resgatando a humanidade dessas pessoas, pois a vivência espiritual proporciona um “caminho mais estruturado”.

Renata espera que, no futuro, em algum momento, os atendidos por ela possam se apoiar mutuamente. “Ter um grupo no qual as pessoas se ouvem, acabam se conhecendo, se aproximando, entendendo as dificuldades uns dos outros, faz com que elas se abram para serem mais flexíveis, menos rígidas no julgamento do outro, porque vão percebendo que todos estão na mesma situação”, analisa a psicanalista.

O impacto dos atendimentos psicológicos

Há cerca de cinco anos, a Missão Belém conta com a ajuda de psiquiatras e neurologistas para tratar acolhidos que têm doenças mentais mais graves. No caso dos atendimentos psicológicos, por serem algo recente, o projeto está sendo construído aos poucos em todos os aspectos.

“Tem sido algo muito bom para os casos mais delicados que precisam de uma ajuda profissional que vai além da espiritualidade”, pontua Irmã Jéssica, enfatizando que a pandemia sensibilizou ainda mais as pessoas em situação de rua e “fez com que elas se decidissem mais por sair dessa condição”. 

A Missionária ressalta que, apesar do curto tempo, os resultados já são visíveis. “Um dos irmãos que moram aqui no prédio era bem tímido e o atendimento foi algo que o ajudou muito, pois ele, hoje, é uma pessoa mais ‘solta’”, conta a Missionária.

Irmã Jéssica destaca ainda que, nos primeiros atendimentos, os missionários e voluntários da área da Saúde encaminhavam os acolhidos para serem atendidos. Aos poucos, porém, isso vem mudando, pois muitos irmãos têm se interessado e pedido para participar dos atendimentos individuais e das rodas de conversa por entender que isso ajudará ainda mais sua caminhada.

Josebias Pereira da Silva, 50, conta sua experiência, como uma das pessoas que estão passando pelo atendimento. 

“Estou me sentindo mais confiante porque antigamente eu não sabia escutar. Qualquer palavrinha a mais que ouvia já era motivo de eu querer ir embora. Agora, não. Sei que se eu fizer algo errado, mereço ser chamado à atenção”, discorre Silva. Ele acrescenta que no início dos atendimentos teve receio por ter que falar semanalmente sobre sua vida. “Tive medo, mas depois fui me abrindo. Após as conversas, senti que não era nada de mal, era só para meu ganho. Para minha saúde.”

Silva está há 11 meses na Missão Belém e é um dos moradores do Edifício Nazareth, mas já conhecia o projeto, pois há 15 anos foi um dos primeiros acolhidos da Missão. Neste recente retorno, ele tem se sentido mais confiante.

Irmã Jéssica acredita que o trabalho das psicólogas tem contribuído bastante para que a Missão consiga fazer a humanização das pessoas em situação de rua. “Percebemos que as relações mudam, porque o passo aqui já é um processo de entender um ao outro. Com a psicoterapia, eles estão aprendendo ainda mais como entender o outro. O processo de ouvir, de ter alguém que oriente, tem sido muito positivo”, finaliza a Missionária. 

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