Quem já foi infectado pela COVID-19 precisa ser vacinado?

Especialistas explicam por que pessoas que já tiveram a doença devem tomar a vacina contra o coronavírus

Foto: Governo do Estado de São Paulo

Passados quase três meses desde que a enfermeira Mônica Calazans foi a primeira a ser imunizada contra a COVID-19 no Brasil, dúvidas ainda persistem sobre a aplicação da vacina em algumas situações. Uma das principais é se as pessoas que já foram infectadas precisam ser vacinadas.

O Ministério da Saúde, em seu site, orienta que sim, pois “pesquisas apontam que a vacina pode proporcionar uma imunidade mais duradoura à COVID-19 e fortalecer a imunidade natural à doença”.

Imunização

Segundo o médico infectologista Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, a vacina é capaz de manter uma proteção contra determinadas alterações que o vírus promove. “É fundamental que as pessoas usem a vacina, independentemente de terem tido a doença, sobretudo neste momento em que a construção do conhecimento [sobre o vírus] não está completa”, disse ao O SÃO PAULO. “Quem já foi infectado não está imune ao vírus”, enfatizou.

Suleiman explicou que quando uma pessoa recebe a vacina, ela vai produzir “uma substância contra um vírus vacinal, ao contrário da substância que ela produz contra um vírus selvagem (causador da doença)”. Além disso, “a proteção contra o vírus selvagem é muito mais curta do que a proteção produzida pelo vírus vacinal”.

O infectologista confirmou que ainda não se sabe por quanto tempo uma pessoa que tem anticorpos vai ficar protegida contra o coronavírus. “Essa proteção varia, obviamente, em função de inúmeros determinantes. Um exemplo é a idade, pois à medida que envelhecemos, vamos perdendo a capacidade de responder com a produção de anticorpos”, elucidou.

No entanto, ainda não há garantias de que, para as pessoas que já tiveram a COVID-19, a vacinação funcione como um booster (reforço) para a quantidade de anticorpos ou de prolongamento do período de imunização, conforme detalhou à reportagem a epidemiologista e infectologista Luana Araújo, consultora em saúde pública global de organizações supranacionais. “Não temos como dizer isso ainda [que a vacina gera o reforço a quem já foi infectado]. Algumas hipóteses levam essa situação em consideração, mas o que acontece é que ainda estamos aprendendo muita coisa com relação à doença”, afirmou.

Luana compartilhou que já foram observados “pacientes que tiveram a doença muito levemente e não desenvolveram resposta imunológica suficiente pra protegê-los, nem da própria variante que os atingiu”. Nesses casos, “talvez a vacina não tivesse nenhum aproveitamento de uma imunidade anterior”. Diante disso, ela “induziria uma primeira imunidade nesses pacientes”.

A epidemiologista acrescentou que mesmo os pacientes que tiveram a doença moderada ou grave tenham apresentado essa imunidade anterior, precisam tomar as duas doses da vacina.

Infectados: quando vacinar?

Assim como ocorre com outras vacinas, diante de “doenças agudas febris moderadas ou graves”, Luana lembra que o Ministério da Saúde recomenda que pessoas infectadas “aguardem quatro semanas entre o início dos sintomas da doença [COVID-19] e a primeira dose da vacina, para que não haja superposição de sintomas e as pessoas confundam algo que pode ser causado pela vacina com algum sintoma da doença”.

A médica frisou que as vacinas disponíveis são incapazes de provocar a COVID-19. “Como elas induzem a uma resposta imunológica, as pessoas podem desenvolver sintomas que, normalmente, são bastante brandos e autolimitados, relacionados ao local de aplicação, como dor no braço. Algumas pessoas podem ter sensação de moleza e ter febre baixa, mas também autolimitada. Dura, no máximo, 48 horas”, ressaltou.

Depois de tomar a vacina, estarei imunizado?

Foto: Prefeitura de São Paulo

Embora a vacina reduza o risco de desenvolver complicações pela COVID-19, ainda não está claro seu impacto na infecção. Por isso, mesmo depois de vacinada, a pessoa deve continuar seguindo medidas protetivas como o uso de máscaras, a manutenção do distanciamento social e a higienização das mãos, pois não está totalmente descartada a possibilidade de contaminação.

“A função da vacina, entre outras coisas, é proteger da forma grave da doença. Não existe nenhum produto vacinal que seja capaz de dar proteção de 100%. Não seria diferente com a vacina da COVID-19”, pontuou Suleiman. “Se ocorrer uma infecção entre a primeira e a segunda dose, o que se espera é que a forma da doença seja uma forma bastante branda. Nesse cenário, é fundamental que a pessoa aguarde no mínimo duas semanas para receber a segunda dose”.

Luana também alerta que a proteção global que a vacina consegue oferecer só é atingida após a pessoa ter recebido as duas doses. “Não se pode relaxar em nenhum momento, mas principalmente entre as doses, para não cair em uma sensação de falsa segurança”.

Outro ponto salientado pela médica é sobre o quanto uma vacina é capaz de proteger a população. Ela destaca que quando se aponta que uma vacina tem eficácia global de 50%, este é o percentual de chance de que ela esteja protegida de contrair a doença, com base no risco inicial ao qual a pessoa está exposta.

“Se a pessoa tem um risco de 10x de pegar a doença, porque ela se expõe muito, por exemplo, quando ela tomar a vacina, o risco dela vai reduzir para 5x. Agora, se ela se protege direitinho, seguindo todas as recomendações de saúde pública, ela tem um risco baixo de x de contrair a COVID-19. Quando ela tomar a vacina com 50% de eficácia global, esse risco será reduzido para meio x”, exemplificou a infectologista.

“É muito importante que as pessoas entendam que a vacina é um fator complementar de proteção, mas não é um fator absoluto. Ela não trabalha independentemente da sua exposição ao vírus, ela trabalha em conjunto com isso”, finalizou.

Mais sobre a vacinação

Em janeiro, a Arquidiocese de São Paulo realizou uma live, “Diálogos com a Cidade”, em que o tema tratado foi a vacinação contra a COVID-19. Na ocasião o Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, conversou com infectologistas que ressaltaram a importância da imunização e tiraram dúvidas sobre as vacinas desenvolvidas, o processo de imunização e as medidas necessárias para combater a pandemia. A íntegra do conteúdo pode ser acessada neste link: https://cutt.ly/CcNYvw8

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