Arquidiocese de São Paulo e Aliança de Misericórdia realizaram em 21 de dezembro, a 10ª edição do evento, com ceia natalina para cerca de 2 mil pessoas em situação de vulnerabilidade. Início foi com a missa presidida pelo Cardeal Scherer

Há mais de 20 anos, Sérgio Cassiano dos Santos, 51, vive em situação de rua no centro de São Paulo. Em 2025, porém, rodeado de amigos e com um sorriso marcado pela esperança, ele pôde experimentar algo diferente do seu dia a dia: sentiu-se acolhido pelos missionários da Aliança de Misericórdia durante a 10ª edição do Natal dos Pobres, em 21 de dezembro.
Mais do que a oferta de alimento, Sérgio destacou o sentimento de dignidade por ter um lugar para se sentar e um talher para fazer sua refeição, descrevendo a experiência como um momento em que se sentiu verdadeiramente em família.
Em um tempo de celebração e renovação, como o Natal, ele disse ao O SÃO PAULO que só podia “agradecer a Deus e aos missionários da Aliança de Misericórdia” pelo cuidado e respeito recebidos.
PARA MAIS DE 2 MIL PESSOAS
Considerada a maior ceia de Natal a céu aberto, a poucos metros da Igreja-mãe da Arquidiocese de São Paulo, as mesas foram postas para a ceia.
Sob o tema “Ninguém é tão pobre que não tenha nada para dar, nem tão rico que não tenha nada para receber”, a 10ª edição do Natal dos Pobres, organizada pela comunidade Aliança de Misericórdia, ofereceu alimento a cerca de 2 mil pessoas em situação de vulnerabilidade.
A iniciativa contou com a participação de mais de 557 voluntários vindos do Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG) e cidades do interior do estado de São Paulo.
Promovido desde 2015 pela Aliança de Misericórdia, o Natal dos Pobres encerrou a semana da ação missionária Thalita Kum, também realizada em dezembro.
‘VOCÊS ESTÃO EM CASA’

A celebração que anunciou a proximidade do nascimento do Menino Jesus teve início com missa presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer.
Na homilia, o Arcebispo Metropolitano destacou a presença dos missionários envolvidos na ceia de Natal e enalteceu a expressiva participação de pessoas em situação de vulnerabilidade.
“Que bom ver os pobres participando da missa. Vocês são sempre bem-vindos; fazem parte da Igreja. Venham sempre, podem entrar: a casa é de vocês. Fico muito contente quando os vejo nesta Catedral, rezando, descansando, sentindo-se em casa”, afirmou o Cardeal.
DEUS SE REVELA AOS POBRES
O Arcebispo refletiu sobre o tempo do Advento como um período de espera pelo cumprimento da promessa de que Deus habitaria no meio de seu povo: “Deus vem ao nosso encontro para estar no meio de nós, e precisamos acolhê-lo. Ninguém precisa ter medo de abrir as portas a Jesus Cristo, porque Ele traz alegria, paz e a presença de Deus.”
Dirigindo-se aos missionários, Dom Odilo ressaltou que a missão realizada possibilitou uma experiência concreta desse encontro com Deus aos que mais precisam.
“As pessoas perceberam, por meio de sinais e gestos, que Deus veio ao encontro delas, tocou suas vidas e as ajudou, quem sabe, a rever a própria história. Nestes dias de missão, vocês certamente também se depararam com muitas surpresas de Deus: um Deus que toca o coração, converte, chama, provoca mudanças e convida a um caminho novo, o caminho da vida e da salvação. As surpresas de Deus em nossa vida são sempre surpresas de amor, misericórdia e salvação”, afirmou.
NO CORAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS
Após a celebração eucarística, os missionários e Dom Odilo foram ao encontro das pessoas que aguardavam o início da ceia de Natal. Ao proferir a bênção sobre os alimentos, o Cardeal recordou que “servir os pobres faz parte do Evangelho” e destacou que ali se vivia uma grande celebração em família.
Em uma só voz, missionários e pessoas em situação de vulnerabilidade rezaram a oração do Pai-Nosso antes do início da ceia.
CONSTRUINDO MEMÓRIAS

Para Mônica da Silva, mãe de seis filhos, o momento foi além da simples saciedade do alimento: renovou as esperanças de uma vida melhor e mais digna para ela e sua família, após a conquista de um quarto alugado na região central.
Com o sorriso no rosto e os filhos e amigos ao seu redor, Mônica ressaltou: “Às vezes, os momentos difíceis vão nos deixando amargurados, mas experiências como esta, hoje, nos mostram que ainda existem coisas boas. Nós somos pobres de dinheiro, mas ricos de alegria”.
RENOVAR AS ESPERANÇAS
Pela primeira vez, Caroline Felintro, 38, participou do Natal dos Pobres com o marido, Renato, e a filha Raquel, de 3 anos. Há dez anos vivendo em situação de rua, a família conta com o apoio de amigos para minimizar as dificuldades.
A experiência, para ela, reafirma o direito de todas as pessoas de poder celebrar o Natal com dignidade e a confiança de que, com fé em Deus, será possível viver dias melhores.
Felipe Santos Duarte também participou do Natal dos Pobres ao lado da esposa, Tatiane, e do filho Yuri, de 4 anos. Moradores de uma ocupação, eles afirmam que celebrar o nascimento do Menino Jesus, em um ambiente de fraternidade, representa uma oportunidade de fortalecer os laços familiares.
EU VIM PARA SERVIR

Entre os voluntários, estava Márcia Regina Cassiano, da Paróquia São Cristóvão, da Diocese de Santo Amaro. Ser voluntária na iniciativa era um desejo antigo, concretizado nesta edição. Para ela, a proximidade com os mais vulneráveis permitiu transmitir um pouco do amor de Deus.
No domingo de celebração do Natal dos Pobres, Anderson Mascarenhas, 41, esteve no centro de São Paulo não para cumprir sua rotina de trabalho, mas para olhar com calma cada irmão atendido por meio do seu gesto de serviço. Foi a segunda vez que ele serviu no Natal dos Pobres, a convite de amigos da comunidade Toca de Assis. Ele vê esse gesto como uma forma de se conectar com a própria fé e resgatar o verdadeiro sentido do Natal.
Também participou Júlia Airane, 24, fonoaudióloga e membro da Pastoral da Calçada, do Santuário Santa Teresinha, em Taboão da Serra (SP). Pela primeira vez no Natal dos Pobres, afirmou que seu maior desejo foi promover a esperança do nascimento de Cristo no coração de cada pessoa que pôde servir.
“Cada vez que servimos um irmão, é um reencontro com Cristo diante de nós: reconhecer Cristo no outro. Que os irmãos possam me reconhecer como filha de Deus e que se recordem da dignidade e da humanidade que cada um possui”, expressou Júlia.





