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Vidas veneráveis que floresceram no concreto paulistano

As trajetórias de homens e mulheres que fizeram do cotidiano em São Paulo o seu território de missão e o seu caminho para o céu

Vidas veneráveis que floresceram no concreto paulistano - Jornal O São Paulo

Entre os arranha-céus que definem a silhueta de São Paulo e o fluxo ininterrupto de seus quase 12 milhões de habitantes, encontram-se trajetórias silenciosas de santidade, esculpidas no anonimato das calçadas. A capital que carrega no nome a força de um apóstolo não se ergue apenas com concreto e aço, mas sustenta-se sobre legados de virtude que moldaram gerações. Nesta edição especial, resgatamos a história de veneráveis que caminharam por estas mesmas ruas, deixando marcas de eternidade em uma metrópole que nunca aprendeu a parar.

A CATEDRAL DE GESSO: O RETRATO DE MARIA DE LOURDES GUARDA

No ritmo frenético de São Paulo, em que a pressa é a regra, uma presença imóvel desafiou a lógica da metrópole. Por quase cinquenta anos, a vida de Maria de Lourdes Guarda coube nos limites de um quarto de hospital, mas seu espírito recusou a inércia. Mesmo confinada a uma estrutura de gesso que a envolvia do pescoço aos joelhos, ela movimentou o respeito à dignidade humana, transformando a própria dor em um testemunho de amor e compaixão. Recentemente, em 21 de novembro de 2025, o Papa Leão XIV autorizou a promulgação do decreto que confirma suas virtudes heroicas, elevando a leiga paulista ao título de Venerável.

‘A VIDA É BOA!’

Nascida em Salto, no interior paulista, Maria de Lourdes viu seu destino mudar drasticamente em 1947, aos 21 anos. O que deveria ser uma cirurgia para aliviar dores na coluna resultou em uma paralisia irreversível. Seguiu-se, então, um calvário de seis operações em cinco anos, que culminaram na amputação da perna direita, atrofia total da esquerda, extração dos ossos dos quadris e a implantação de parafusos na coluna. No Hospital Matarazzo, na capital, ela viveu décadas sob uma “gaiola de madeira”, instalada para que o simples toque do lençol não ferisse sua circulação debilitada. Mas, no silêncio daquela clausura forçada, Lourdes preferiu irradiar vida.

“Ao aceitar a sua condição de pessoa com deficiência, ela abre o seu coração para o Cristo Salvador e acolhe com alegria o próprio sofrimento e a própria limitação física. Assim, ela aprendeu na prática a acolher a angústia e a dor das pessoas que a procuravam”, relata ao jornal O SÃO PAULO Amélia Galan, amiga e testemunha desse impacto. Amélia, que convive com Atrofia Muscular Espinhal (AME), recorda como o encontro mudou sua perspectiva: “Eu vivia dentro de quatro paredes, mas com ela descobri que sou uma pessoa com direitos e deveres. Ela sempre dizia: ‘A vida é boa!’. Olha só, uma pessoa na situação dela pensava assim”. 

FUNDAÇÃO DA FCD – A MOBILIDADE DO AMOR

Esse vigor foi o motor que levou Lourdes a fundar, em 1981, a Fraternidade Cristã das Pessoas com Deficiência (FCD), o primeiro movimento do gênero no estado focado não no assistencialismo, mas na valorização humana e descoberta das potencialidades das pessoas com deficiência. A biografia de Lourdes, apropriadamente intitulada “Um Quarto com Vista para o Mundo”, narra suas “aventuras”, como ela chamava as viagens pelo país em macas adaptadas dentro de kombis, ônibus e aviões para visitar presídios, hospitais e famílias.

Seu quarto no Matarazzo tornou-se um ponto de peregrinação cosmopolita. Ali, políticos, artistas e religiosos dividiam o espaço com desempregados e aflitos. A todos, Lourdes oferecia a mesma moeda: uma escuta profunda e um sorriso que o gesso jamais conseguiu imobilizar. “Nós nos reuníamos no quarto de Lourdes para discutir políticas públicas. Questões de como a sociedade precisava mudar para incluir, e não esperar a pessoa ser ‘consertada’ para integrar a sociedade”, compartilha Amélia. “Ela sempre dizia que ‘nenhuma deficiência é impedimento para a vida’. Lourdes acreditava na vida, independentemente das limitações, porque a dignidade humana vem do fato de sermos imagem e semelhança de Deus e não no que produzimos”.

A FCD cresceu e se multiplicou em mais de 250 núcleos pelo Brasil, provando que a realização pessoal não depende da perfeição física. Quando faleceu, em 1996, Maria de Lourdes não deixou apenas uma instituição, mas um legado de amor, principalmente para a capital paulista. Hoje, com o reconhecimento da Santa Sé, sua história é um modelo de ressignificação da dor e uma prova de que não existe “invalidez” para quem descobriu o chamado de Deus.

Um paradoxo de pedra e prece

São Paulo foi historicamente forjada pela imponência das grandes construções e pelo encontro de muitos povos. Contudo, sob a superfície da metrópole, um solo fértil fez brotar frutos de vidas que buscaram o sentido do sagrado e a vivência radical da vontade de Deus. Nas calçadas do Ipiranga, nos colégios centenários ou nos hospitais que pontuam a capital, personagens singulares deixaram rastros de uma dedicação que transcende o próprio tempo e ajudaram a compor a identidade espiritual da cidade.

PADRE MARCHETTI: APÓSTOLO DOS IMIGRANTES

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A vocação de José Marchetti cruzou o oceano em meio ao drama dos imigrantes italianos, cujas dores ele sentiu como próprias ao vê-los partir no porto de Gênova. Após assumir nos braços um bebê órfão em pleno convés de um navio, Marchetti compreendeu que sua missão em solo paulista não se limitaria ao conforto espiritual, mas exigiria abrigo concreto. Foi na colina do Ipiranga, com o apoio de figuras como o Conde José Vicente de Azevedo, que ele lançou a pedra fundamental do Orfanato Cristóvão Colombo, estabelecendo um refúgio para as crianças desamparadas que a nova metrópole via multiplicar-se.

No entanto, a dedicação do sacerdote não se restringiu aos muros da instituição; ele percorreu as fazendas de café do interior, enfrentando sacrifícios para assistir os trabalhadores em suas necessidades mais urgentes. Foi nessa entrega incansável que Marchetti encontrou o seu limite físico, ao contrair febre amarela enquanto cuidava de doentes. Sua morte prematura, aos 27 anos, encerrou uma vida curta em tempo, mas extensa em legado, consolidando-o como um “mártir das fadigas apostólicas” cujo rastro de caridade permanece vivo na geografia humana de São Paulo.

MADRE MARIA TERESA DE JESUS EUCARÍSTICO: SUA DOR SE TORNOU MISSÃO

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Nascida no coração de São Paulo no início do século XX, Dulce Rodrigues dos Santos viu seus próprios sonhos de juventude serem interrompidos pela tuberculose, uma sentença quase definitiva na época. Obrigada a trocar o asfalto da capital pelo clima de São José dos Campos, a então jovem professora encontrou na “cidade da esperança” não apenas o seu tratamento, mas o seu verdadeiro chamado. O que seria um refúgio para a cura pessoal transfigurou-se em um hospital de caridade a céu aberto, onde Dulce descobriu que sua vocação floresceria justamente no solo da fragilidade humana. 

A transformação de Dulce na Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico selou o nascimento das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada. Recusando o enclausuramento tradicional para permanecer ao lado daqueles que a sociedade muitas vezes isolava, ela fez do cuidado aos doentes e do apoio aos sacerdotes o centro de sua vida espiritual. Sua trajetória, encerrada em 1972, deixou em São Paulo um legado que prova que a santidade pode ser tecida com os fios da resiliência, convertendo o sofrimento individual em uma rede de acolhimento que até hoje ampara os necessitados.

A FLOR DO CARMELO EM SOLO PAULISTA: O SILÊNCIO DE MADRE CARMINHA 

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Natural de Itu e batizada como Maria do Carmo de São José, Madre Carminha encontrou na vida contemplativa a força para impactar a metrópole sem nunca precisar ostentar suas obras. No silêncio do Carmelo de Santa Teresinha, no bairro do Tremembé, ela se tornou um farol espiritual para uma multidão de fiéis que buscavam o conforto de suas palavras e a profundidade de sua oração. Sua trajetória na “cidade que não para” foi marcada por uma entrega absoluta ao sofrimento alheio, convertendo a reclusão monástica em um ponto de encontro entre a paz do sagrado e a angústia urbana. 

A “Santa de Tremembé” enfrentou com serenidade heroica as dores físicas que marcaram seus últimos anos, oferecendo seu sacrifício pelo bem da Igreja. Em 1952, sua partida deu início a uma devoção que transpôs os muros do convento e se espalhou por toda a capital. Madre Carminha permanece como um símbolo de que, em meio ao gigantismo de São Paulo, a maior força reside na humildade e na capacidade de transformar o silêncio em um diálogo eterno de caridade. 

APÓSTOLA DO CUIDADO MATERNAL: MADRE ANTONIETA FARANI 

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Nascida em Curitiba (PR) Maria Concetta Farani veio para São Paulo ainda jovem, trazendo consigo uma ferida familiar que se transformou no combustível de sua santidade: a capacidade heroica de perdoar. Após a morte do pai, a família de Antonieta enfrentou uma traição do tio que os fizeram perder todos os seus bens, levando a família a uma situação de extrema pobreza. Ao ingressar na Congregação das Irmãs Passionistas, ela tornou-se uma presença de paz em hospitais e colégios da capital, onde sua alma permanecia imóvel mesmo diante da agitação da metrópole. 

Primeira brasileira a assumir o cargo de Superiora Provincial em sua congregação, ela equilibrou a gestão administrativa com uma atenção maternal a cada enfermo, garantindo que ninguém se sentisse desamparado na imensidão urbana. Seu legado foi selado em 1963, em São Paulo, ao enfrentar um tumor cerebral com total abandono à vontade divina. Seus restos mortais descansam no bairro de Pinheiros, como um convite perpétuo ao perdão em meio às durezas do cotidiano. 

PIONEIRA DA EDUCAÇÃO: O LEGADO DE MADRE MARIA TEODORA VOIRON

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Primeira filha de Claude Voiron e Catherine Héritier, nasceu na cidade de Chambéry, França, em 06 de abril de 1835. Manifestando o desejo de ser freira, entrou para o convento das Irmãs de São José de Chambéry, em 1852. Após as etapas de tomada do véu e noviciado, fez sua profissão religiosa a 15 de fevereiro de 1855. 

Foi enviada ao Brasil em 1858. Em 1859, Madre Maria Teodora assumiu a direção do recém-fundado Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, na cidade de Itu, o primeiro internato católico no estado de São Paulo. De 1860 a 1870, expandiu a criação de novos internatos que atendiam desde pensionistas de famílias abastadas e influentes, até aquelas que nada podiam pagar. A educação era primorosa e exigente. 

Indignada com a escravidão e impedida de abrir vagas para moças negras junto com a brancas, a religiosa criou uma escola gratuita para meninas escravas e cuidou da formação religiosa das escravas adultas. Abriu também uma casa para meninas pobres e órfãs. 

Na cidade de São Paulo, assumiu a direção do ‘Seminário Nossa Senhora da Glória’, no bairro do Ipiranga, um orfanato para filhas dos soldados mortos em batalha. Em 1871, foi designada à direção da Santa Casa de São Paulo. 

Falecida aos 90 anos, Madre Maria Teodora teve sua vida marcada pela defesa dos mais necessitados, a construção de um legado caritativo e educacional que atravessou gerações, um exemplo de dedicação total a Deus. 

O PERDÃO COMO ÚLTIMA PALAVRA: O SACRIFÍCIO DE NAZARENO LANCIOTTI

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Vindo de Roma para os confins do Mato Grosso na década de 1970, o Padre Nazareno Lanciotti trocou o berço da civilização europeia pela dureza de Jauru, onde a eletricidade e o asfalto eram apenas promessas distantes. Durante quase três décadas, ele não foi apenas um guia espiritual, mas um construtor de dignidade, erguendo hospitais, escolas e asilos com o entusiasmo de quem via no progresso social uma extensão da própria oração. Contudo, a sua voz firme contra a exploração e o tráfico de pessoas tornou-se um ruído incômodo para os que lucravam com a desordem, culminando em uma noite chuvosa em que o seu destino se selou com o sangue de um mártir moderno. 

Baleado na sua própria residência em 2001, Nazareno foi transferido em estado grave para a capital paulista, onde as luzes da metrópole testemunharam o ato final da sua jornada de fé. Nos seus últimos onze dias de vida, o sacerdote transformou o leito de dor num púlpito de paz, partindo apenas após perdoar explicitamente os seus agressores. Sua morte não foi um silenciamento, mas a consagração de uma testemunha fiel que provou que o amor cristão é capaz de sobreviver à violência do mundo. 

O PEQUENO APÓSTOLO DA SAÚDE: ANTONINHO DA ROCHA MARMO

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No coração da São Paulo dos anos 20, a figura de um menino de saúde frágil e olhar profundo começou a atrair a atenção de clérigos e leigos. Antoninho da Rocha Marmo, precocemente atingido pela tuberculose, não viveu a infância entre brincadeiras comuns, mas em um mundo em que a oração e o desejo de servir ao próximo eram o seu fôlego. Conhecido por “brincar de celebrar a missa” com paramentos feitos sob medida e por pregar para outras crianças com uma sabedoria que parecia não pertencer à sua idade, ele transformou o seu próprio sofrimento em uma visão: a construção de um sanatório que atendesse crianças pobres e desamparadas, vítimas do mesmo mal que o consumia. 

Embora tenha falecido aos 15 anos, em 1930, a brevidade da sua vida foi compensada pela imensidão do seu legado na capital paulista. O seu desejo não morreu com ele; a mobilização em torno da sua memória ergueu, em São José dos Campos, o Sanatório Antoninho da Rocha Marmo, sob os cuidados das Pequenas Missionárias, obra que ele próprio profetizara. Sepultado no Cemitério da Consolação, o seu túmulo tornou-se um dos pontos de maior peregrinação da cidade, em que fiéis de todas as partes buscam o auxílio daquele que, mesmo no limite da vida, ensinou a São Paulo que a santidade não exige uma vida longa, mas uma entrega absoluta ao amor e à caridade. 

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