Catequeses do Papa: ‘A velhice é um presente para todas as idades da vida’

Catequeses do Papa: 'A velhice é um presente para todas as idades da vida'
Vatican Media

Desde que assumiu o pontificado, o Papa Francisco dedica atenção especial aos idosos, manifestando sua preocu- pação com os impactos da chamada “cultura do descarte” nessa fase da vida. Em fevereiro, o Papa iniciou uma série de catequeses sobre a velhice. Ao todo, serão 12 audiências gerais das quartas-feiras dedicadas a esse tema. “A velhice é um presente para todas as ida- des da vida. É um dom de maturidade, de sabedoria”, afirmou o Pontífice, ao introduzir a temática.

O SÃO PAULO destaca, a seguir, alguns trechos dessas catequeses.

RAÍZES DA ÁRVORE

Na primeira catequese, Francisco afirmou que os idosos são como um verdadeiro “novo povo”, sublinhando que o risco de serem descartados é ainda mais frequente. “Nunca fomos tão numerosos como agora, nunca houve um risco tão grande como agora de sermos descartados. Os idosos são frequentemente vistos como ‘um peso’”, acrescentou.

Juntamente com a migração, a velhice é uma das questões mais urgentes que a família humana é chamada a enfrentar atualmente. Não se trata apenas de uma mudança quantitativa; o que está em jogo é a unidade das idades da vida: ou seja, o verdadeiro ponto de referência para a compreensão e a apreciação da vida humana na sua totalidade. Perguntemo-nos: existe amizade, existe aliança entre as diferentes idades da vida, ou prevalece a separação e o descarte?

Não esqueçamos que, tanto na cultura familiar quanto na social, os idosos são as raízes da árvore: têm toda a história ali, e os jovens são como as flores e os frutos. Se o sumo não vier, se não tiver este “soro” – digamos – das raízes, nunca poderão florescer. Não esqueçamos aquele poeta que já citei muitas vezes: “Tudo o que a árvore tem de florescido vem do que está enterrado” (Francisco Luis Bernárdez). Tudo o que uma sociedade tem de bom está relacionado com as raízes dos idosos.

(Audiência Geral de 23/02/2022)

DIÁLOGO ENTRE GERAÇÕES

O Papa salientou a necessidade de diálogo entre as gerações na segunda catequese. “É necessário procurar o diálogo entre gerações, como uma necessidade humana. E este diálogo é importante precisamente entre avós e netos, que são os dois extremos”, disse.

A velhice certamente impõe ritmos mais lentos: mas não são apenas tempos de inércia […]. A perda de contato com os ritmos lentos da velhice fecha estes espaços a todos. Foi neste contexto que quis instituir a festa dos avós no último domingo de julho. A aliança entre as duas gerações extremas da vida – crianças e idosos – também ajuda as outras duas – jovens e adultos – a criar laços entre si para tornar a existência de todos mais rica em humanidade.

Hoje, verifica-se uma maior longevidade da vida humana. Isto nos dá a oportunidade de incrementar a aliança entre todos os tempos da vida. […]. E também nos ajuda a crescer a aliança com o sentido da vida na sua totalidade. O sentido da vida não está apenas na idade adulta, dos 25 aos 60 anos. O sentido da vida é tudo, desde o nasci- mento até a morte, e deverás ser capaz de interagir com todos, inclusive ter relações afetivas com todos, para que a tua maturidade seja mais rica, mais forte. E também nos oferece este significado da vida, que é total.

(Audiência Geral de 02/03/2022)

GERAR E CUIDAR

Na terceira catequese, o Santo Padre parte da imagem bíblica do dilúvio, quando, diante da necessidade de sal- var a vida na terra da corrupção, “Deus confia a tarefa à fidelidade do mais velho de todos, o ‘justo’ Noé” e indaga: “Irá a velhice salvar o mundo?”.

Noé é o exemplo desta velhice generativa: não é corrupta, é generativa. Noé não prega, não se queixa, não recrimina, mas cuida do futuro da geração que está em perigo. Nós, idosos, devemos cuidar dos jovens, das crianças que es- tão em perigo. […]. Ao cuidar da vida, em todas as suas formas, Noé cumpre a ordem de Deus ao repetir o gesto terno e generoso da criação, que na realidade é o próprio pensamento que inspira a ordem de Deus: uma nova bênção, uma nova criação (cf. Gn 8,15 – 9,17).

Lanço um apelo, hoje, a todas as pessoas que têm uma certa idade, para não dizer velhos. Estai atentos: tendes a responsabilidade de denunciar a corrupção humana na qual se vive e na qual vai em frente este modo de viver de relativismo, totalmente relativo, como se tudo fosse lícito. Vamos em frente. O mundo precisa, tem necessidade de jovens fortes, que vão em frente, e de idosos sábios. Peçamos ao Senhor a graça da sabedoria.

(Audiência Geral de 16/03/2022)

MEMÓRIA E TESTEMUNHO

A narrativa da morte de Moisés e seu “testamento espiritual” inspirou a quarta catequese sobre a velhice, destacando que, como o patriarca, os idosos veem a história com lucidez e a transmitem às futuras gerações.

Um idoso que viveu muito tempo, e recebe o dom de um testemunho lúcido e apaixonado da sua história, é uma bênção insubstituível. Seremos nós capazes de reconhecer e honrar este dom dos idosos? A transmissão da fé – e do sentido da vida – segue hoje este caminho de escuta dos idosos? Posso dar um testemunho pessoal.

Os idosos entram na terra prometida, que Deus deseja para cada geração, quando oferecem aos jovens a bonita iniciação do seu testemunho e transmitem a história da fé, a fé em dialeto, em dialeto familiar, naquele dialeto que passa dos idosos para os jovens. Assim, guiados pelo Senhor Jesus, idosos e jovens entram juntos no seu Reino de vida e de amor. Mas todos juntos. Todos em família, com este grande tesouro que é a fé transmitida em dialeto.

(Audiência Geral de 23/03/2022)

VISITA DE DEUS

A imagem de Simeão e Ana que aguardavam ser “visitados” por Deus, antes de “descansarem em paz”, iluminou a quinta catequese sobre a velhice.

A velhice debilita, de uma forma ou de outra, a sensibilidade do corpo: um é mais cego, outro é mais surdo… No entanto, uma velhice que se exerceu na expectativa da visita de Deus não perderá a sua passagem: aliás, estará ainda mais pronta para acolher, terá mais sensibilidade para receber o Senhor quando Ele passar.

Temos necessidade de uma velhice dotada de sentidos espirituais vivos e capaz de reconhecer os sinais de Deus, ou seja, o Sinal de Deus, que é Jesus […]. A velhice que cultivou a sensibilidade da alma extingue toda a inveja entre as gerações, todo o ressentimento, toda a recriminação pelo advento de Deus na geração seguinte, que chega com a despedida da própria. E isto é o que acontece a um idoso aberto, a um jovem aberto: despede-se da vida, mas entrega – entre aspas – a sua vida à nova geração […]. Precisamos de anciãos sábios, maduros em espírito, que nos deem esperança para a vida!

(Audiência Geral de 30/03/2022)

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