Francisco: África, um continente a ser valorizado, não saqueado

O Santo Padre recebeu em audiência, no dia 15 de dezembro de 2022, no Vaticano, os membros da revista “Mundo Negro”, dos Missionários Combonianos da Espanha, aos quais concedeu uma entrevista de cerca de 30 minutos. Estavam presentes, entre outros, o diretor da revista, Padre Jaume Calvera, e o Cardeal Miguel Ángel Ayuso Guixot, Prefeito do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso. Eis alguns trechos da entrevista, publicada on-line nesta sexta-feira, 13.

Francisco: África, um continente a ser valorizado, não saqueado, Jornal O São Paulo
Foto: Vatican Media

Mundo Negro

Santo Padre, quando o senhor se tornou Jesuíta, queria, entre outras coisas, ser missionário ao Japão?

“Sim, é verdade”.

O que o então Padre Bergoglio fazia na época?

“Acho que sempre me dediquei às periferias. Eu via mais seu aspecto interior, não porque apenas me interessavam intelectualmente. Queria ir para além das fronteiras”.

O senhor disse que “a África nunca deixa de surpreender”. Quanta desta surpresa pode ser atribuída aos missionários que o senhor encontrou lá?

“O que mais me surpreendeu dos missionários foi sua capacidade de se inserir nos diversos lugares, respeitar as culturas e ajudá-las a se desenvolver. Eles não tiram as pessoas das suas terras, pelo contrário. Quando vejo os missionários, apesar de alguém sempre poder errar, percebo que a Missão Católica não faz proselitismo, mas anuncia o Evangelho, segundo a cultura local. Catolicismo é isso: respeitar as culturas. Não há uma cultura católica como tal, mas um pensamento católico. Porém, cada uma das culturas está enraizada no católico, devido à ação do Espírito Santo, na manhã de Pentecostes. Isso está bem claro. O católico não possui uniformidade, mas harmonia, a harmonia nas diferenças. Esta harmonia é dada pelo Espírito Santo. Um missionário vai, respeita o que encontra em cada lugar e ajuda a criar harmonia. Todavia, não faz proselitismo ideológico ou religioso, muito menos colonialismo. No entanto, houve alguns desvios, em certos continentes, por exemplo, o grave problema das escolas no Canadá: estive ali e falei sobre isso, devido à independência, que, na época, não estava muito clara. Mas, o missionário tem que respeitar a cultura do povo local, conviver com ela e levar adiante seu trabalho”.

O Concílio Vaticano II, que comemora seu 60º aniversário, deu um extraordinário impulso missionário. Desde então, a Missão mudou? A Igreja e os povos precisam de outra Missão?

“Sim, graças a Deus! Os historiadores dizem que, para que um Concílio tenha um resultado total, precisam 100 anos. Então, já percorremos um pouco mais da metade do caminho. Tantas coisas mudaram na Igreja, muitas coisas para melhor… Há dois sinais interessantes: as primeiras efervescências inconvenientes do Concílio já desapareceram, como as litúrgicas, quase inexistentes; surge também certa resistência anticonciliar, que antes não havia, típica de um processo de amadurecimento. Mas, tantas coisas mudaram… Sobre a ação missionária, o respeito pelas culturas e a enculturação do Evangelho são valores que provêm como consequência indireta do Concílio. A fé se insere na enculturação e o Evangelho assume a cultura do povo local: uma evangelização da cultura”.

A Missão deve ser necessariamente feita através do diálogo?

“É evidente. Hoje há uma consciência muito maior do diálogo, e quem não sabe dialogar não amadurece, não cresce e não poderá deixar nada para a sociedade. O diálogo é fundamental”.

Quando o senhor visitou o Marrocos em 2019, disse: “Jesus não nos escolheu e nos enviou para sermos mais numerosos, mas para uma missão”. Estamos preocupados com o número de católicos?

“As estatísticas são úteis, mas não devemos confiar muito nelas. Mas, me pergunto: em quem devo depositar a minha esperança? E lhes pergunto: em quem vocês depositam suas esperanças? Nas suas organizações, na capacidade sociológica de mobilização ou na força do Evangelho?”

De 31 de janeiro a 5 de fevereiro o senhor visitará a República Democrática do Congo e o Sudão do Sul…

“Sim, em julho a viagem foi suspensa por causa do meu problema no joelho… No Sudão do Sul vou junto, em paridade, com o Arcebispo de Cantuária e o moderador da Igreja da Escócia, porque estamos trabalhando muito bem juntos. A República Democrática do Congo é como um baluarte de inspiração. A comunidade congolesa aqui de Roma é dirigida por uma religiosa, Irmã Rita, docente universitária, mas que dirige tudo como um bispo… Celebrei uma Missa em rito congolês para esta comunidade da qual estou muito próximo. Estou muito ansioso por esta viagem. O Sudão do Sul é uma comunidade sofredora. O Congo está sofrendo, neste momento de guerrilha, por isso, não vou a Goma, não posso ir, por causa do avanço da guerrilha. Não vou, não por medo de acontecer alguma coisa comigo. Mas, com aquele clima e diante dos acontecimentos é perigoso que joguem uma bomba no estádio e matam as pessoas. Devemos ter cuidado com as pessoas”.

O senhor fez uma menção sobre a questão das periferias humanas e existenciais, que o leva ao Continente africano. Estas duas periferias são inseparáveis?

”A África é original, mas devemos denunciar uma coisa: a inconsciência coletiva, que diz que a África deve ser explorada. Assim nos diz a história, com a independência intermediária: produz uma independência econômica, a partir da base, mas tem em mente o subsolo para explorar e a exploração de outros países, que se apropriam de seus recursos”.

Quais são as riquezas do Continente africano que não conhecemos?

“Vemos apenas suas riquezas materiais e é por isso que, historicamente, elas sempre foram alvo de exploração. Notamos, hoje, que muitas potências mundiais vão para lá só para saquear, sem perceber a inteligência, a grandeza, a arte daquele povo”.

Ao insistir sobre a guerra na Ucrânia, o senhor sempre reitera que não devemos esquecer outros conflitos ocultos no mundo, também os da África…

“É óbvio. Percebemos que esta é uma guerra mundial porque está próxima de nós… Um dos problemas mais sérios é a produção de armas. Certa vez, alguém me disse: se pararmos de fabricar armas, por um ano, a fome no mundo acabaria. Esta é uma indústria para matar…”.

Quando falamos da exploração no Continente africano, referimo-nos aos recursos naturais e pessoais. O que acontece quando se erguem muros para deter ou impedir isso?

“Quando colocam arame farpado para impedir a sua fuga, é um crime. Trata-se daqueles países que têm um índice demográfico baixo, que precisam de mão de obra, cujas cidades são vazias e não sabem administrar a integração dos migrantes. Os migrantes devem ser acolhidos, acompanhados, promovidos e integrados. Se não estiverem integrados, é um péssimo sinal… No entanto, há uma grande injustiça europeia: Grécia, Chipre, Itália, Espanha e até Malta são países mais expostos para o acolhimento da migração. A Itália, onde apesar da atual política migratória do governo ser restritiva, no bom sentido, sempre abriu as portas para salvar pessoas, que a Europa rejeita acolher. Esses países têm que arcar com tudo e se deparam com o dilema de mandar os migrantes de volta, onde poderão correr o risco de ser maltratados ou até morrer… É um problema sério! A União Europeia não acompanha estes acontecimentos!”.

Fonte: Vatican News

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