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Leão XIV ao povo de Acerra: ‘Todos temos algo a doar, mas primeiro devemos aprender a receber’

Pontífice visitou a cidade italiana visita chamada “Terra dos Fogos” pela forte poluição ambiental que causou consequências dramáticas à saúde da população

Leão XIV ao povo de Acerra: ‘Todos temos algo a doar, mas primeiro devemos aprender a receber’ - Jornal O São Paulo
Fotos: Vatican Media

O Papa Leão XIV visitou no sábado, 23, a cidade de Acerra, localizada no sul da Itália, na região da Campânia, tristemente chamada “Terra dos fogos”, em alusão às consequências da ação das máfias ambientais que causaram dramáticas condições para a saúde da população.  

O primeiro compromisso do Pontífice foi na Catedral de Nossa Senhora da Assunção, onde falou aos bispos, clero, religiosos e as famílias das vítimas da poluição ambiental.

“Que o Espírito Santo lhes conceda ver um ‘exército’ de paz que se levanta e cura as feridas desta terra e das suas comunidades. Não mais o fogo que destrói, mas o fogo que aviva e aquece, o fogo do Espírito que acende os corações e as mentes de milhares e milhares de homens e mulheres, de crianças e de idosos, e inspira cuidado, consolação, atenção, amor verdadeiro”, afirmou o Papa, recomendando ainda: “Deixem morrer o ressentimento, pratiquem por primeiro a justiça que pedem, testemunhem a vida, eduquem para o cuidado”.

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ENCONTRO COM A POPULAÇÃO

Depois, o Papa foi à Praça Calipari, sendo recebido pelas autoridades locais e a população.

O Papa iniciou seu discurso afirmando que “quanto mais uma beleza é frágil, mais ela pede cuidado e responsabilidade”. E explicou o sentido principal da sua presença em Acerra: “confirmar e encorajar aquele impulso de dignidade e responsabilidade que cada coração honesto sente quando a vida brota e imediatamente é ameaçada pela morte”. Quem tem o dom da fé, disse ainda, compreenderá que tal impulso vem de Deus criador, que em cada homem e em cada mulher busca cooperadores para os seus projetos de vida.

Leão XIV prosseguiu seu discurso observando que naquele território, “a vida existe e combate a morte; a justiça existe e se afirmará”.

“Há sempre uma sutil conveniência na resignação, nos compromissos, no adiar das decisões necessárias e corajosas. O fatalismo, a lamentação, o transferir a culpa para os outros são o terreno fértil da ilegalidade e um princípio de desertificação das consciências. Por isso, gostaria de dizer a todos vocês: assumamos, cada um de nós, as nossas próprias responsabilidades, escolhamos a justiça, sirvamos à vida! O bem comum vem antes dos negócios de poucos, dos interesses de grupos, por menores ou maiores que sejam”, disse.

OLHAR CONTEMPLATIVO

O Papa Leão XIV comentou que depois de tanto sofrimento de crianças e inocentes e de perdas de muitos de seus filhos, o valor e o peso dessa dor exigem que tentemos, juntos, ser testemunhas de um novo pacto. “É o momento de um olhar contemplativo”, disse o Pontífice, “aquele para o qual a encíclica Laudato si’ chamou a atenção de todos os seres humanos, cada um a partir de suas responsabilidades”.

Citando a encíclica onde se lê – “deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que deem forma a uma resistência diante do avanço do paradigma tecnocrático” (LS 111) –, o Papa explicou: “Esse paradigma se apresenta ainda hoje como vencedor: está na origem da multiplicação dos conflitos, por trás dos quais está a corrida pela apropriação das matérias-primas; vemo-lo resistir cada vez que quem tem responsabilidades políticas e institucionais é fraco demais com quem é forte; encontramo-lo ativo em um desenvolvimento tecnológico que visa aos lucros vertiginosos de poucos e é cego diante das pessoas, do seu trabalho e do seu futuro. Por isso, se somos chamados a mudar, é a partir do nosso olhar”.

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APRENDER A RECEBER

Segundo alguns, deixar um mundo melhor para os nossos filhos tornou-se uma ambição grande demais. Não deve ser assim, porém, “temos a missão de deixar para o mundo filhos e filhas melhores. O compromisso educativo está ao nosso alcance e é prioritário”, afirmou, enfatizando: “Todos nós temos ainda o que aprender. Cada um tem algo a doar, mas primeiro deve aprender a receber”,sendo preciso “Continuar aprendendo: eis o que nos torna comunidade. Para os cristãos, é ‘caminhar juntos’ com Jesus: tornar-se, em qualquer idade, cada vez mais e melhor seus discípulos”.

O Papa agradeceu aos “pioneiros” locais que, com o seu compromisso corajoso, foram os primeiros a denunciar os males da terra e trouxeram a atenção para a realidade obscurecida e negada do seu envenenamento, particularmente às associações ambientalistas.

“Realizaremos, passo a passo, mas rapidamente, uma economia menos individualista, um sistema menos consumista… Aprendamos, então, a ser ricos de outra forma: mais atentos às relações, mais empenhados em valorizar o bem comum, mais apegados ao território, mais gratos ao acolher e integrar quem vem morar conosco”, prosseguiu.

BOAS PRÁTICAS COMUNITÁRIAS

“É a partir dessa conversão que se podem construir boas práticas comunitárias”, ressaltou, em particular, estar perto do coração humano — e, portanto, mais perto de Deus que o criou — significa desejar uma comunidade mais inclusiva, mais unida, menos afetada pela marginalização e por polarizações”. Não será fácil, disse, porque deve partir de nós mesmos, de onde nos encontramos, é uma via íngreme, ver além de nós mesmos, na verdade, encontrar-nos….

E concluiu dando um exemplo concreto: “o nome ‘terra dos fogos’ remete às fogueiras acesas nas margens das cidades, às vezes por minorias rejeitadas e marginalizadas de irmãos e irmãs que poucos conhecem e valorizam. A marginalização sempre produz insegurança: a via íngreme é combater a marginalização, não os marginalizados; é quebrar a corrente inteira, não atingir apenas o último elo. Vocês bem o sabem!”.

Fonte: Vatican News

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