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Leão XIV publica carta sobre a dimensão humana, educativa e espiritual do esporte

Em ‘A vida em abundância’, sobre o valor do esporte, lançada na sexta-feira, 6, dia da abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina, o Pontífice exorta as nações a redescobrir e respeitar a Trégua Olímpica como valor esportivo que contribuía para a construção da paz

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Papa ganha raquete de presente do tenista italiano Jannik Sinner em 14 de maio (Foto: Vatican Media)

“A prática esportiva, como sabemos, pode ter uma natureza profissional, de altíssima especialização: deste modo, corresponde a uma vocação de poucos, embora suscite admiração e entusiasmo no coração de muitos, que vibram ao ritmo das vitórias ou das derrotas dos atletas. Mas a prática esportiva é uma atividade comum, aberta a todos e saudável para o corpo e para o espírito, a ponto de constituir uma expressão universal do ser humano”.

Assim escreve o Papa Leão XIV na introdução da carta “A vida em abundância”, publicada na sexta-feira, 6, dia em que se realiza a abertura da XXV edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, Milão e Cortina d’Ampezzo, na Itália, que prosseguirão até 22 de fevereiro, após o qual se realizarão os Jogos Paralímpicos de Inverno, de 6 a 15 de março.

“Desejo dirigir uma saudação e os meus melhores votos a quantos estão diretamente envolvidos e, ao mesmo tempo, aproveitar a oportunidade para propor uma reflexão destinada a todos”, prossegue o Pontífice, no texto em que trata da dimensão humana, educativa e espiritual da prática esportiva.

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Comitê Olímpico Internacional

TRÉGUA OLÍMPICA

Na carta, Leão XIV retoma a história da Trégua Olímpica, um acordo que na Grécia antiga era destinado a suspender as hostilidades antes, durante e depois dos Jogos Olímpicos, “para que os atletas e os espectadores pudessem viajar livremente e as competições decorressem sem interrupções. A instituição da Trégua surge da convicção de que a participação em competições regulamentadas (agones) constitui um caminho individual e coletivo para a virtude e a excelência (aretē). Quando o desporto é praticado neste espírito e nestas condições, ele promove o amadurecimento da coesão comunitária e do bem comum”.

“A guerra, pelo contrário, nasce de uma radicalização do desacordo e da recusa em cooperar uns com os outros. O adversário é então considerado um inimigo mortal, a ser isolado e, se possível, eliminado. As trágicas evidências dessa cultura de morte estão diante dos nossos olhos – vidas destruídas, sonhos frustrados, sobreviventes traumatizados, cidades destruídas –, como se a convivência humana fosse superficialmente reduzida ao cenário de um videojogo”, prossegue o Papa.

“Oportunamente, a Trégua Olímpica foi recentemente proposta pelo Comitê Olímpico Internacional e pela Assembleia Geral das Nações Unidas… Por ocasião dos próximos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, encorajo vivamente todas as nações a redescobrir e respeitar este instrumento de esperança que é a Trégua Olímpica, símbolo e profecia de um mundo reconciliado”, ressaltou o Santo Padre.

ESPORTE, FORMAÇÃO HUMANA E CULTURA DO ENCONTRO

O Papa percorre a história do esporte e recorda seu valor formativo ao longo do tempo, destacando a tradição cristã que sempre reconheceu a unidade entre corpo, mente e espírito. Inspirado nas imagens bíblicas utilizadas por São Paulo e na reflexão de pensadores como Santo Tomás de Aquino, Leão XIV sublinha que a atividade esportiva favorece a disciplina, a moderação e o desenvolvimento integral da pessoa, tornando-se um caminho privilegiado de educação humana.

Leão XIV destaca ainda que o esporte é um espaço de encontro e de relação, capaz de promover a fraternidade, o respeito às regras e a superação do individualismo. Quando vivido de forma autêntica, ensina a lidar com a vitória sem arrogância e com a derrota sem desespero, contribuindo para a construção de comunidades baseadas na cooperação, na solidariedade e na cultura da paz.

DESAFIOS ATUAIS E RISCOS DA PRÁTICA ESPORTIVA

Leão XIV chama a atenção também para os perigos que ameaçam os valores do esporte, sobretudo quando ele é submetido à lógica do lucro, do sucesso a qualquer custo e da exploração econômica. Nessas situações, o atleta corre o risco de ser reduzido a mercadoria e a competição perde seu caráter educativo, abrindo espaço para práticas como o doping, a corrupção e outras formas de manipulação.

Além disso, alerta para outras distorções contemporâneas, como a instrumentalização política das competições, o culto excessivo da imagem e do desempenho e o impacto de tecnologias que podem desumanizar a experiência esportiva. Diante desses desafios, o Pontífice reafirma a necessidade de preservar o esporte como instrumento de inclusão, diálogo entre culturas e promoção da paz, especialmente entre os jovens e os mais vulneráveis.

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ESPORTE: UMA ESCOLA DE VIDA

Nos parágrafos finais da carta, Leão XIV destaca ser uma tarefa decisiva à humanidade “pensar e implementar a prática esportiva como um instrumento comunitário aberto e inclusivo”, na medida em que “o esporte pode e deve ser um espaço de acolhimento, capaz de envolver pessoas de diferentes origens sociais, culturais e físicas”.

O Santo Padre lembra, ainda, que os esportistas “constituem um modelo que deve ser reconhecido e acompanhado. A sua experiência cotidiana fala de ascese e sobriedade, de trabalho paciente sobre si mesmos, de equilíbrio entre disciplina e liberdade, de respeito pelos tempos do corpo e da mente. Estas qualidades podem iluminar toda a vida social.A vida espiritual, por sua vez, oferece aos esportistas uma visão que vai além do desempenho e do resultado. Ela introduz o sentido do exercício como prática que forma a interioridade. Ajuda a dar significado ao esforço, a viver a derrota sem desespero e o sucesso sem presunção, transformando o treino em disciplina do humano”.

Leão XIV explica, ainda, que o título da carta “A vida em abundância” remete à promessa de Jesus, e que as metas da vida não devem ser voltadas ao acúmulo de sucessos ou desempenhos, mas a uma plenitude que integre corpo, relações e interioridade: “Em termos culturais, a vida em abundância convida a libertar o esporte de lógicas redutoras que o transformam em mero espetáculo ou consumo. Em termos pastorais, ela exorta a Igreja a tornar-se uma presença capaz de acompanhar, discernir e gerar esperança. Assim, o esporte pode tornar-se verdadeiramente uma escola de vida, onde se aprende que a abundância não nasce da vitória a qualquer custo, mas da partilha, do respeito e da alegria de caminhar juntos”.

(Com informações do Vatican News em Português e Espanhol)

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