Liturgia: expressão da unidade do mistério de Cristo

Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

“O que recebi do Senhor foi isso que vos transmiti: na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória’. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em minha memória’. Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que Ele venha”. (1Cor 11,23-26)

No trecho acima, São Paulo narra os gestos e palavras de Jesus na última ceia, ao instituir o sacramento da Eucaristia. Tais palavras e gestos são repetidos ininterruptamente, há mais de 2 mil anos, cada vez que um sacerdote, ao celebrar a Santa Missa, atualiza o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

Esse conjunto de ritos e símbolos constitui a “liturgia”, palavra de origem grega que significa “obra pública”, “serviço por parte do povo e em favor do povo”. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) ressalta que, na tradição cristã, a liturgia é o meio pelo qual o povo de Deus toma parte na “obra de Deus”. “Pela liturgia, Cristo, nosso Redentor e Sumo Sacerdote, continua na sua Igreja, com ela e por ela, a obra da nossa redenção”, acrescenta o Catecismo (CIC 1069).

É a liturgia que garante a unida- de entre aquilo em que a Igreja crê e celebra. Partindo da imagem paulina da Igreja como “corpo de Cristo”, pode-se dizer que a tradição litúrgica é o meio pelo qual o mistério que une seus membros permanece vivo.

PRIMEIROS CRISTÃOS

Essa unidade celebrativa já era percebida nas primeiras comunidades cristãs, como mostra o livro dos Atos dos Apóstolos, ao narrar que os seguidores de Cristo “perseveravam na doutrina dos apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão e nas orações” (At 2,42). Em outros textos do Novo Testamento e de autores da época, também é possível identificar a centralidade da oração, especialmente da Eucaristia, na Igreja nascente.

Uma das fontes que mostram com detalhes esse aspecto das primeiras comunidades é a Didaqué (ou Doutrina dos Doze Apóstolos), uma espécie de catecismo antigo redigido entre o I e o II séculos.

Sobre a liturgia eucarística, esse documento destaca: “Reunidos no dia do Senhor (dominus), parti o pão e dai graças, depois de confessardes vossos pecados, a fim de que vosso sacrifício seja puro. Quem tiver divergência com seu companheiro não deve se juntar a nós antes de se reconciliar, para que não seja profanado vosso sacrifício, conforme disse o Senhor: ‘Que em todo lugar e tempo me seja oferecido um sacrifício puro, pois sou um rei poderoso, diz o Senhor, e meu nome é admirável entre as nações’”.

Esse trecho, inclusive, mostra que os primeiros cristãos já tinham a consciência da celebração eucarística não apenas como um banquete, mas como o memorial do sacrifício de Cristo.

TRADIÇÃO

Didaqué também descreve os detalhes dessa celebração, que são semelhantes aos da liturgia celebrada hoje. “Primeiro, sobre o cálice: Damos-te graças, Pai nosso, pela santa videira de Davi, teu servo, que nos deste a conhecer por Jesus, teu Servo. Glória a ti nos séculos! Depois sobre o pão partido: Damos-te graças, Pai nosso, pela vida e pela sabedoria que nos deste a conhecer por Jesus, teu Servo. Glória a ti nos séculos!”, ensina.

Além do catecismo primitivo, há relatos sobre a Eucaristia feitos pelos chamados santos padres da Igreja, os primeiros grandes teólogos, como as Apologias de São Justino, escritas por volta do ano 150. Neste texto, o Mártir descreve a celebração:

“Terminadas as orações, damos mutuamente o ósculo da paz. Apresenta-se, então, a quem preside os irmãos, pão e um vaso de água e vinho, e ele, tomando-os, dá louvores e glória ao Pai do universo pelo nome de seu Filho e pelo Espírito Santo, e pronuncia uma longa ação de graças em razão dos dons que dele nos vêm”, destaca o Mártir, acrescentando: “Este alimento se chama entre nós Eucaristia, não sendo lícito participar dele senão ao que crê ser verdadeiro o que foi ensinado por nós e já se tiver lavado no banho (Batismo) da remissão dos pecados e da regeneração, professando o que Cristo nos ensinou”.

São Justino continua o relato, explicando que, uma vez dadas as graças e feita a aclamação pelo povo, os diáconos oferecem a cada um dos assistentes parte do pão, do vinho, da água, sobre os quais se disse a ação de graças, e levam-na aos ausentes. Nota-se aí o hábito de levar a comunhão àqueles que não podiam participar da celebração, como os enfermos e os muitos encarcerados.

O mesmo Santo também descreve a prática da oferta de dons durante a celebração, que eram partilhados com os mais necessitados da comunidade. “Os que têm, e querem, dão o que lhes parece, conforme sua livre determinação, sendo a coleta entregue ao presidente, que assim auxilia os órfãos e viúvas, os enfermos, os pobres, os encarcerados, os forasteiros, constituindo-se, numa palavra, o provedor de quantos se acham em necessidade”, escreve.

Ao longo dos séculos, a liturgia da Igreja passou por evoluções e variações, mas a estrutura essencial da missa sempre se manteve a mesma, aquela transmitida pelos apóstolos

ORAÇÃO EUCARÍSTICA

Na obra “Tradição Apostólica”, Santo Hipólito de Roma descreve os costumes da Igreja no século II e mostra como a celebração dos santos mistérios evoluiu e permite identificar as raízes da oração eucarística feita atualmente.

“Logo que se tenha tornado bispo, ofereçam-lhe todos o ósculo da paz, saudando-o por ter se tornado digno. Apresentem-lhe os diáconos a oblação e ele, impondo as mãos sobre ela, dando graças com todo o presbiterium, diga: ‘O Senhor esteja convosco’. Respondam todos: ‘E com o teu espírito’. ‘Corações ao alto! Já os oferecemos ao Senhor’. ‘Demos graças ao Senhor. É digno e justo’”.

Santo Hipólito continua a descrição com uma espécie de prefácio, como os da liturgia atual: “Graças te damos, Deus, pelo teu Filho querido, Jesus Cristo, que nos últimos tempos nos enviastes, Salvador e Redentor, mensageiro da tua vontade, que é o teu Verbo inseparável, por meio do qual fizestes todas as coisas e que, porque foi do teu agrado, enviaste do Céu ao seio de uma Virgem; que, aí encerrado, tomou um corpo e revelou-se teu Filho, nascido do Espírito Santo e da Virgem”.

RITOS

Ao longo dos séculos, a liturgia da Igreja passou por evoluções e variações conforme a época e as culturas locais. No entanto, a estrutura essencial da missa sempre se manteve a mesma, transmitida pela tradição apostólica.

Para entender a variação de ritos, é preciso recordar que a Igreja Católica no mundo é constituída de 24 igrejas autônomas, sendo uma de rito latino e 23 de rito oriental.

Dos ritos orientais, destacam-se os de origem bizantina, maronita, armênia, caldeia, siríaca, entre outras. O rito latino predominante é o Romano, celebrado pela Igreja de Roma, cujas partes mais importantes remontam ao século V.

MISSAL ROMANO

A primeira edição impressa de um livro com o título de Missale Romanum é datada de 1474. Esse ritual reunia os textos da missa segundo os usos da Cúria Romana (Ordo Missalis Secundum Consuetudinem Curiae Romanae). Nos anos seguintes, surgiram outras edições locais do livro litúrgico.

Em 1570, São Pio V promulgou a reforma litúrgica decorrente do Concílio de Trento, na qual foi estabelecido um único Missal Romano para toda a Igreja Latina, abrindo exceção apenas para ritos que existissem ininterruptamente por, pelo menos, 200 anos e que ainda são utilizados em alguns lugares e ocasiões (Ambrosiano, utilizado na Arquidiocese de Milão, na Itália; Moçárabe, oriundo dos árabes convertidos ao Cristianismo na Espanha, próprio da Catedral de Toledo e, desde 1993, pode ser usado em todo o território espanhol; Bracarense, atualmente, de uso restrito a algumas festas na Catedral de Braga, em Portugal).

Missais com maior ou menor número de modificações foram publicados sucessivamente pelos Papas Clemente VIII, em 1604; Urbano VIII, em 1634; Leão XIII, em 1884; Bento XV, em 1920 (Missal cuja revisão foi iniciada por São Pio X). A sexta e última edição típica do Missal Romano “revisado por decreto do Concílio de Trento” foi aquela publicada pelo Papa João XXIII em 1962.

REFORMA LITÚRGICA

A partir da reforma litúrgica decorrente do Concílio Vaticano II (1962-1965) e da promulgação de um novo Missal Romano por São Paulo VI, em 1969, a forma ordinária do Rito Romano passou a ser a que é celebrada atualmente na maioria das igrejas católicas de rito latino.

Além das variações já mencionadas do Rito Romano, existem variações históricas de algumas ordens religiosas que não foram extintas após o Vaticano II, mas que praticamente caíram em desuso, como o Beneditino, o Dominicano, o Cartuxo, o Carmelita, entre outros. Há, ainda, variações recentes do Rito Romano: Uso do Ordinariado Anglicano deriva de uma variação aprovada em 1980 e, desde 2015, compõe o Missal utilizado pelo ordinariado pessoal criado para as comunidades de origem anglicana que restabeleceram a comunhão plena com a Igreja Católica. Já o Uso Zairense, aprovado em 1988, para as dioceses da atual República Democrática do Congo, incorpora elementos da cultura da África Subsaariana.

Ao aplicar a constituição Sacrosanctum concilium do Concílio Vaticano II, São Paulo VI, assistido por uma comissão de cardeais, bispos e peritos criou uma edição do Missal Romano, promulgada com a constituição apostólica Missale Romanum de 3 de abril de 1969 e que entrou em vigor em 30 de novembro sucessivo, início do novo Ano Litúrgico. Em 1975, o mesmo Pontífice promulgou a segunda edição revisada do Missal e, em 2002, São João Paulo II promulgou a terceira edição típica, cuja tradução brasileira foi recentemente aprovada.

CULTO DIVINO

As revisões e reformas do livro litúrgico da missa reforçam a preocupação da Igreja em favorecer aos fiéis uma participação consciente, ativa e frutuosa, como assinala a constituição Sacrosanctum concilium.

Como afirma uma nota publicada pelo Departamento de Celebrações Litúrgica do Sumo Pontífice, em 2012, o culto litúrgico não pode nascer da fantasia humana, pois, “seria um grito na escuridão ou uma simples autoafirmação” e acrescenta: “A verdadeira liturgia pressupõe que Deus responde e nos mostra como podemos adorá-lo”.

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Familia Oscar e Divanir Machula
Familia Oscar e Divanir Machula
10 meses atrás

A paz irmãos em Jesus Cristo .exelente conteudo sobre a igreja verdadeira de Jesus Cristo e sucessivamente precedida pelos seus escolhidos . Esses conteúdos são necessários
para quem realmente se interessa pela salvação eterna ja sabendo que temos a companhia de Jesus ja passando por esta vida porque focados no interesse de conhece _ Lo através das verdades que nos são transmitidas pelos Senhores . Feliz de quem busca se aprofundar no conhecimento da igreja Catolica Apostolica Romana .pois atraves dela podemos compreender realmente o misterio da salva ção conquistada para nós por Jesus Cristo por Ele ser o servo obediente ao Criador de todas as coisa .gratidão aos que se empenham nessas publicaçoes .