Papa aponta a proximidade com Deus, com o bispo e com os irmãos como pilares para um sacerdócio fecundo

Pontífice ressalta que os padres são chamados à proximidade com Deus, o que os ajuda a ‘atrair toda a força necessária para seu ministério’

Papa aponta a proximidade com Deus, com o bispo e com os irmãos como pilares para um sacerdócio fecundo
Vatican Media

“Por uma teologia fundamental do sacerdócio” foi o tema do simpósio internacional realizado entre os dias 17 e 19, na Sala Paulo VI, no Vaticano. Promovido pela Congregação para os Bispos e pelo Centro de Pesquisa e Antropologia das Vocações, o evento reuniu membros de dicastérios da Cúria Romana, sacerdotes, bispos e superiores de institutos de vida consagrada para aprofundar a reflexão sobre temas como “Tradição e novos horizontes”, “Trindade, missão, sacramentalidade” e “Celibato, carisma, espiritualidade”.

MUDANÇA DE ÉPOCA

O simpósio foi aberto pelo Papa Francisco, que, em seu discurso, partiu de sua experiência pessoal de mais de 50 anos de sacerdócio para falar da vocação. O Pontífice afirmou que, em um tempo de “mudança de época”, os sacerdotes devem aprender a responder ao desafio, não recuando para o passado, buscando “uma espécie de proteção contra riscos”; nem por um “otimismo exagerado” que ignora as dificuldades da mudança. Em vez disso, afirmou ainda, “prefiro a resposta nascida de uma aceitação confiante da realidade, ancorada na sábia e viva Tradição da Igreja, que nos permite ‘ir ao fundo’ sem medo”.

O Santo Padre concentrou sua reflexão nos “pilares da vida sacerdotal”: proximidade com Deus, com o bispo, com os irmãos sacerdotes e com o povo de Deus.

O Bispo de Roma insistiu que os padres são chamados, acima de tudo, à proximidade com Deus, o que os ajuda a “atrair toda a força necessária para seu ministério”. Ao se aproximarem de Jesus, os sacerdotes experimentam com Ele alegrias e tristezas, precisamente porque confiam não na própria força, mas na que vem do Senhor. Essa proximidade deve ser nutrida pela oração e pela contemplação silenciosa de Deus. Ao mesmo tempo, leva os sacerdotes a se aproximarem de seu povo, que, por sua vez, os aproxima de Deus.

COMUNHÃO E UNIDADE

Aproximar-se do bispo, salientou Francisco, significa aprender a ouvir, reconhecer a vontade de Deus na obediência ao outro e no relacionamento com os outros. O bispo, disse ele, é um vínculo que estabelece e preserva a Igreja na unidade.

“É precisamente a partir da comunhão com o bispo que surge um terceiro vínculo de proximidade: a fraternidade”, acrescentou o Papa, referindo-se à amizade entre os padres unidos no presbitério. Essa fraternidade sacerdotal envolve “escolher deliberadamente buscar a santidade junto com os outros, e não por si mesmo”.

DOM DO CELIBATO

Francisco sublinhou que só “aqueles que procuram amar estão seguros” e reforçou que, onde existe a fraternidade sacerdotal e há laços de verdadeira amizade, ali também é possível viver com mais serenidade a escolha celibatária.

“O celibato é um dom que a Igreja latina guarda, mas é um dom que, para ser vivido como santificação, requer relações saudáveis, relações de verdadeira estima e verdadeiro bem que encontrem suas raízes em Cristo. Sem amigos e sem oração, o celibato pode se tornar um fardo insuportável e um contratestemunho da própria beleza do sacerdócio”, afirmou o Papa.

COM O POVO

O Santo Padre descreveu a relação dos sacerdotes com o povo de Deus não como um dever, mas uma graça. “Por esta razão, o lugar próprio de cada sacerdote é no meio do povo, em estreita relação com os outros.”

No entanto, Francisco insistiu que isso significa estar envolvido em suas “vidas reais”, em vez de se protegerem das dificuldades e misérias das pessoas. O Papa pediu aos sacerdotes que imitem o estilo de Jesus, Bom Pastor, fazendo-se próximos, com “compaixão e ternura”.

Por fim, o Pontífice afirmou que “as formas de proximidade que o Senhor exige não são um fardo a mais: são um dom que Ele nos dá para manter viva e fecunda a nossa vocação”.

Sinal do Cristo que derrama a graça

Na homilia da missa de conclusão do evento, no sábado, 19, o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado da Santa Sé, inspirou-se na Palavra de Deus para refletir sobre a figura e o papel do sacerdote, recordando que o presbítero “é um sinal” de Cris- to que “derrama graça, antes de tudo quando celebra a Eucaristia, fonte e ápice de toda a vida cristã. Este é o seu grande poder, que só pode ser recebido no sacramento das ordens sacerdotais”, disse. Na Eucaristia e na Confissão, “está o coração da sua identidade exclusiva”.

Ao falar sobre a identidade sacerdotal, o Cardeal Parolin destacou que, na vida do padre, não é possível separar os momentos em que se está com Jesus ou com o povo. “O sacerdote está sempre com Jesus, mesmo realizando uma dimensão funda- mental de sua própria identidade: viver com seus irmãos, uma característica especialmente peculiar ao sacerdote diocesano, que o Concílio Vaticano II chamou de ‘caridade pastoral’”, afirmou, recordando as palavras do Papa Francisco: “O sacerdote é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo”. “Como disse também São Paulo VI, o sacerdote ‘aprende com todos os seus irmãos a saber ler a mensagem de Deus nos acontecimentos’”, completou o Secretário de Estado.

Fidelidade ao essencial

O Bispo Auxiliar de Milão, na Itália, Dom Paolo Martinelli, avaliou positivamente o simpósio. Ele afirmou ao Vatican News que o evento ajudou a aprofundar a reflexão sobre a dimensão vocacional do sacerdócio. O Prelado acrescentou que se sentiu confortado pelo discurso do Papa. “Não precisamos de coisas estranhas para viver a relação com o Senhor e não são necessários projetos grandiosos para viver o sacerdócio. Precisamos de fidelidade aos aspectos mais simples da vida sacerdotal, como a oração, a celebração, o silêncio, o cultivo de amizades sadias com os irmãos e, sobretudo, aquela imanência real ao povo de Deus”, destacou, completando que basta “andar com alegria na tarefa que o Senhor nos confiou”.

Abusos: pesar e reparação

O simpósio internacional também tratou dos casos de abusos sexuais praticados por clérigos, enfatizando a importância de reconhecer com humildade esse mal que também assola sacerdotes, buscando aprimorar cada vez mais os mecanismos de penalização como também de prevenção de tais crimes. O Cardeal Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos, indicou um caminho necessário a ser seguido para enfrentar esse mal: continuar pedindo perdão. “Esta ocasião é propícia para expressar nosso sincero pesar e pedir perdão às vítimas, que sofrem por suas vidas destruídas por comportamentos abusivos e criminosos, o que permaneceu por muito tempo escondido e tratado com leveza, pela vontade de proteger a instituição e os culpados em vez das vítimas.

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