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Papa: “Vim ao Uruguai para me aproximar, com carinho, de todo o povo”

Referências históricas e desafios do tempo presente marcaram o primeiro pronunciamento de Leão XIV no Uruguai. O Pontífice falou particularmente da proteção à vida, com um chamado para que “o pai se comprometa ao lado da mãe” na criação dos filhos. E recordou sua recente operação no pulmão direito para a retirada de um tumor maligno para ressaltar a importância do acesso à saúde.

Papa: “Vim ao Uruguai para me aproximar, com carinho, de todo o povo” - Jornal O São Paulo
Vatican Newa

O primeiro discurso do Papa Leão no Uruguai foi às autoridades, à sociedade civil e ao corpo diplomático. O evento foi realizado na Praça da Independência de Montevidéu na tarde desta sexta-feira, 6 de novembro.

“Desde já, quero fazer chegar a minha saudação a todos os uruguaios, onde quer que se encontrem”, disse o Pontífice, colocando sob a proteção de Nossa Senhora dos Trinta e Três, Padroeira do país, todos aqueles que encontrará no seu caminho. O discurso foi inspirado no monumento a José Gervasio Artigas, situado no centro da praça, que retrata a marcha do heroi uruguaio. Artigas liderou a chamada “Redota” (ou Êxodo Oriental), que foi uma migração coletiva de cerca de 10.000 a 16.000 pessoas na Banda Oriental (atual Uruguai) em 1811.

Este evento singular na memória uruguaia, afirmou, recorda um povo posto à prova, que teve de deixar para trás muito do que possuía e procurou permanecer unido no meio da incerteza.

Proteger a vida em todas as suas fases

A caminhada deste povo deu frutos. Leão XIV ressaltou os 40 anos ininterruptos de democracia no país, celebrados em 2025, e algumas decisões que impactaram a nação, como o uso dos recursos naturais. A produção de energia elétrica se baseia quase inteiramente em fontes renováveis. Por outro lado, preocupa a evolução demográfica e a necessidade de pensar na vida que cresce no seio materno

“Quem ainda não nasceu já pertence à família humana e ao futuro do seu povo. A sua dependência absoluta da mãe não diminui a dignidade que lhe é própria nem a proteção que merece. O próprio Jesus quis assumir esta condição ao encarnar-se. Acolher uma nova vida exige que o pai se comprometa ao lado da mãe, que a família preste o seu apoio e que existam condições sociais que permitam a ambos criar e cuidar dos seus filhos. A proteção de quem está para nascer e o amparo de quem o acolhe são indissociáveis. ”

O Pontífice reiterou a importância do respeito à vida em todas as suas fases, recordando que não se pode medir o valor de uma pessoa pelo que ela produz, pelo seu trabalho ou pela sua habilidade de se valer por si própria. Valorizou o emprego, sobretudo face às rápidas mudanças da tecnologia e da inteligência artificial. 

E citou como desafios a solidão, a angústia e a perda de esperança: “Perante a dolorosa realidade do suicídio, revelam-se inseparáveis os cuidados de saúde, os laços familiares e a proximidade da comunidade. Ninguém deveria sentir-se estranho entre os seus nem pensar que a sua ausência será menos notada que a sua presença”. O Papa garantiu a contribuição da Igreja para que as pessoas não se sintam sós em suas provações.

Papa relembra sua recente operação no pulmão

Outras formas de sofrimento, acrescentou, manifestam-se no corpo. A este ponto, Leão XIV falou da condição da própria saúde: 

“Recentemente, experimentei pessoalmente as limitações impostas pela doença e recebi cuidados pelos quais estou profundamente grato. Esta experiência levou-me a pensar em tantos homens e mulheres que carecem dos meios necessários para obter um diagnóstico adequado ou receber os tratamentos de que precisam. Garantir que os cuidados de saúde estejam ao alcance de todas as pessoas, independentemente dos seus recursos, é uma responsabilidade que interpela toda a sociedade.”

Montevidéu, sede do Mercosul

Papa: “Vim ao Uruguai para me aproximar, com carinho, de todo o povo” - Jornal O São Paulo

Da história do Uruguai, o Pontífice realçou a convivência entre pessoas de diferentes origens e tradições, que se manifesta nas crenças e convicções dos seus cidadãos. O Estado é laico, mas recordou que a neutralidade não implica que a dimensão religiosa deva ficar confinada à esfera privada. Alargando o olhar para a América do Sul, o Papa citou Montevidéu como sede da Secretaria do Mercosul: “Numa época em que as diferenças podem facilmente transformar-se em motivo de confronto, perseverar no respeito pelo direito, na negociação e na busca paciente de acordos constitui um serviço que o Uruguai pode continuar a oferecer aos seus vizinhos”.

Citando os laços que unem a Santa Sé e o Uruguai, que remontam aos primeiros anos da sua independência, Leão XIV concluiu: “Vim ao Uruguai como Sucessor de Pedro e como pastor, com o desejo de me encontrar com a Igreja peregrina nesta terra e de me aproximar, com carinho, a todo o seu povo”. 

“Que estes dias nos permitam fortalecer o que nos une e renovar a confiança com que enfrentamos as dificuldades e nos preparamos para o que está para vir. Que Deus abençoe o Uruguai e que Maria Santíssima, a quem este povo se confiou no momento do seu nascimento, continue a acompanhá-lo ao longo da sua história. Muito obrigado.”

Fonte: Vatican News

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