
Sacerdote, compositor e regente, o Monsenhor Marco Frisina é fundador e maestro do Coro da Diocese de Roma e autor de numerosas composições, difundidas em diversos países, que marcaram grandes celebrações e eventos da Igreja.
De volta ao Brasil, o maestro participa, entre os dias 28 e 30, do 1º Congresso Internacional de Coros, em Campinas (SP). Antes, na quarta-feira, 26, realiza um concerto beneficente na Paróquia Nossa Senhora do Brasil, na capital paulista. Em entrevista ao O SÃO PAULO, o maestro fala sobre sua trajetória, a música litúrgica e sacra, o papel dos coros, suas composições e os desafios da música na Igreja hoje.
O SÃO PAULO – O que o traz novamente ao Brasil?
Monsenhor Marco Frisina – Há sete anos, vim para uma ocasião semelhante, quando foi realizado em São Paulo um encontro de corais dedicados à música litúrgica, com cerca de 500 pessoas. Neste ano, será quase o dobro, em Campinas. Darei quatro aulas e haverá um concerto final. Falaremos sobre o significado da música litúrgica e da música sacra no contexto atual, cultural, litúrgico e de evangelização.
Faço isso em muitas partes do mundo, mas é sempre significativo encontrar realidades locais riquíssimas e ajudar a Igreja a crescer na consciência da importância da música litúrgica e sacra.
O que torna uma música verdadeiramente litúrgica?
Antes de tudo, a finalidade. A música litúrgica é escrita para a celebração e, por isso, possui características próprias e obedece a certos cânones.
Costumo enumerar cinco características, tomando como referência o canto gregoriano. O texto deve ser sagrado, bíblico, proveniente da liturgia ou da tradição da Igreja. A forma musical deve respeitar a ação litúrgica, como o salmo, a antífona, a ladainha e o responsório. A melodia deve ser significativa e capaz de falar. O canto deve poder ser executado por todos, pois não é para uma elite, mas para a comunidade eclesial. E deve ajudar a rezar, é destinado à oração, não ao entretenimento.
Como conciliar qualidade musical, tradição e participação da assembleia?
Como diz o Concílio Vaticano II, a música deve ser música verdadeira. Sua qualidade nasce também da correspondência entre a música e aquilo que acontece na celebração. Ela pode ter uma linguagem contemporânea, popular ou antiga. Não é a linguagem que a torna sagrada, mas a qualidade com que expressa, de maneira compreensível, aquilo que deve expressar.
Isso está ligado à participação. É o povo de Deus que deve cantar na liturgia. O coro faz parte dele e está a serviço de toda a assembleia. Se chamamos excelentes músicos profissionais, podemos ter um coro maravilhoso, mas sem relação com aquela assembleia. Nesse caso, já não é um coro a serviço da liturgia, mas um coro que faz espetáculo. O povo deve participar nas partes que lhe são próprias. Na liturgia, a participação é fundamental.
Qual é a diferença entre música litúrgica e música sacra?
A música sacra possui conteúdo bíblico e espiritual, mas pode também ser destinada a um concerto, antes ou depois da liturgia, porém, não durante a celebração.
Na liturgia, pode-se executar uma peça da tradição da Igreja, como a polifonia antiga, renascentista ou barroca. Esse patrimônio também pode ser apresentado em concertos espirituais, que possuem poder evangelizador. Pode-se evangelizar muito bem em um concerto com Palestrina, Bach, Bruckner, Fauré e tantos outros.
Como o senhor vê a música litúrgica brasileira?
Conheço pouco, mas conheço alguma coisa. A grande tentação, não apenas para o Brasil, mas para as diferentes culturas musicais litúrgicas, é seguir a moda: o pop, às vezes o rock ou determinado tipo de linguagem. Evidentemente, pode haver influência dessas linguagens, porque vivemos no mundo, mas a liturgia exige um tipo de música, de compostura, de ordem, de estrutura, de forma musical e de texto muito particulares.
Por isso, acredito que seja necessário distinguir sempre entre a liturgia e todo o restante da música sacra. No Brasil, assim como em outros lugares da América Latina, existe a tentação de se tornar músicos pop. Não: devemos ser músicos litúrgicos. O pop pode ser feito em outro lugar.

Como nasce uma composição sua? O que vem primeiro: o texto, a oração ou a música?
Há composições com texto e outras sem texto. As que não têm texto nascem de uma experiência pessoal e, quando se trata de música sacra, de uma experiência espiritual, traduzida por meio dos sons, que são uma linguagem universal.
Quando há um texto, é ele que governa: no significado, nas palavras, que dão ritmo às notas, e,também, na forma. Em “Eccomi” — “Eis-me aqui” —, a própria expressão sugere um passo à frente. Já Anima Christi é íntimo, é uma adoração. As palavras conduzem e inspiram a música. Isso é importante na música sacra.
Já “Jesus Christ, You Are My Life” eu a escrevi durante um passeio com o Coro da Diocese. Procurava, para a Jornada Mundial da Juventude de Roma, em 2000, uma melodia que transmitisse imediatamente entusiasmo aos jovens.
O texto deveria ser uma espécie de slogan sobre Jesus, mas a melodia não vinha. Então, pensei em algo como o toque de uma trombeta, um chamado. Escrevi a ideia, coloquei-a no bolso e depois, em casa, em Roma, desenvolvi a música. Não imaginava que teria tamanha repercussão. Até hoje, quando é executada, cria entusiasmo.
A música deve, então, produzir algo em quem a escuta?
Quando a música tem uma finalidade, ela não é entretenimento. A música deve mudar as pessoas, deve lhes dar alguma coisa. Depois de ouvi-la, deve permanecer dentro da pessoa uma consolação, uma alegria, um entusiasmo.
Quando jovens me dizem: “Entrei no seminário por causa deste canto” ou “fui para o mosteiro por causa daquele canto”, para mim é uma das coisas mais bonitas. Significa que aquela música mudou uma vida, tocou profundamente o coração.
Já tive experiências significativas com jovens com autismo que ouviam muito a minha música e queriam me conhecer. Um deles, depois de nosso encontro, aproximou-se de mim sem me olhar, apoiou a cabeça em mim e foi embora. Outro, durante um concerto, ficou me olhando fixamente enquanto eu regia.
Essas experiências me fazem compreender que, por meio da música, é possível romper muros que parecem intransponíveis. Nós não temos o poder de rompê-los, mas a música pode fazer isso. É um mistério.
Muitas de suas composições foram traduzidas e marcaram diferentes gerações. O que isso representa para o senhor?
Quando comecei, não imaginava nada disso. Pelo contrário, quando entrei no seminário, pensei que não faria mais música. Isso me faz compreender que o Senhor se serviu e continua se servindo de mim para realizar esse serviço. Já se passaram quase 50 anos e meu primeiro canto, “Benedici il Signore, anima mia”, tem 50 anos. Tudo isso me faz compreender o poder da música. Não da música em si, mas de uma música claramente orientada para uma finalidade. Ela possui um poder incrível de levar as pessoas a crer, de aproximá-las e conduzi-las à oração.
Depois de tantos anos dedicados à música da Igreja, que conselho daria aos músicos e corais de nossas comunidades?
Há algo que aprendi: levar a sério aquilo que o Concílio e o Magistério da Igreja ensinam sobre a música sacra. Esses ensinamentos foram fundamentais para mim: não devemos pensar a música sacra como uma exibição de nós mesmos. Ela pode ser expressão de nós mesmos, sim, mas não exibição.
Por isso, digo aos maestros: não sejam vaidosos. E digo o mesmo aos coralistas. Não pensem que estão ali para aparecer. Não devemos nos exibir, porque isso prejudica justamente o serviço que prestamos. É preciso ter liberdade e obediência.




