Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Cardeais brasileiros dialogam sobre as eleições 2026

Cardeais brasileiros dialogam sobre as eleições 2026 - Jornal O São Paulo
Sete cardeais brasileiros participam de diálogo sobre Igreja, política e eleições 2026, promovido pela Rede Vida de Televisão

O olhar da Igreja para a política no País e o processo eleitoral deste ano foi o foco do programa especial “Igreja e Política – Diálogo dos Cardeais do Brasil”, realizado no dia 2 pela Rede Vida de Televisão, em seus estúdios em Brasília (DF), e retransmitido por outras tevês e rádios de inspiração católica. 

Participaram ao vivo os Cardeais Odilo Pedro Scherer, Orani João Tempesta, Jaime Spengler, Sergio da Rocha, Paulo Cezar Costa, Raymundo Damasceno Assis e João Braz de Aviz. Já Dom Leonardo Steiner enviou mensagem de vídeo. 

Ao longo do programa, os Purpurados falaram dos princípios que pautam a atenção da Igreja para a política, dialogaram sobre temas que impactam o cotidiano do cidadão e responderam a perguntas dos telespectadores. 

A BUSCA DO BEM COMUM 

Dom Paulo Cezar Costa, Arcebispo de Brasília (DF), explicou o conceito de bem comum, que perpassa toda a Doutrina Social da Igreja. “Quando falamos de bem comum, estamos falando da pessoa concreta e das condições necessárias para que ela viva com dignidade”, disse, exemplificando que este se concretiza quando o poder público assegura escolas de qualidade, moradias dignas, atendimento adequado aos doentes, possibilidade de emprego e remuneração justa aos trabalhadores, segurança à população, cuidado com os mais pobres e vulneráveis, saneamento básico e proteção à vida em todas as suas fases. 

HOMENS E MULHERES DE ESPERANÇA 

Dom João Braz de Aviz, Arcebispo Emérito de Brasília, enfatizou a solidariedade social como um princípio a ser valorizado na política, a fim de que ninguém seja excluído. “Como Igreja, acreditamos que é possível construir uma verdadeira fraternidade sem escravidão, sem privilégios, sem dominação, sem mentiras, sem corrupção e sem guerras. Olhando a realidade social e política, sabemos que temos muito a caminhar, mas, mesmo vendo poucas luzes no horizonte, temos sempre que ser homens e mulheres de esperança”. 

Cardeais brasileiros dialogam sobre as eleições 2026 - Jornal O São Paulo

A PARTICIPAÇÃO CIDADà

Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre (RS) e Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), recordou que a Igreja vê na política “a mais nobre expressão da caridade”, e, assim, cabe a toda pessoa que busca construir o bem comum tomar parte do processo democrático, avaliando os candidatos, seus projetos e propostas, “identificando sua capacidade de promover justiça, dignidade humana, inclusão social, solidariedade e o bem comum”. 

A esse respeito, também Dom Orani Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ), sublinhou que o eleitor não deve fazer escolhas políticas somente pensando em benefícios próprios: “Quem se preocupa apenas com seus problemas, se esquece de um bem maior. A pessoa será bem atendida no aspecto particular se tudo funcionar bem para todos”. 

A PRESENÇA CRISTÃ NA POLÍTICA 

Dom Sergio da Rocha, Arcebispo de Salvador (BA) e Primaz do Brasil, ressaltou que a Igreja não adota posições político-partidárias, mas que os cristãos leigos são chamados a participar da política, de modo coerente à fé que professam: “A Igreja não oferece soluções técnicas para os problemas sociais, mas sim aquilo que ela tem de mais precioso: a fé, o Evangelho, o magistério. Por isso, é fundamental que as pessoas conheçam e se aprofundem na Doutrina Social da Igreja”. 

Também Dom Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo, ressaltou que a Igreja não tem vínculos político-partidários e olha para a política com a finalidade de ajudar na edificação da sociedade, apontando para grandes princípios, entre os quais a subordinação da ordem social à ordem moral – “não se pode fazer política com corrupção”; a dignidade da pessoa, a solidariedade social, o bem comum, o amor preferencial pelos pobres e a prioridade do trabalho sobre o capital. 

Cardeais brasileiros dialogam sobre as eleições 2026 - Jornal O São Paulo

A INCIDÊNCIA DAS DECISÕES POLÍTICAS NA ECONOMIA 

Dom Raymundo Damasceno, Arcebispo Emérito de Aparecida (SP), enfatizou que “a política e a economia existem para promover o bem comum e garantir condições que proporcionem o desenvolvimento integral de cada pessoa, incluindo condições de trabalho digno e salário”. 

Ainda sobre este aspecto, Dom Sergio da Rocha sublinhou que “a dignidade do trabalhador deve fa-zer parte das preocupações de quem assume cargos políticos”. 

ATENÇÃO ÀS QUESTÕES AMBIENTAIS 

O apelo para que as pautas ambientais sejam tratadas nas eleições foi feito especialmente por Dom Leonardo Steiner, Arcebispo de Manaus (AM): “Neste momento de eleições, perguntamo-nos quais são os homens e as mulheres que desejam cuidar da casa comum e fazer leis que nos ajudem a cuidar do meio ambiente – da água, do ar e das florestas – mas também dos povos indígenas, dos povos originários”. 

Cardeais brasileiros dialogam sobre as eleições 2026 - Jornal O São Paulo

SENSO ÉTICO E COMBATE À CORRUPÇÃO 

Ao longo do encontro, Dom Odilo sublinhou que a ordem moral deve pautar as questões políticas: “Temos de nos perguntar sempre: ‘Isto é bom?’; ‘Isto traz o bem?’; ‘Isto se realiza com meios lícitos?’ Desenvolver o senso ético é fundamental também na convivência democrática, pois quando este se apaga, some a noção do respeito, do bem comum, da justiça e, assim, cada um buscará se afirmar por conta própria”. 

Também a esse respeito, Dom Paulo Cezar sublinhou que toda denúncia de corrupção, independentemente de quem esteja envolvido, deve ser devidamente apurada e os que praticam atos ilícitos ter as devidas punições: “A corrupção é a deturpação do bem comum, é uma chaga na vida da sociedade, não pode ser tolerada!” 

EVITAR AS POLARIZAÇÕES POLÍTICAS 

Não fazer do debate político um campo para polarizações e disseminação de ódio foi uma preocupação externada pelos cardeais. 

“É bom que haja muitas formas de pensar, mas elas precisam se harmonizar no diálogo, no debate, na forma de melhor propor a edificação do bem comum, da paz e da solidariedade”, comentou Dom Odilo, destacando ainda que a solução dos problemas da sociedade requer o engajamento de todos: “A democracia não é um regime perfeito, mas sim um regime que busca aquilo que é o melhor mediante uma grande participação social. Não há um iluminado ou todo-poderoso que diga ‘eu tenho o poder’, ‘eu tenho a solução’. A democracia chama todo mundo em causa”. 

Dom Sergio, por sua vez, sublinhou a necessidade de que se respeitem as opiniões divergentes: “Jamais se deve transformar em inimigo quem pensa diferente. Temos de crescer, sempre mais, em uma postura de abertura e de respeito, especialmente nas situações de maior fragilidade”. 

Cardeais brasileiros dialogam sobre as eleições 2026 - Jornal O São Paulo

APELO À PARTICIPAÇÃO POLÍTICA CONSCIENTE 

Em suas considerações finais, os cardeais reforçaram alguns aspectos sobre os quais falaram ao longo do programa: 

✓ A Igreja não apoia nem indica votos em candidatos e partidos; 
✓ Não devem ser fomentadas polarizações na família, nas paróquias e na sociedade; 
✓ Todos devem ser respeitados em suas posições políticas (presencialmente e nas redes sociais); 
✓ Ao eleitor cabe votar de modo consciente, ou seja, conhecendo a biografia, os projetos, os feitos e os valores morais dos candidatos que escolher; 
✓ As atenções não devem se voltar apenas à eleição presidencial, uma vez que também serão eleitos governadores, dois senadores por estado e deputados federais e estaduais; 
✓ É importante acompanhar os mandatos dos eleitos; 
✓ Os políticos católicos devem exercer seus mandatos com base nas verdades do Evangelho e não buscando interesses pessoais ou de grupos; 
✓ Os católicos devem conhecer cada vez mais o que a Igreja diz, em sua Doutrina Social, sobre a política; 
✓ O cidadão deve participar das eleições, votando em todos os cargos em disputa. 

Deixe um comentário