Consagrados anunciam ao mundo a glória de Deus

Ordem dos Frades Menores, fundada por Francisco de Assis, santo que ainda atrai muitas vocações (Província Franciscana da Imaculada Conceição)

Desde as origens da Igreja, houve homens e mulheres que se propuseram a seguir Jesus Cristo e a imitá-lo de modo mais intenso, por meio de uma vida inteiramente consagrada a Deus, vivendo a radicalidade da consagração recebida no Batismo.

O Catecismo da Igreja Católica afirma que, sob o impulso do Espírito Santo, “os consagrados se propõem a seguir a Cristo mais de perto, doar-se a Deus amado acima de tudo e, procurando alcançar a perfeição da caridade a serviço do Reino, significar e anunciar na Igreja a glória do mundo futuro”.

Distintamente do ministério ordenado dos diáconos, padres ou bispos, a consagração religiosa não se dá por um sacramento, mas por meio da profissão pública dos três votos ou conselhos evangélicos: castidade, pobreza e obediência. Embora seja um ato pessoal, a consagração não é algo privado, sendo acolhido pela Igreja por meio da família religiosa que a reconhece.

Atualmente, a vida consagrada na Igreja se organiza em ordens, congregações religiosas, institutos de vida consagrada e sociedades de vida apostólica, manifesta em diversos carismas e missões em diferentes âmbitos da vida eclesial. Em alguns institutos, os nomes dos votos podem variar, mas, para serem reconhecidos pela Igreja, devem conter em sua essência os conselhos evangélicos.

Carisma

Os institutos de vida consagrada vivem segundo um “carisma”, que pode ser entendido como um princípio essencial que define a sua missão específica na Igreja. Essa palavra de origem grega é entendida como “graça” ou “dom”, suscitado por Deus no coração dos fundadores.

“Na Igreja, temos um mosaico de carismas que expressam uma dimensão da missão do próprio Cristo no mundo”, afirmou, ao O SÃO PAULO, a Irmã Patrícia Ferreira de Moraes, 42, religiosa da Congregação das Irmãs de Santa Marcelina (Marcelinas), destacando que algumas congregações, por exemplo, identificam-se com a missão de Jesus, Mestre, que ensina e

instrui na fé; outras, com a missão de atender os mais necessitados; outras, ainda, por meio da contemplação de Deus e intercessão pelo mundo. “Todos estamos inseridos na Igreja e somos chamados a servir, cada uma segundo seu carisma”, acrescentou a Religiosa.

Durante encontro com os consagrados no Santuário Nacional de Aparecida (SP), em 2007, o Papa Emérito Bento XVI afirmou que os religiosos são “uma dádiva, um presente, um dom divino que a Igreja recebeu do seu Senhor”. Em poucas palavras, o Santo Padre sintetizou o significado da vida consagrada: “Esse amor sem reservas, total, definitivo, incondicional e apaixonado se expressa no silêncio, na contemplação, na oração e nas atividades mais diversas que realizais, em vossas famílias religiosas, em favor da humanidade”.

Origem

Ainda nos tempos dos apóstolos, a vida consagrada surgiu quando inúmeras jovens decidiram se ofertar inteiramente a Deus na consagração voluntária e perpétua da sua virgindade. Na mesma época, também surgiram grupos de viúvas cristãs que decidiram viver a castidade perpétua, por amor ao Reino dos céus.

Com o passar dos anos, essas mulheres começaram a se associar em grupos e a viver em comunidade, dedicando-se à oração, à penitência, ao serviço aos seus irmãos e ao trabalho apostólico.

Eremitas e monges

No século III, alguns homens se retiravam para o deserto para viver como eremitas, na solidão, no silêncio, na oração, em meio aos trabalhos manuais para sua subsistência.

Aos poucos, a vida eremítica começou a dar lugar à vida comunitária. Daí nasceram os primeiros mosteiros, onde os monges tinham uma vida semelhante à de um eremita, em comunidade, com a presença de um superior e sob uma regra comum.

São Bento é considerado o pai do monaquismo no Ocidente. Nascido em Núrsia, na Itália, por volta de 480, viveu como eremita por três anos, até que sua fama se consolidou e outros monges começaram a segui-lo. Anos depois, fundou seu primeiro mosteiro no Monte Cassino, nascendo, assim, a Ordem Beneditina.

Ordens mendicantes

No início do século XIII, surgiram as chamadas ordens mendicantes, que reuniam homens que, inspirados no chamado do Evangelho, consagravam-se a Deus por meio de uma vida de oração, pregação e serviço da caridade para com os mais pobres.

Entre essas ordens mendicantes, destacaram-se os Franciscanos e os Dominicanos, que atraíram inúmeras vocações e se espalharam por todo o mundo. Dessas ordens, também nasceram os ramos femininos, estimulados pelo testemunho de consagradas como Santa Clara de Assis.

Contrarreforma

A vida religiosa consagrada também teve um papel importante diante da Reforma Protestante, no século XVI. Nesse período, surgiram religiosos como Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (Jesuítas), e Santa Teresa d’Ávila, que reformou a Ordem Carmelita.

Essas ordens eram caracterizadas pela humildade e incondicional obediência ao Papa, fortalecimento da ação evangelizadora, oração em favor da Igreja e busca da perfeição cristã.

Religiosas da Congregação das Irmãs de Santa Marcelina (foto:
Instituto Internacional das Irmãs de Santa Marcelina)

Congregações e institutos

A partir do século XIV, surgiram as chamadas congregações de vida apostólica, voltadas para o serviço pastoral segundo as necessidades locais, por meio das obras de misericórdia espirituais – como a educação, transmissão da fé e formação espiritual – ou corporais – atendimento aos enfermos, aos pobres e sofredores etc.

Nas ordens masculinas, sempre existiram alguns de seus membros que eram ordenados sacerdotes para o atendimento da própria família religiosa e o serviço pastoral. Com o tempo, nasceram congregações formadas por sacerdotes que se reuniam para viver uma regra religiosa.

A partir do século XX, nasceram novas formas de consagração, como as associações de vida apostólica, institutos seculares e associações de fiéis.

VOTOS RELIGIOSOS
A castidade “por amor do Reino dos céus” (Mt 19,12), que os religiosos professam, deve ser tida como exímio dom da graça. Liberta de modo singular o coração do homem (cf. 1Cor 7,32- 35), para que mais se acenda na caridade para com Deus e para com todos os homens […]. Assim, dão testemunho diante de todos os cristãos daquela admirável aliança estabelecida por Deus e que se manifestará plenamente na vida futura, na qual a Igreja tem a Cristo por seu único Esposo.

A pobreza voluntária, abraçada para seguir a Cristo, é um sinal hoje muito apreciado e deve ser diligentemente cultivada pelos religiosos. Se for necessário, pode ser expressa sob novas formas. Por ela, participa-se da pobreza de Cristo, que sendo rico, por nosso amor se fez pobre, para que nós fôssemos ricos da sua pobreza (cf. 2Cor 8,9; Mt 8,20).

Pela profissão da obediência, os religiosos oferecem a plena oblação da própria vontade como sacrifício de si mesmos a Deus, e por ela se unem mais constante e seguramente à vontade divina salvífica. Por isso, a exemplo de Jesus Cristo, que veio para fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4,34; 5,30; Hb 10,7; Sl 39,9), e“tomando a forma de servo” (Fl 2,7), aprendeu a obedecer por aquilo que padeceu (cf. Hb 5,8), os religiosos, sob a moção do Espírito Santo, sujeitam-se, na fé, aos superiores.

(Fonte: Decreto Perfectae caritatis – Concílio Vaticano II)

Convite à renovação na fidelidade aos valores essenciais

Nas últimas décadas, percebe-se uma diminuição do número de vocações à vida consagrada no mundo. Reiteradas vezes, o Papa Francisco manifestou que isso se deve, sobretudo, ao que ele chama de “cultura do provisório”, na qual as pessoas não buscam mais compromissos definitivos.

Nesse sentido, as congregações e ordens religiosas têm refletido muito sobre esse tema e identificam que esse fenômeno também é fruto de um contexto marcado pela secularização da sociedade, da diminuição do número de filhos nas famílias e da forte influência de valores e tendências na sociedade que contradizem o ideal da vida cristã.

Frei César Külkamp, Definidor Geral da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos), afirmou ao O SÃO PAULO que, cada vez mais, chega-se à conclusão de que não é renunciando aos valores essenciais da vida consagrada que os institutos religiosos conseguirão atrair mais vocacionados, cedendo à tentação de resumir a questão vocacional apenas à quantidade.

“Pelo contrário, estamos mais atentos aos critérios para acolher um jovem que deseja abraçar a vida religiosa. É preciso ser uma pessoa com disposição para a renúncia, para a doação total de si, para abraçar a vida comunitária e ter uma vivência sólida da fé”, sublinhou Frei César, ressaltando, ainda, que, atualmente, existe um desafio anterior ao despertar vocacional, que é a existência de muitos jovens e adultos que, embora tenham sido batizados, não foram concretamente iniciados a uma vida cristã e, por isso, não possuem uma vivência de fé que os ajude a discernir sobre o chamado de Deus.

Giuliane Roman, 24, recém-ingressa no Mosteiro Carmelita de Santa Teresa de Jesus – leia mais no Editoral (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Sinais dos tempos

Nesse sentido, o Papa Francisco acentuou que a vida religiosa não deve ceder aos seus princípios fundamentais, pois uma vocação não pode ser reduzida à lógica da “lei de mercado”, que adapta a oferta à demanda de um “cliente”. “Esse seria um caminho de ruína e traria muitos outros problemas, não resolvendo efetivamente a questão vocacional”, acrescentou.

O Franciscano reconhece que o convite à renovação é constante na Igreja. “Somos sempre chamados a nos abrir ao novo, atentos aos sinais dos tempos, mas mantendo-nos fiéis aos valores fundamentais próprios da vida religiosa”, completou.

Atraídos por uma vida nova

Irmã Patrícia Ferreira de Moraes, atualmente formadora das aspirantes da Congregação das Irmãs de Santa Marcelina, destacou que a maioria das jovens que procuram a congregação se sentem atraídas mais pela natureza própria da vida consagrada do que pelos trabalhos realizados.

“Em um mundo secularizado e individualista, vemos jovens em busca do sentido da vida comunitária, da simplicidade e do desapego dos bens materiais. Buscam uma vida configurada a Cristo pobre, casto e obediente, com o desejo de servir a Deus e aos irmãos por meio da entrega total da vida”, ressaltou, frisando que a vida consagrada é um “sinal de contradição” em um mundo marcado por tantos valores que não correspondem ao Evangelho.

Já Frei César salientou que, ainda hoje, o grande “promotor vocacional” dos Franciscanos é o próprio São Francisco. Para ele, isso confirma que os jovens se sentem atraídos por um estilo próprio de vida, pela identificação com alguém que viveu a radicalidade da vida cristã e uma íntima união com Cristo.

“Francisco foi um jovem de seu tempo, com seus sonhos e aspirações que, de repente, rompe com tudo isso, a partir de uma experiência de fé, e dá um passo ousado em sua vida. Esse caminho percorrido por ele ainda é o forte motivador do despertar vocacional de muitos jovens”, destacou o Frade.

Missão de Cristo

Irmã Patrícia reforçou que sem as características essenciais que identificam a vida religiosa, como a centralidade da vida espiritual e comunitária, fiel ao seu carisma, regras ou constituições, as congregações seriam apenas organizações não governamentais (ONGs) ou entidades assistenciais do chamado “terceiro setor”.

“O que os religiosos realizam tem sua origem na missão do próprio Jesus Cristo”, frisou a Religiosa. E sobre esse aspecto, as Irmãs Marcelinas entendem bem, pois, além de instituições de ensino básico e superior, elas administram um grande complexo hospitalar de referência em saúde pública na zona Leste da capital paulista.

“A primeira tarefa da vida consagrada é tornar visível as maravilhas que Deus realiza na frágil humanidade das pessoas chamadas. Antes de qualquer coisa, somos chamadas a experimentar o amor de Deus em nossa vida para que possamos nos doar para as pessoas”, acrescentou Irmã Patrícia, recordando as palavras de São João Paulo II na exortação apostólica Vita consecrata (1996).

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