Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Das telas para as páginas: redes sociais impulsionam o hábito da leitura entre jovens

Levantamento mostra aumento no consumo de livros e aponta o papel de influenciadores digitais na aproximação dos jovens com a leitura

Das telas para as páginas: redes sociais impulsionam o hábito da leitura entre jovens - Jornal O São Paulo
Sawon Mahfuz/Pexels

Em meio ao imediatismo e ao con­sumo de conteúdos cada vez mais cur­tos, um grupo de criadores de conteú­do tem se destacado justamente por incentivar uma rotina voltada à leitu­ra, despertando o interesse por pági­nas e mais páginas de livros.

Independentemente do gênero lite­rário, da ficção à leitura religiosa, tem se tornado cada vez mais comum sen­tir vontade de comprar um novo livro após consumir conteúdos produzidos por criadores do BookTok.

É a partir daqueles três segundos iniciais, em que cada criador de conteúdo busca conquistar a atenção dos seguidores, que horas de leitura têm passado a integrar a rotina de muitos brasileiros.

MAIS DE 3 MILHÕES DE NOVOS LEITORES

De acordo com a pesquisa Pano­rama do Consumo de Livros, divul­gada em março deste ano, o consumo de livros no Brasil aumentou cerca de 18%. O estudo, realizado pela Nielsen BookData, em parceria com a Câma­ra Brasileira do Livro (CBL), mostrou que, entre os brasileiros com 18 anos ou mais, pelo menos um novo livro foi adquirido nos últimos 12 meses, o que representa cerca de 3 milhões de novos consumidores no período.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro, afirmou que um dos dados que mais chamam a atenção da entidade é o avanço da leitura en­tre os jovens. Na faixa etária de 18 a 34 anos, o hábito da leitura cresceu 3,4 pontos percentuais.

“As redes sociais têm papel central nesse cenário. Criadores de conteúdo, recomendações on-line e comunida­des virtuais são hoje portas de entrada reais para novos leitores. Entendemos que essas plataformas ajudam a levar o livro para mais pessoas”, destacou a presidente.

DO ALGORITMO À ESTANTE

Das telas para as páginas: redes sociais impulsionam o hábito da leitura entre jovens - Jornal O São Paulo
Cottonbro Studios/Pexels

“Esses dados revelam algo essen­cial sobre quem está impulsionando o mercado editorial hoje no Brasil. Além do volume de compras, é importante considerar o papel das mulheres na es­colha de leituras para crianças e jovens e na construção de rotinas de leitura, contribuindo para ampliar o contato com os livros em diferentes contextos”, afirmou Sevani.

A pesquisa encomendada pela CBL confirmou um fenômeno que já vinha sendo percebido pelo mercado edito­rial: as redes sociais transformaram a forma como os livros circulam e são descobertos pelos leitores.

“Hoje, a leitura deixou de ser uma experiência isolada e passou a fazer parte de um ecossistema de troca, re­comendação e pertencimento. Um jo­vem pode descobrir um título no feed, acompanhar uma indicação em vídeo e, a partir disso, integrar comunidades de leitores”, afirmou a presidente da entidade.

Os dados do levantamento refor­çam esse movimento. Segundo a pes­quisa, 56% dos consumidores de livros realizam compras por meio das redes sociais, enquanto 22% descobrem no­vos títulos a partir de influenciadores digitais. “Isso evidencia que as redes não são apenas um canal de divulga­ção, mas também de decisão de com­pra”, destacou.

COMO AMPLIAR O HÁBITO DA LEITURA

Para Sevani, a pesquisa demonstra que o setor editorial tem avançado na ampliação da diversidade de títulos, autores e temas, buscando refletir de forma mais fiel a pluralidade da socie­dade brasileira. Segundo ela, esse mo­vimento contribui para o aumento do interesse pela compra de livros entre os brasileiros.

“Trata-se de um sinal importante, que aponta tanto para o fortalecimen­to de públicos já engajados quanto para o potencial de expansão da leitu­ra por meio dessas redes de influência”, afirmou.

A relação da estudante Helena Ma­galhães, 19, com os livros começou ainda na adolescência. Atualmente, ela compartilha seu hábito de leitura em um perfil no TikTok, embora, segundo ela, na infância não gostasse de ler.

A PRIMEIRA HISTÓRIA

Das telas para as páginas: redes sociais impulsionam o hábito da leitura entre jovens - Jornal O São Paulo
Arquivo pessoal

“Quando eu tinha 11 anos, minha mãe me desafiou a ler um livro para ganhar algo em troca. Li A Sereia, da autora Keira Cass. Gostei, mas não me conquistou. Então, minha irmã suge­riu que eu lesse A Seleção, da mesma autora, e eu me apaixonei pelo livro. Li as sequências e, desde então, nunca parei de ler”, recordou a estudante.

Leitura após leitura, os livros passa­ram a fazer parte da rotina de Helena, servindo até mesmo como companhia. Durante a pandemia de COVID-19, após ler uma saga de livros da autora Elle Kennedy, ela decidiu gravar um vídeo comentando suas impressões sobre a história.

Após esse primeiro vídeo viralizar, ela percebeu que poderia fazer par­te de uma comunidade de leitores. A estudante acredita que a influência do BookTok no aumento do consumo de livros se dá, principalmente, pela inte­ração entre os criadores de conteúdo e seus seguidores, sempre de forma natural.

“Eu sou uma criadora que lê o que gosta e realmente abandono os livros que não me agradam, além de falar abertamente sobre isso. Então, reco­mendo apenas os livros que realmente me inspiram. Mas, para mim, o mais importante ao falar de uma obra é compartilhar o que aquele livro me fez sentir, as emoções que despertou em mim”, afirmou.

Como dica para quem deseja co­nhecer novas histórias por meio das redes sociais, o gênero de que mais gosta e, a par­tir disso, seguir criadores de conteúdo que dialoguem com seu gosto literário.

A FÉ INSPIRADA PELOS LIVROS

Entre os gêneros que contribuíram para o crescimento do número de no­vos leitores no Brasil está o de obras religiosas.

A pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, divulgada em maio de 2025, apontou que o gê­nero foi líder no número de exempla­res vendidos, representando 29,5% do total.

Uma das pessoas que passou a ad­quirir livros religiosos é Larissa Faria, 25. Ao redescobrir a fé católica em 2024, ela teve contato com obras de santos como São Francisco de Sales e São Josemaría Escrivá. Hoje, como criadora de conteúdo, ela inclui os li­vros em suas produções e afirma ter percebido um interesse crescente de seus seguidores por obras que refletem valores e fortalecem a espiritualidade.

Antes de fazer suas recomenda­ções, Larissa faz questão de ler todos os livros e analisar se a obra está ali­nhada à sua vivência da fé. Ela tam­bém considera a editora responsável pela publicação e a trajetória do autor de cada título.

“Santo Agostinho dizia: ‘Não se ama aquilo que não se conhece’. Eu complemento: ‘Não se ama aquilo que não se conhece, e não se conhece aqui­lo que não se estuda’. Por isso, acredito que a leitura de livros religiosos nos ajuda a compreender a verdadeira es­piritualidade”, expressou.

Deixe um comentário