Levantamento mostra aumento no consumo de livros e aponta o papel de influenciadores digitais na aproximação dos jovens com a leitura

Em meio ao imediatismo e ao consumo de conteúdos cada vez mais curtos, um grupo de criadores de conteúdo tem se destacado justamente por incentivar uma rotina voltada à leitura, despertando o interesse por páginas e mais páginas de livros.
Independentemente do gênero literário, da ficção à leitura religiosa, tem se tornado cada vez mais comum sentir vontade de comprar um novo livro após consumir conteúdos produzidos por criadores do BookTok.
É a partir daqueles três segundos iniciais, em que cada criador de conteúdo busca conquistar a atenção dos seguidores, que horas de leitura têm passado a integrar a rotina de muitos brasileiros.
MAIS DE 3 MILHÕES DE NOVOS LEITORES
De acordo com a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, divulgada em março deste ano, o consumo de livros no Brasil aumentou cerca de 18%. O estudo, realizado pela Nielsen BookData, em parceria com a Câmara Brasileira do Livro (CBL), mostrou que, entre os brasileiros com 18 anos ou mais, pelo menos um novo livro foi adquirido nos últimos 12 meses, o que representa cerca de 3 milhões de novos consumidores no período.
Em entrevista ao O SÃO PAULO, Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro, afirmou que um dos dados que mais chamam a atenção da entidade é o avanço da leitura entre os jovens. Na faixa etária de 18 a 34 anos, o hábito da leitura cresceu 3,4 pontos percentuais.
“As redes sociais têm papel central nesse cenário. Criadores de conteúdo, recomendações on-line e comunidades virtuais são hoje portas de entrada reais para novos leitores. Entendemos que essas plataformas ajudam a levar o livro para mais pessoas”, destacou a presidente.
DO ALGORITMO À ESTANTE

“Esses dados revelam algo essencial sobre quem está impulsionando o mercado editorial hoje no Brasil. Além do volume de compras, é importante considerar o papel das mulheres na escolha de leituras para crianças e jovens e na construção de rotinas de leitura, contribuindo para ampliar o contato com os livros em diferentes contextos”, afirmou Sevani.
A pesquisa encomendada pela CBL confirmou um fenômeno que já vinha sendo percebido pelo mercado editorial: as redes sociais transformaram a forma como os livros circulam e são descobertos pelos leitores.
“Hoje, a leitura deixou de ser uma experiência isolada e passou a fazer parte de um ecossistema de troca, recomendação e pertencimento. Um jovem pode descobrir um título no feed, acompanhar uma indicação em vídeo e, a partir disso, integrar comunidades de leitores”, afirmou a presidente da entidade.
Os dados do levantamento reforçam esse movimento. Segundo a pesquisa, 56% dos consumidores de livros realizam compras por meio das redes sociais, enquanto 22% descobrem novos títulos a partir de influenciadores digitais. “Isso evidencia que as redes não são apenas um canal de divulgação, mas também de decisão de compra”, destacou.
COMO AMPLIAR O HÁBITO DA LEITURA
Para Sevani, a pesquisa demonstra que o setor editorial tem avançado na ampliação da diversidade de títulos, autores e temas, buscando refletir de forma mais fiel a pluralidade da sociedade brasileira. Segundo ela, esse movimento contribui para o aumento do interesse pela compra de livros entre os brasileiros.
“Trata-se de um sinal importante, que aponta tanto para o fortalecimento de públicos já engajados quanto para o potencial de expansão da leitura por meio dessas redes de influência”, afirmou.
A relação da estudante Helena Magalhães, 19, com os livros começou ainda na adolescência. Atualmente, ela compartilha seu hábito de leitura em um perfil no TikTok, embora, segundo ela, na infância não gostasse de ler.
A PRIMEIRA HISTÓRIA

“Quando eu tinha 11 anos, minha mãe me desafiou a ler um livro para ganhar algo em troca. Li A Sereia, da autora Keira Cass. Gostei, mas não me conquistou. Então, minha irmã sugeriu que eu lesse A Seleção, da mesma autora, e eu me apaixonei pelo livro. Li as sequências e, desde então, nunca parei de ler”, recordou a estudante.
Leitura após leitura, os livros passaram a fazer parte da rotina de Helena, servindo até mesmo como companhia. Durante a pandemia de COVID-19, após ler uma saga de livros da autora Elle Kennedy, ela decidiu gravar um vídeo comentando suas impressões sobre a história.
Após esse primeiro vídeo viralizar, ela percebeu que poderia fazer parte de uma comunidade de leitores. A estudante acredita que a influência do BookTok no aumento do consumo de livros se dá, principalmente, pela interação entre os criadores de conteúdo e seus seguidores, sempre de forma natural.
“Eu sou uma criadora que lê o que gosta e realmente abandono os livros que não me agradam, além de falar abertamente sobre isso. Então, recomendo apenas os livros que realmente me inspiram. Mas, para mim, o mais importante ao falar de uma obra é compartilhar o que aquele livro me fez sentir, as emoções que despertou em mim”, afirmou.
Como dica para quem deseja conhecer novas histórias por meio das redes sociais, o gênero de que mais gosta e, a partir disso, seguir criadores de conteúdo que dialoguem com seu gosto literário.
A FÉ INSPIRADA PELOS LIVROS
Entre os gêneros que contribuíram para o crescimento do número de novos leitores no Brasil está o de obras religiosas.
A pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, divulgada em maio de 2025, apontou que o gênero foi líder no número de exemplares vendidos, representando 29,5% do total.
Uma das pessoas que passou a adquirir livros religiosos é Larissa Faria, 25. Ao redescobrir a fé católica em 2024, ela teve contato com obras de santos como São Francisco de Sales e São Josemaría Escrivá. Hoje, como criadora de conteúdo, ela inclui os livros em suas produções e afirma ter percebido um interesse crescente de seus seguidores por obras que refletem valores e fortalecem a espiritualidade.
Antes de fazer suas recomendações, Larissa faz questão de ler todos os livros e analisar se a obra está alinhada à sua vivência da fé. Ela também considera a editora responsável pela publicação e a trajetória do autor de cada título.
“Santo Agostinho dizia: ‘Não se ama aquilo que não se conhece’. Eu complemento: ‘Não se ama aquilo que não se conhece, e não se conhece aquilo que não se estuda’. Por isso, acredito que a leitura de livros religiosos nos ajuda a compreender a verdadeira espiritualidade”, expressou.




