
Luciney Martins/O SÃO PAULO
No terceiro domingo de agosto, no âmbito do Mês Vocacional, a Igreja no Brasil volta sua atenção para os homens e as mulheres chamados à vida consagrada. Monges e monjas, religiosos e religiosas de vida apostólica, eremitas, virgens consagradas e membros de institutos seculares expressam, de diferentes maneiras, uma mesma vocação fundamental: seguir Jesus Cristo mais de perto, fazendo da própria existência uma especial consagração a Deus e ao serviço da Igreja.
A vida consagrada acompanha o Cristianismo desde os primeiros séculos. O Concílio Vaticano II recorda que homens e mulheres buscaram seguir Cristo com maior liberdade e imitá-Lo mais de perto pela prática dos conselhos evangélicos, dando origem, ao longo do tempo, a uma admirável variedade de famílias religiosas.
Essa consagração não substitui aquela recebida no Batismo, comum a todos os cristãos, mas está profundamente enraizada nela. A constituição dogmática Lumen gentium ressalta que esse estado não constitui uma posição intermediária entre clérigos e leigos: tanto de uns quanto de outros podem surgir pessoas chamadas por Deus a esse dom especial na vida da Igreja.

CASTIDADE, POBREZA E OBEDIÊNCIA
No centro dessa vocação estão os três conselhos evangélicos: castidade, pobreza e obediência. Inspirados nas palavras e no próprio modo de viver de Jesus, são assumidos mediante votos ou outros vínculos sagrados, conforme cada forma de consagração. Por meio deles, como ensina a Lumen gentium, o cristão entrega-se inteiramente “ao serviço de Deus sumamente amado”.
A castidade consagrada pelo Reino dos Céus expressa uma entrega indivisa a Deus e não significa simplesmente renunciar ao Matrimônio. É compreendida como dom que dispõe a pessoa para uma caridade mais ampla e para o serviço de Deus e dos irmãos, sendo também sinal dos bens futuros.
A pobreza configura o consagrado a Cristo pobre. Não consiste apenas em limites para a posse ou o uso dos bens. O Decreto Perfectae caritatis, do Concílio Vaticano II, afirma que os religiosos devem ser pobres “real e espiritualmente”, cultivando a confiança na Providência, a partilha e a atenção aos necessitados e evitando o luxo e a acumulação.
Já a obediência é compreendida como oferta da própria vontade a Deus, à imitação de Cristo, que veio cumprir a vontade do Pai. Vivida segundo as constituições e regras próprias de cada instituto, não elimina a liberdade ou a responsabilidade pessoal. O Concílio ensina que a obediência religiosa deve conduzir à maturidade, enquanto a autoridade dos superiores deve ser exercida como serviço.

UMA ÁRVORE DE MUITOS RAMOS
A unidade dos conselhos evangélicos não significa uniformidade. A Lumen gentium compara a vida consagrada a uma árvore “maravilhosa e variamente ramificada”, da qual surgiram formas de vida solitária e comunitária e numerosas famílias religiosas. Cada instituto possui um carisma particular, que se expressa em sua espiritualidade, missão e modo de viver.
Uma das expressões mais antigas é a vida monástica, desenvolvida particularmente nos primeiros séculos. Nela, a oração, a liturgia, a vida comunitária e o trabalho ocupam lugar central. No Ocidente, São Bento de Núrsia tornou-se uma das grandes referências dessa tradição, da qual nasceram os beneditinos e outras famílias monásticas.
A vida contemplativa coloca de maneira ainda mais explícita a oração no centro da existência. Comunidades como as carmelitas descalças, marcadas por Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, são exemplos dessa vocação. Embora separadas da intensa atividade cotidiana da sociedade, essas comunidades não são alheias à missão da Igreja. Pela oração, penitência e oferta da própria vida, participam de sua fecundidade apostólica.

VIDA APOSTÓLICA
Ao longo da história, floresceram também os institutos de vida apostólica, nos quais a consagração está intimamente ligada à missão. São exemplos os dominicanos, fundados por São Domingos e dedicados especialmente à pregação; os jesuítas, de Santo Inácio de Loyola; os salesianos, de São João Bosco, com o carisma da educação e evangelização da juventude; além de inúmeras congregações masculinas e femininas dedicadas à educação, à saúde, às missões e ao serviço dos pobres.
Nesses institutos, atividade e consagração não constituem realidades separadas. O apostolado deve nascer da união com Cristo, enquanto a própria ação apostólica se torna expressão do carisma recebido. Essa diversidade de dons permite que a vida consagrada esteja presente em escolas, hospitais, paróquias, missões e tantas outras frentes de evangelização e promoção humana.

NO MEIO DO MUNDO
Há ainda a vida religiosa laical, vivida por irmãos e irmãs que professam plenamente os conselhos evangélicos sem que isso implique o ministério ordenado. Outra expressão são os institutos seculares. Seus membros vivem a consagração permanecendo inseridos nas realidades comuns da sociedade. Podem ser homens ou mulheres, leigos ou clérigos, que professam os conselhos evangélicos sem assumir a forma própria da vida religiosa comunitária.
A tradição da Igreja conhece igualmente formas individuais de consagração, entre elas a vida eremítica, caracterizada por maior separação do mundo, silêncio, oração e penitência, e a Ordem das Virgens, antiga forma de consagração feminina, na qual mulheres consagradas vivem no mundo em vínculo particular com a Igreja local. Essa diversidade ajuda a compreender que vida consagrada e vida religiosa, embora muitas vezes usadas como sinônimos, não são conceitos perfeitamente equivalentes: a vida religiosa é uma das formas de vida consagrada.

UM SINAL PARA TODA A IGREJA
Apesar da diversidade de hábitos, regras, espiritualidades e missões, a finalidade última permanece a mesma: a configuração com Cristo e a busca da perfeição da caridade. Por isso, oração, Palavra de Deus, Eucaristia e vida espiritual não são aspectos secundários nem exclusivos das comunidades contemplativas. A Perfectae caritatis recorda que todos os consagrados devem buscar, antes de tudo, a Deus, cultivar a oração, meditar as Escrituras e alimentar na Eucaristia a própria vida espiritual.
A vida consagrada, portanto, não pode ser definida apenas pelas obras que realiza. Escolas, hospitais, missões e iniciativas caritativas são expressões concretas de diferentes carismas, mas sua raiz está na entrega da pessoa a Deus. Mesmo aqueles que não exercem um apostolado diretamente visível participam da mis-são da Igreja pela oração e pela oferta da própria existência.




