De um item descartável, nasceu uma ação de solidariedade

Em Santos (SP) e no Recife (PE), voluntários transformam caixas de leite vazias, que iriam para o lixo, em mantas para aquecer a população em situação de Rua

Arquivo pessoal

Arrecadar caixas de leite vazias, transformá-las em mantas térmicas e doá-las a quem precisa. A ideia de um grupo de voluntários da cidade de Santos (SP) surgiu em 2020, em meio à pandemia, e está fazendo a diferença na vida de muitas pessoas.

“Essas caixas contam com seis camadas de materiais, sendo quatro de polietileno (plástico), uma de alumínio e uma de papel-cartão. Essa junção permite reter o calor e manter as pessoas aquecidas”, explicou ao O SÃO PAULO João Adelino Duarte Vieira, 52, engenheiro e idealizador do projeto “Nação do Bem”.

Vieira comentou que as mantas térmicas, além de aquecerem nos dias frios e chuvosos, têm uma durabilidade maior que o papelão, que, geralmente, é o material usado pelas pessoas em situação de rua para forrar o chão ao se deitarem.

“Já confeccionamos e distribuímos 885 mantas para os moradores de rua aqui em Santos”, recordou Vieira, detalhando que para produzir uma manta são necessárias 18 caixas de leite.

Fabiana Paiva Citero Ribeiro é advogada. Ela atua como voluntária desde o início do projeto.

“Começamos a entender o processo para a produção das mantas e buscar os itens necessários para viabilizá-las. Conseguimos por meio de doações as caixas de leite, nossa matéria-prima de produção, as guilhotinas para o corte e as máquinas para a costura”, disse.

‘Irmãos Girassóis’

Inspirado no “Nação do Bem”, Francisco Neri de Freitas Junior, 65, criou o projeto “Irmãos Girassóis”, na cidade de Ipojuca, região metropolitana do Recife (PE).

Por meio dessa iniciativa, em 2020 foram produzidas e distribuídas 500 mantas e estão sendo preparadas mais 450 para serem doadas nos próximos dias a pessoas em situação de rua no Recife e em Olinda.

Neri comentou que a ideia de reciclar as caixas é uma ação de sustentabilidade, uma vez que o material demora anos para se decompor na natureza. “É uma maneira de aquecer no frio e, sobretudo, transformar o que iria para o lixo em solidariedade e amor”, completou.

Ele enfatizou que o projeto começa com a educação socioambiental nas escolas da cidade de Ipojuca. “Ensinamos aos alunos o jeito certo de higienizar as caixas e eles o repassam aos pais, que nos ajudam com a doação das caixas de leite”, afirmou o idealizador.

Produção

Para fazer uma manta de 1,70m x 0,65m são necessárias 18 caixas de leite em boas condições. A manta é produzida em formato de uma esteira, que serve como forração. Além de aquecer, é impermeável.

As caixas precisam ser abertas e lavadas com bastante água e sabão para tirar os resíduos e evitar a proliferação de bactérias, pois só assim os voluntários conseguem produzir as peças e repassá-las aos usuários com segurança.

“As caixas recebidas são separadas por marca e em lotes de 18 unidades. São cortadas na guilhotina e costuradas”, detalhou Neri, ressaltando que o projeto acontece graças à atuação dos voluntários que doam as caixas e os que ajudam na produção e distribuição das mantas.

“Na hora do uso, a parte do alumínio fica para cima e é ela que serve como isolante térmico e aquece o corpo”, afirmou, salientando que uma das vantagens das esteiras é que elas podem ser enroladas e possuem alça, de fácil manuseio e podem ser colocadas nas costas.

Mantas que aquecem

Depois de prontas, as mantas feitas pelo projeto “Irmãos Girassóis” são distribuídas pela ONG Anjos da Noite, que diariamente vai às ruas do Recife de madrugada para entregar comida, água e as mantas térmicas.

“Além da comida, entregamos as mantas térmicas do projeto ‘Irmãos Girassóis’ e também recolhemos as caixas de leite dos doadores e as enviamos para que se produzam mais mantas”, contou Maria da Conceição Rodrigues, idealizadora do Anjos da Noite, e que, junto com 112 voluntários, faz a entrega dos alimentos e das mantas.

Maria da Conceição recordou que olhar para quem está à margem da sociedade, abandonado ao relento, debaixo de uma ponte ou na sarjeta “é um ato de amor e solidariedade, uma ação evangélica que o próprio Cristo ensinou ‘dai de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, vesti os nus’”, disse, fazendo referência à passagem bíblica de Mateus 25,35-36.

“Numa madrugada fria e chuvosa, avistei uma pessoa dormindo embaixo de uma marquise. Ela estava deitada no chão e coberta com um tecido molhado. Quando entreguei a manta térmica, um cobertor e um prato de sopa, ela olhou para o céu, escorreu uma lágrima e começou a comer”, recordou, emocionada, Maria da Conceição.

Inspiração

João Adelino e Francisco Neri estão ajudando e orientando os voluntários de outros lugares que os procuram para conhecer e implantar a ação em suas respectivas cidades.

“Graças à procura, já estamos com voluntários em ação no Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Maranhão, Santa Catarina e Minas Gerais”, disse Neri, que pretende expandir o projeto para além das mantas e usá-lo para a forração de casas e palafitas, como uma forma de manter o ambiente aquecido e confortável. “Muitas dessas casas estão cheias de frestas por onde entram o vento, a chuva, o frio”, disse.

“É gratificante ver as pessoas unidas em prol do próximo. A fome dói, o frio também”, ressaltou Vieira.

CONHEÇA E FAÇA PARTE!

Projeto Nação do Bem: @naçãodobem_santos

Projeto Irmãos Girassóis: @irmaosgirassois

Projeto Anjos da Noite: @anjosdanoite_pe

Comentários

  1. Ola, boa noite!
    Juntei muitas caixas de leite bem lavadas.
    Em Junho passado (2021) doei caixas p/ uma instituicao em Santos/SP, onde moro. Eles costuraram mantas p/moradores de rua. A campanha foi tão grande que encerraram e já não aceitam mais as caixas.
    Por favor, sabem informar onde posso doar em Santos/SP?? Ou posso levar até São Paulo.
    Aguardo indicações. Obrigada,
    Ana Maria
    ana@picado.com.br

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