Entidades católicas se unem para promover ações em favor de migrantes e refugiados

Iniciativa é da Rede Clamor Brasil e foi ressaltada durante a celebração do 107º Dia Mundial do Migrante e Refugiado, no domingo, 26

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Todos os anos, a Igreja dedica o último domingo de setembro ao migrante e ao refugiado, oportunidade para chamar a atenção para a realidade de pessoas vulneráveis que, por diversas razões, se deslocam em busca de oportunidades e melhores condições de vida.

Por ocasião do 107º Dia Mundial do Migrante e Refugiado, o Papa Francisco escreveu uma mensagem cujo tema é “Rumo a um nós cada vez maior”, a qual provoca uma reflexão sobre a necessidade de promover uma sociedade mais inclusiva, também para uma Igreja em saída, sensível ao irmão que precisa de ajuda e acolhida.

No domingo, 26, Dom Carlos Silva, OFMCap, Bispo Auxiliar da Arquidiocese e Referencial para as Pastorais Sociais, presidiu missa na Igreja Nossa Senhora da Paz. Concelebraram o Padre Antenor João Dalla Vecchia, Pároco; Padre Paolo Parise, Coordenador da Missão Paz; Padre Marcelo Maróstica Quadro, Diretor da Caritas Arquidiocesana de São Paulo; Padre Lorenzo Nacheli, Coordenador do Arsenal da Esperança; e Padre Alfredo Gonçalves, Missionário Scalabriniano.

Unindo forças na Missão

A Rede Clamor Brasil está ligada ao Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) e se propõe a unir forças para potencializar as ações e iniciativas entre as organizações eclesiais comprometidas com os serviços voltados a migrantes, refugiados e vítimas de tráfico humano.

Em São Paulo, a Rede Clamor é composta por 13 instituições: Arsenal da Esperança (Sermig); Casa Dom Luciano Mendes de Almeida (Fundação Fé e Alegria); Casa Madre Assunta – Vila Prudente (Irmãs Scalabrinianas); Centro de Acolhida ao Imigrante – Casa de Assis (Sefras); Centro de Acolhida especial para mulheres imigrantes (Irmãs Palotinas); Centro de Integração do Migrante (Irmãs Servas do Espírito Santo); Cesprom-Cambuci (Irmãs Scalabrinianas); Missão Paz (Missionários Scalabrinianos); Missão Scalabriniana – Pari (Irmãs Scalabrinianas), Missionárias Seculares Scalabrinianas; Projeto Social Tabor (Oblatos de Maria Imaculada); Serviço de Acolhida e Orientação para Refugiados da Caritas Arquidiocesana de São Paulo e Serviço Pastoral dos Migrantes.

A união das instituições, além de estímulo e apoio mútuo, busca contribuir de forma complementar e cooperativa na luta pela garantia e proteção dos direitos humanos das pessoas forçadas a se deslocar da própria pátria.

Ação conjunta

Padre Paolo Parise contou à reportagem que, no Brasil, foram mapeadas mais de 100 obras católicas que atuam em prol dos migrantes e refugiados, e que na América Latina existem mais de 1,3 mil obras atuantes.

“Número expressivo que faz da Rede Clamor uma entidade capaz de articular e somar forças na organização e atuação concreta em favor dessa população”, disse o Sacerdote, recordando que as 13 entidades que atuam no mesmo segmento “podem lutar com mais propriedade, na busca por políticas públicas favoráveis, garantindo a vida e a dignidade”.

Padre Paolo recordou ainda a parábola do bom samaritano (cf. Lc 10,25-37), para contextualizar a cultura do encontro, salientando a necessidade de transformar as fronteiras em lugar de encontro, amparando quem está caído, com olhar atento e sensível à sua realidade.

“Na verdade, estamos todos no mesmo barco e somos chamados a nos empenhar para que não existam mais muros que nos separam, nem existam mais os outros, mas só um nós, do tamanho da humanidade inteira”, disse, recordando as palavras do Papa, em sua mensagem.

Somos Igreja

“Esta celebração é uma oportunidade para agradecer as conquistas e renovar o compromisso na missão de acolher, proteger, promover e integrar os irmãos migrantes e refugiados na reconstrução de suas vidas e sonhos”, disse Dom Carlos Silva, na homilia da missa.

O Bispo recordou que os consagrados, sacerdotes e leigos doam suas vidas pelo Evangelho, na construção de um futuro de justiça e paz, transformando as fronteiras em lugares privilegiados de diálogo e encontro: “Vocês são o rosto, a face da Igreja de Jesus Cristo na Arquidiocese e nesta cidade junto aos vulneráveis”.

Profetas e protagonistas

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Padre Alfredo Gonçalves destacou que o migrante e o refugiado são profetas e protagonistas: “Quem migra questiona a sociedade de origem e traz perguntas à sociedade de destino; quem migra se move e faz mover a própria história; quem migra faz a história avançar e encontrar alternativas; os migrantes e refugiados são nossos evangelizadores, aqueles que nos fazem encontrar o espírito de Deus nas entrelinhas da história”.

Padre Marcelo Maróstica Quadro enfatizou a necessidade efetiva de políticas públicas favoráveis: “O Brasil, por exemplo, tem boas leis de migração e refúgio, mas falta a implementação de políticas públicas. É necessário unir forças frente a essa realidade”.

Forçados a sair

Segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), subiu para 82,4 milhões o número de pessoas forçadas a se deslocar por muitos motivos: perseguições, guerras políticas, religiosas, étnicas, entre outras. A pandemia também é um agravante desta realidade.

Clementina João, 46, é angolana. Vítima de um relacionamento abusivo e ameaçada de morte, veio ao Brasil em busca de paz e de melhores condições de vida.

“Como mãe, optei em deixar meu país para lutar pela minha vida e garantir a subsistência das minhas filhas”, disse, emocionada. Ela precisou deixar duas das quatro filhas em Angola: “Estou lutando com todas as minhas forças para ter todas aqui comigo”.

Clementina diz estar feliz em seu primeiro mês de emprego como auxiliar de limpeza no Sefras, onde também é sua residência.

A equatoriana Celia Rocio Flores Castaneda está no Brasil há cinco anos. Enquanto conversava com a reportagem, ela segurava em seus braços a pequena e sorridente Andreina, de 2 meses.

“No meu país, estava desempregada e vi a fome bater à minha porta; desesperada, deixei tudo e vim com fé e coragem em busca de trabalho e comida”, disse a equatoriana, que trabalha como vendedora ambulante no centro da capital.

Bênção da vida

No fim da celebração, Dom Carlos abençoou a assembleia segurando uma criança, filha de migrantes. “A vida pede passagem. Todos queremos viver, mas é preciso cuidar da vida daqueles que são mais frágeis. É preciso cuidar de todos, inclusive do menor dos migrantes: a criança. Ela representa e traz bênção e é com ela que vamos invocar a bênção de Deus sobre todos nós”, concluiu o Bispo.

Encontro virtual

A Rede Clamor realizou na sexta-feira, 24, uma live, transmitida pelo Facebook da Missão Paz, com o tema “Igreja Católica de São Paulo em defesa dos direitos do migrante e refugiado: rumo a um nós cada vez maior”.

Cleide Santana, assistente social no Sefras, destacou que as pessoas que migram vão em busca daquilo que não encontram em seus países e precisam ter seus direitos garantidos: “É preciso que nós, cristãos e não cristãos, tenhamos a capacidade de acolher o outro independentemente de sua origem e, para além do acolhimento, é preciso conhecer as legislações que já existem na defesa dos direitos das pessoas que migram”.

Leticia Carvalho, assessora de reincidência política na Missão Paz, destacou as políticas de migração na cidade de São Paulo e falou sobre os avanços e retrocessos delas nas gestões públicas.

Ação concreta

Entre os dias 13 e 19, a Embaixada do Haiti esteve na Missão Paz onde renovou 1.869 passaportes e 2 mil carteiras de identidade de haitianos. “Uma ação concreta que abre horizontes de esperança, oportunidade de recomeçar em um novo lugar”, disse Padre Paolo Parise, Coordenador da Missão Paz. Durante a pandemia já foram doadas mais de 13 mil cestas básicas e oferecidos atendimentos médico e psicológico, além de aulas de idiomas.

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