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Igreja avança na prevenção e combate a abusos contra menores e vulneráveis

Igreja avança na prevenção e combate a abusos contra menores e vulneráveis - Jornal O São Paulo
Jaison Alves/ CNBB

Promover, por meio de iniciativas con­juntas, uma cultura de cuidado, prevenção e combate a abusos sexuais cometidos contra menores e adultos vulneráveis é o objetivo do protocolo de intenções firma­do no dia 21 entre a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Conferên­cia dos Religiosos do Brasil (CRB) e a Pon­tifícia Comissão para a Tutela de Menores.

A assinatura ocorreu durante a 62ª As­sembleia Geral da CNBB, em Aparecida (SP), pelos presidentes destas instituições eclesiásticas: Dom Thibault Verny (Pon­tifícia Comissão), Cardeal Jaime Spengler (CNBB) e Irmã Maria do Disterro Rocha Santos (CRB).

Por meio do protocolo, organiza­do em sete cláusulas, as signatárias se comprometem, entre outros aspectos, a promover e fortalecer processos perma­nentes de informação pastoral, teológi­ca e institucional nas diversas instâncias da Igreja; incentivar a cooperação entre dioceses, institutos, sociedades e orga­nismos eclesiais, favorecendo a comu­nhão e a responsabilidade na missão; implementar boas práticas institucio­nais e pastorais que contribuam para o ambiente de relações saudáveis e pro­moção da cultura do cuidado da Igre­ja; e colaborar na promoção de ações preventivas e formativas de proteção de menores e adultos vulneráveis, em con­sonância com as orientações da Igreja.

Por menor entende-se toda “pes­soa com idade inferior a 18 anos”, sendo também assim considerado quem habi­tualmente tenha uso imperfeito da razão; e considera-se adulto vulnerável “toda pessoa em estado de enfermidade, defi­ciência física ou psíquica, ou de privação da liberdade pessoal que, de fato, mesmo ocasionalmente, limite a sua capacidade de entender ou querer e, em todo o caso, de resistir à ofensa”. As definições estão na carta apostólica em forma de motu proprio Vos Estis Lux Mundi, publicada pelo Papa Francisco em 2019 e atualizada em 2023, com normas para prevenir e combater tais abusos sexuais.

RECONHECER A VERDADE

Em sua fala aos bispos, Dom Thibault Verny apontou que o trato deste assunto requer tanto humildade – “não estamos aqui para dar lições com ar de superio­ridade sobre a prevenção e a situação de abuso” – quanto fraternidade – “deseja­mos caminhar com vocês, ombro a om­bro, e ouvi-los”. Ele destacou que reconhe­cer a verdade sobre o tema nem sempre é fácil, mas é indispensável: “Quando a Igreja realiza o trabalho com a verdade em auxílio às vítimas, anuncia a Boa-Nova”

A canonista Cláudia Giampietro, ofi­cial da Pontifícia Comissão, convidou os bispos a pensarem em como tornar mais visível aquilo que já existe em suas dioce­ses para a proteção aos menores e vulne­ráveis “A visibilidade, no caso da preven­ção, não é uma questão primária, é um ato de justiça para quem eventualmente precisa encontrar uma porta aberta”.

Na Arquidiocese de São Paulo, por exemplo, desde fevereiro de 2020 existe a Comissão Arquidiocesana de Tutela con­tra Abusos Sexuais a Menores e Adultos Vulneráveis, e em setembro de 2023 fo­ram publicadas as Diretrizes para a Prote­ção de Menores e dos Adultos Vulneráveis contra Abusos Sexuais.

ATENÇÃO PERMANENTE

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Ainda no dia 21, em coletiva de im­prensa, o Cardeal Jaime Spengler asse­gurou que a Igreja tem agido tanto para assegurar a proteção dos menores e adul­tos vulneráveis quanto para uma ampla conscientização sobre o assunto na socie­dade e nos ambientes eclesiais.

“Precisamos trabalhar a prevenção, envolvendo as melhores forças da socie­dade. A Igreja tem se dedicado com afin­co, mas a questão extrapola os ambientes eclesiais. As nossas crianças, os nossos adolescentes, precisam de todo o cuidado e atenção”, disse o Presidente da CNBB, assegurando que a maioria das dioceses no Brasil já estabeleceu comissões de tutela para o acolhimento de denúncias e realização de ações de formação, de prevenção e de combate aos abusos.

Também participante da coletiva, a Irmã Maria do Disterro Rocha Santos dis­se que a atenção ao tema na Igreja no Bra­sil avançou após a criação, em dezembro de 2020, pela CRB Nacional e a CNBB, do Núcleo Lux Mundi, um escritório de auxílio na organização dos trabalhos de instalação das comissões diocesanas: “Nós nos alegramos em hoje celebrar este convênio. Isoladamente, somos fracos. Por isso, precisamos crescer cada vez mais em várias redes, para que a vida seja prioridade, e para que nossas crianças, adolescentes, jovens e adultos vulneráveis possam cada vez mais ser cuidados”.

Dom Wellington de Queiroz Vieira, Bispo de Cristalândia (TO) e Presidente da Comissão Especial para a Tutela de Menores e Adultos Vulneráveis da CNBB, sublinhou que a Igreja não deve fechar os olhos a este problema, mas sim enfren­tá-lo “com clareza, com transparência, com força”. Ele enfatizou que “os abusos sexuais são sempre uma tragédia, seja em ambiente eclesial, seja fora dele. A pes­soa abusada sexualmente carrega marcas para sempre em sua vida psíquica, em sua fé, em seu relacionamento com Deus, em sua vida social, em sua vida sexual”.

RESPONSABILIDADE DA IGREJA E DA SOCIEDADE

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Dom Wellington mencionou ainda dados sobre a incidência dos abusos se­xuais sofridos por crianças e adolescentes no Brasil: cerca de 70% ocorrem no am­biente familiar e, em uma perspectiva mais alargada, chega-se a 90% dos registros no ciclo de conhecidos da vítima – familiares, amigos e pessoas ditas de confiança.

“Os números da Santa Sé indicam que de 1,5% a 2% do clero no mundo estaria com algum tipo de envolvimen­to com abuso sexual. Falar no comba­te ao abuso sexual é, acima de tudo, evangelizar. Um fiel discípulo de Jesus não abusa, não é violento. Portanto, deve haver um discurso amplo sobre a fidelidade ao Evangelho, mas só isso não basta, é necessário ter estrutura de proteção”, comentou o Bispo, subli­nhando que as comunidades devem dar atenção à temática e que é obrigação de cada diocese formar uma comissão dio­cesana para colher as denúncias e dar os devidos encaminhamentos.

Dom Wellington lembrou, ainda, que é fundamental a existência de protoco­los para nortear o modo de agir de todos aqueles que estão no ambiente eclesial e não apenas dos ministros ordenados. “A Igreja Católica está muito atenta ao pro­blema e tomando as medidas cabíveis. Te­mos um trabalho de cuidado, de proteção e de reação aos crimes cometidos, ou seja, de punição aos responsáveis”, enfatizou, explicando que ministros ordenados que cometem tais abusos são passíveis de pu­nição tanto pelo Direito Canônico quanto pelo Judiciário brasileiro.

Na resposta final da coletiva de im­prensa, Dom Jaime disse que o combate ao abuso de menores e vulneráveis de­verá ser contemplado nas reflexões da Campanha da Fraternidade de 2027, cujo tema será “Fraternidade e o Cuida­do das Crianças”.

“Uma comunidade cristã experimenta a conversão evangélica quando não se defende da dor daqueles que sofreram, mas permite ser interpelada por ela; quando não minimiza o mal, mas o reconhece; quando não se fecha pelo medo do escândalo, mas aceita trilhar os caminhos exigentes da verdade, da justiça e da cura”
[Papa Leão XIV na mensagem ao II Encontro Nacional de Representantes Territoriais para a Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis, realizado neste mês pela Conferência Episcopal Italiana]

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