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Igreja no Brasil reafirma compromisso com a proteção de menores e vulneráveis nos espaços eclesiais

A coletiva de imprensa da terça-feira, 21 de abril, sétimo dia da 62ª Assembleia Geral da Assembleia Geral da CNBB abordou uma ferida para a Igreja e para a sociedade: a situação dos abusos de menores e pessoas vulneráveis.

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O tema foi tratado na primeira sessão da manhã da Assembleia Geral, com as orientações da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores da Santa Sé sobre a política de proteção e cuidado nos espaços eclesiais. Na ocasião houve a assinatura do protocolo de intenções entre o organismo do Vaticano, a CNBB e a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB).

Participaram da conversa com os jornalistas o Cardeal Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre e Presidente da CNBB; Dom Wellington de Queiroz Vieira, Bispo de Cristalândia (TO) e Presidente da Comissão Especial para a Tutela de Menores e Adultos Vulneráveis da CNBB; e a Irmã Maria do Disterro Rocha Santos, Presidente da CRB.

Dom Jaime, que também preside o Conselho Episcopal Latino-americano e Caribenho (Celam), iniciou a explanação reconhecendo que a temática dos abusos, apesar de delicada, deve ser tratada pela Igreja e pela sociedade com seriedade, não buscando somente reagir aos problemas, mas atuar na prevenção e na criação de espaços seguros.

“Precisamos de muita transparência e, eu diria, também humildade. Se faz um trabalho em vista não só da proteção como tal, mas também da consciência social e eclesial. Precisamos trabalhar a questão da prevenção e nós precisamos envolver as melhores forças da sociedade como tal”.

ABUSOS SÃO SEMPRE UMA TRAGÉDIA

Na sequência, Dom Wellington de Queiroz Vieira enfatizou que “os abusos sexuais são sempre uma tragédia, seja em ambiente eclesial ou fora dele”.

Dom Wellington também recordou que a pessoa abusada sexualmente carrega marcas por toda a vida: “A Igreja Católica tem olhado para esse tema com uma extrema preocupação. Às vezes, as pessoas pensam que nós estamos preocupados somente com o nosso ambiente eclesial, mas a Igreja reconhece que o problema é muito mais amplo”.

O Bispo também contextualizou o termo “adultos vulneráveis” que compõe o nome da comissão: “A proteção dos vulneráveis alarga o tema, quando a gente passa a pensar nas pessoas em situação de vulnerabilidade. Às vezes não é o menor, não é uma pessoa deficiente, com uma deficiência neurológica, mas na situação específica ela é também uma pessoa vulnerável, dependendo do relacionamento que tem com esse potencial agressor. Então é um tema doloroso, mas um tema que a Igreja reconhece que não pode baixar a guarda ou fechar os olhos, é necessário enfrentar com clareza, com transparência, com força”, concluiu.

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A VIDA RELIGIOSA À SERVIÇO DO CUIDADO E DA PROTEÇÃO

Irmã Maria do Disterro trouxe à pauta o trabalho do Núcleo Lux Mundi, iniciativa que tem contribuído de forma significativa para a implementação e o fortalecimento das políticas de proteção. Ela, de início, fez questão de recordar o legado do Papa Francisco, falecido há exatamente um ano, no trato com a questão dos abusos na Igreja. “Ele que nos convidou a abraçar essa causa, nós hoje assinamos esse protocolo de intenções entre as nossas Conferências, para lembrar que esse tema é sempre uma ferida na nossa vida, na vida das nossas famílias, e que importa para toda a vida consagrada”.

Ela explicou a missão do Núcleo Lux Mundi, que existe há cinco anos. “Nós estamos empenhados nessa busca de ajudar nossas comunidades do Brasil todo, todas as congregações, a enfrentar esse dilema que também nos atinge, e nós sabemos, só fere quem foi ferido. Nós contemplamos essas feridas e nos colocamos também a serviço da vida. Também sabemos que existem vários tipos de abusos, não é só o abuso sexual, mas que nós precisamos cuidar. Então, nós precisamos sempre ter esse olhar de compaixão, misericórdia para sentir e ver a dor de quem está mais perto de nós”, recordou.

Num dos momentos de resposta às perguntas da imprensa, a religiosa abordou a questão da violência contra a mulher e a presença feminina na Igreja. “Nós, mulheres, nós sabemos o que custa ser mulher, porque cada vez que uma mulher é abusada, cada vez que uma mulher é maltratada, mesmo na Igreja, é o nosso corpo, é a nossa vida que está sendo maltratada”.

OS PASSOS DA IGREJA EM RELAÇÃO À COMISSÃO DE TUTELA

O presidente da Comissão de Tutela da CNBB apontou sobre a organização da Igreja no Brasil em relação à proteção de menores e vulneráveis. “Um fiel discípulo de Jesus não abusa, não é violento, um fiel discípulo de Jesus é capaz de amar. Mas claro que não basta o discurso da fidelidade ao Evangelho, é necessário ter estrutura de proteção”.

Dom Wellington seguiu falando sobre o trabalho das comissões de tutela na base. “É uma obrigação ter nas estruturas das Igrejas Locais, uma comissão que vai ouvir, vai colher as denúncias. Nós temos protocolos de ações que devem nortear o modo de agir de todos aqueles que estão no nosso ambiente, não somente padres ou ministros ordenados, mas o catequista, o funcionário. Dentro do nosso ambiente eclesial, a Igreja deve sentir e é, de fato, responsável pelo que acontece ali”.

Ele alertou, ainda para a atenção que a sociedade deve dar ao tema. “A sociedade brasileira precisa abrir os olhos, a família precisa abrir os olhos.  É necessário ter cuidado em relação a isso, porque a violência feita a uma criança marca a vida e destrói a vida dessa pessoa. Nós temos o trabalho de cuidado, o trabalho de proteção, mas também um trabalho de reação aos crimes cometidos, seja de punição dos responsáveis, seja de cuidado com as pessoas que são vítimas da violência”, finalizou.

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‘AS CRIANÇAS: PATRIMÔNIO PRIVILEGIADO DE UMA NAÇÃO’

A última pergunta da coletiva trouxe à pauta o tema da Campanha da Fraternidade 2027, que vai abordar o cuidado com as crianças. Neste sentido, o presidente da CNBB declarou: “As crianças são esse patrimônio privilegiado de uma nação. E, quando a Igreja propõe uma Campanha da Fraternidade com essa temática, eu creio que na proposta já está a importância da questão”.

Dom Jaime Spengler concluiu sua contribuição falando sobre a preservação da sexualidade como identidade do ser humano. “Falando da relação Campanha da Fraternidade, criança e abusos, eu creio, se trata de algo muito bonito que caracteriza a humanidade do ser humano. A sexualidade diz de uma identidade. É algo que caracteriza de uma forma toda especial a intimidade de cada ser humano. E essa intimidade precisa ser educada, promovida, cuidada, desde a sua origem”, concluiu.

Fonte: Comunicação 62ª AG CNBB

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