‘Senhora Aparecida, o Brasil é vosso! Abençoai a nossa gente!’

Há 90 anos, o País era consagrado à Virgem Maria; individualmente, também é possível consagrar-se a Ela, no firme propósito de seguir os desígnios de Deus

Devotos em procissão na cidade de São Paulo no Dia de Nossa Senhora Aparecida em 2016 (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Padroeira do Brasil desde 1931, Nossa Senhora da Conceição Aparecida mora no coração dos brasileiros desde quando a imagem foi achada no Rio Paraíba do Sul, em 1717. Para muitos, a devoção à “Mãe Aparecida” envolve consagrar a ela a própria vida, a fim de imitar as virtudes daquela que em tudo cumpriu a vontade de Deus.

“Foi o próprio Cristo que na cruz nos deu Maria por mãe; por isso, todo batizado a acolhe e aprende dela a fazer tudo o que Jesus disser. Assim, está muito presente na tradição religiosa fazer a consagração de nossa vida a Nossa Senhora, principalmente no dia do Batismo, quando, após a consagração batismal, as crianças são também consagradas à proteção de Nossa Senhora. Consagrar-se a Nossa Senhora é confiar que, como bondosa mãe, ela cuidará de nós como cuidou de Jesus”, explica em vídeo formativo no Portal A12 o Padre Luiz Camilo Júnior, missionário Redentorista.

Conforme aponta o Catecismo da Igreja Católica (CIC), a primeira e fundamental consagração de todo o cristão é a batismal. “Incorporados à Igreja pelo Batismo, os fiéis receberam o caráter sacramental que os consagra para o culto religioso cristão. O selo batismal capacita e compromete os cristãos a servir a Deus mediante uma participação viva na santa liturgia da Igreja e a exercer o seu sacerdócio batismal pelo testemunho de uma vida santa e de uma caridade eficaz” (CIC, 1273).

Assim, de modo algum a consagração a Maria se configura como um “deixar de lado” a consagração fundamental a Deus, mas, sim, colabora para que o fiel reforce os compromissos de fé de sua condição de batizado. “Ela nos pede: ‘Fazei o que Ele vos disser (Jo 2,5). Sim, Mãe, nós nos comprometemos a fazer o que Jesus nos disser! E o faremos com esperança, confiantes nas surpresas de Deus e cheios de alegria”, afirmou o Papa Francisco, na missa que presidiu no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em julho de 2013.

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A consagração proposta por São Luís Maria Grignion de Montfort

A consagração à Virgem Maria permeia toda a história da Igreja, mas foi proposta de modo detalhado por São Luís Maria Grignion de Montfort (1673- 1716) no “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem” (TDV). A obra, cuja data estimada é o ano de 1712, tornou-se conhecida apenas em 1842, quando foram achados os seus manuscritos.

No Tratado, o Santo aponta que “sendo Maria, entre todas as criaturas, a mais conforme a Jesus Cristo, disso resulta que a devoção que melhor consagra e conforma uma alma a Nosso Senhor é a devoção à Santíssima Virgem, sua santa Mãe, e que, à proporção que uma alma se consagrar mais a Maria, mais consagrada estará a Jesus Cristo” (TDV, 120).

No texto de introdução da versão do TDV traduzido para o português, publicado pela Paulus Editora, em 2017, o tradutor Tiago José Risi Leme aponta que no número 233 do Tratado, São Luís Maria exorta os que se consagraram a Nossa Senhora a renovarem esse propósito cotidianamente “por meio destas simples palavras: Totus tuus ego sum, et omnia mea tua sunt (Todo teu eu sou, e tudo o que possuo pertence a ti, ó amável Jesus, por Maria, tua santa Mãe)”. Assim, “trata-se, de fato, de uma consagração a Jesus por Maria, e não a Maria primordialmente […] algo como uma atualização dos compromissos assumidos quando fomos batizados, por meio das práticas interiores e exteriores da consagração (cf. 115-116, 213, 257)”.

Embora o TDV detalhe os passos para se consagrar a Maria, é recomendável que aqueles que desejam fazê-lo procurem o pároco da igreja em que participam para receber a devida orientação. Para todos os devotos marianos, porém, são válidas estas recomendações feitas por São João Paulo II, na homilia da missa de 4 de julho de 1980, que presidiu em Aparecida: “Sede fiéis àqueles exercícios de piedade mariana tradicionais na Igreja: a oração do Angelus, o mês de Maria e, de maneira toda especial, o Rosário”.

Solenidade de oficialização de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil em 1931 (foto: Arquivo da Arquidiocese do Rio de Janeiro)

Rainha e Padroeira do Brasil

Nossa Senhora Aparecida foi declarada Rainha do Brasil pelo Papa Pio X, em 1904. No jubileu de prata da coroação, em 1929, os participantes do Congresso Mariano realizado em Aparecida decidiram pedir ao Papa Pio XI que ela fosse também proclamada Padroeira do Brasil, e ele assim o fez em 16 de julho de 1930: “Constituímos e declaramos a Beatíssima Virgem Maria concebida sem mancha, sob o título de Aparecida, Padroeira principal de todo o Brasil diante de Deus. Concedemos isto para promover o bem espiritual dos fiéis no Brasil e para aumentar cada vez mais a sua devoção à Imaculada Mãe de Deus”.

A solenidade na qual se oficializou o decreto papal ocorreu em 31 de maio de 1931, quando a imagem mariana pela primeira vez deixou o Santuário em Aparecida e foi levada ao Rio de Janeiro, então capital do País. As palavras de consagração foram proferidas pelo Cardeal Sebastião Leme, então Arcebispo do Rio de Janeiro: “Senhora Aparecida, o Brasil é vosso! Rainha do Brasil, abençoai a nossa gente! (…) Senhora Aparecida, o Brasil vos ama, o Brasil em vós confia! Senhora Aparecida, o Brasil vos aclama! Salve, Rainha!”.

Devoção

Desde 1980, por força do decreto federal 6.802, o dia 12 de outubro é feriado nacional para o culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida. Tradicionalmente nessa data e em dias próximos, os devotos lotam o Santuário Nacional, muitos a partir de romarias, algumas feitas a pé.

A movimentação no templo, porém, é intensa o ano todo. Antes da atual pandemia, cerca de 12 milhões de fiéis iam ao santuário mariano anualmente para participar das celebrações e venerar a imagem encontrada no Rio Paraíba do Sul em 1717, pelos pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, que durante uma pescaria primeiramente tiraram das águas o corpo da imagem, e em seguida, a cabeça. Após os pedaços terem sido colocados dentro do barco, os três conseguiram encher suas redes com uma quantidade abundante de peixes.

A primeira capela dedicada a Nossa Senhora Aparecida seria construída apenas em 1740, sendo substituída por outros templos maiores ao longo das décadas para abrigar a crescente quantidade de devotos. A Basílica Velha foi inaugurada em 1888. Já a atual basílica teve a pedra fundamental abençoada em 1946 e obras iniciadas em 1955. Em 1980, o altar foi consagrado por São João Paulo II e, em 3 de outubro de 1982, aconteceu a transladação da imagem original da Basílica Velha para o novo templo, iniciando definitivamente as atividades religiosas na nova basílica.

Devotos durante a novena de Nossa Senhora Aparecida deste ano (foto: Portal A12)

A festa da padroeira deste ano – que volta a ser realizada com a participação presencial dos fiéis – começou no domingo, 3, e continua até o dia 12, com o tema “Com Maria, somos Povo de Deus, unido pela Aliança”. Além da basílica, missas estão sendo realizadas no Centro de Eventos Pe. Vitor Coelho de Almeida. A programação completa pode ser vista em www.A12.com/padroeira.

Consagração oficial a Nossa Senhora Aparecida*
 
“Ó Maria Santíssima,
pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo,
em vossa querida imagem de Aparecida,
espalhais inúmeros benefícios sobre todo o Brasil.
 
Eu, embora indigno de pertencer ao número de vossos filhos e filhas,
mas cheio do desejo de participar dos benefícios de vossa misericórdia,
prostrado a vossos pés, consagro-vos o meu entendimento,
para que sempre pense no amor que mereceis;
consagro-vos a minha língua,
para que sempre vos louve e propague a vossa devoção;
consagro-vos o meu coração,
para que, depois de Deus, vos ame sobre todas as coisas.
 
Recebei-me, ó Rainha incomparável,
vós que o Cristo crucificado deu-nos por Mãe,
no ditoso número de vossos filhos e filhas;
acolhei-me debaixo de vossa proteção;
socorrei-me em todas as minhas necessidades espirituais e temporais,
sobretudo na hora de minha morte.
 
Abençoai-me, ó celestial cooperadora,
e com vossa poderosa intercessão,
fortalecei-me em minha fraqueza,
a fim de que, servindo-vos fielmente nesta vida,
possa louvar-vos, amar-vos e dar-vos graças no céu, por toda eternidade.
 
Assim seja!”
 
* Recitada sempre ao final das missas no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, foi escrita pelo Padre Vítor Coelho de Almeida. Desde a primeira versão, passou por duas mudanças, sendo a última por ocasião da visita do Papa Francisco a Aparecida, em 2013. 

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