A amizade e a solidão

Sergio Ricciuto Conte

Começaremos, com este, uma série de artigos sobre a amizade. Tantas coisas se pode dizer sobre a experiência de amizade e tantas pessoas ao longo da história escreveram sobre ela! Nossa pretensão é simples: que você, leitor, ao ler estas páginas, se sinta nosso amigo e mais amigo dos seus amigos, saiba reconhecê-los e seja animado e orientado por tantos mestres a viver essa experiência que é a mais bonita da vida, sem a qual a vida não tem sentido nem sabor!

Por que refletir sobre a amizade? Não é segredo para ninguém, pelo contrário, é cada vez mais reconhecido que hoje se vive uma experiência crescente de solidão e dificuldade para se comunicar com os outros. Relacionar-se com os outros é cada vez mais árduo. Mais e mais pessoas têm dificuldade para dialogar ou estar junto com outras pessoas. Mais e mais casais não conseguem manter o casamento e viver uma verdadeira amizade entre si.

A frase de Sartre no espetáculo teatral Entre quatro paredes (São Paulo: Civilização Brasileira, 2005) é paradigmática dos tempos atuais: “O inferno? São os outros”. Luigi Giussani, em “O senso religioso” (Jundiaí: Paco Editorial, 2017), diz que a capacidade de comunicação e diálogo depende da riqueza de uma experiência humana, ou seja, da profundidade com que cada pessoa compreende e cultiva a memória do que vive. Quanto mais rica for a experiência de uma pessoa, mais lhe vem, espontaneamente, a vontade de comunicar a sua experiência; e mais a pessoa encontra nas outras pessoas pontos de contato com sua própria vida. Este autor diz que a aridez da existência e as dificuldades de coexistência nas comunidades e na família dependem da qualidade das experiências vividas, ou seja, de como o que se vive é compreendido.

Giussani afirma que, para adquirir “experiência de vida”, é necessário ter o hábito de refletir e dialogar com os outros. Só assim se pode compreender mais e melhor aquilo que se vive. Por isso, é necessário fazer o exercício de buscar a razão das coisas que acontecem e, desse modo, saber julgar o que se vive. Em outras palavras, uma pessoa torna-se “experiente” quando busca compreender o significado daquilo que está acontecendo na própria vida e ao redor de si. O que é muito diferente de deixar a vida rolar como uma pedra na enxurrada, sendo apenas vítima das circunstâncias externas.

Uma das atividades que mais prejudicam o crescer em experiência de vida, sobretudo para os jovens, é gastar muitas horas por dia no computador, apenas “recebendo passivamente” as informações que vê ou ouve ali. O computador é um instrumento muito útil (e, neste período de pandemia, isso ficou muito claro), mas apenas se as informações que são transmitidas por meio dele se tornam fruto de diálogo e reflexão com a família e com as pessoas com quem se convive.

A solidão e a incapacidade de viver relacionamentos amigáveis, explica Giussani, decorrem da dificuldade de se comunicar com o outro. A solidão não surge quando se está sozinho, pois podemos estar no meio de uma multidão ou numa festa com muito colegas e estarmos totalmente sozinhos, se essas presenças não fizerem sentido para nós. A solidão cada vez mais frequente na vida cotidiana é, portanto, resultado de uma vida vivida sem refletir sobre o significado do que acontece e do que se vive. Se passarmos o tempo da vida sem reconhecer o que tem valor, o que nos une uns aos outros, o menor desânimo se torna uma objeção que derruba todas as estruturas de confiança. Nós nos tornamos pessoas desconfiadas, céticas na relação com os outros e cada vez mais sós. Onde está o problema? Não nos outros (como diria Sartre), mas na minha falta de reflexão sobre a minha própria experiência de vida.

É a partir da prática de refletir sobre o que acontece, de fazer perguntas sobre o significado das coisas, de se interrogar e interrogar os outros que a solidão é vencida e pode nascer a amizade verdadeira.

Ana Lydia Sawaya é doutora em Nutrição pela Universidade de Cambridge. Foi pesquisadora visitante do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

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