A Igreja e a metrópole de 468 anos

A cidade de São Paulo celebra 468 anos de fundação. Sua origem está umbilicalmente associada à Igreja Católica. A antiga vila de São Paulo do Campo deita suas raízes sob um pálio religioso. Para corroborar essa ideia, basta recordar a valorosa ação dos jesuítas. Eles, liderados por Manuel da Nóbrega, migraram da Serra do Mar até o Planalto de Piratininga. Nesse lugar, entre os Rios Anhangabaú e Tamanduateí, construíram um colégio, marco simbólico da fundação da capital paulista.

Essa fecunda história que teve na construção de um colégio seu marco inicial foi, não sem ambiguidades, enriquecida pela presença da Igreja ao longo dos séculos. Desde o Padre Lourenço Dias, primeiro vigário de São Paulo, até os atuais sacerdotes, passando por ordens, congregações religiosas, leigos, bispos, arcebispos e cardeais, é notório que a presença da Igreja gerou frutos. Figuras ilustres da história recente, como Dom Paulo Evaristo Arns, sua luta pelos direitos humanos e a Operação Periferia, entre outros, testificam esse valoroso legado.

Hoje, contemplando essa história de quase meio século, impõe-se um imperativo de continuar a construí-la, em respeitosa memória daqueles que nos precederam. Escrevê-la à altura do Evangelho e dos desafios do nosso tempo. Não sem consternação, nota-se que muitos desafios se impõem à Igreja na cidade de São Paulo. Desafios que são, a rigor, possibilidades para continuar redigindo seu contributo à construção do Reino de Deus.

Entre os desafios, retine de forma gritante nos nossos ouvidos o clamor que eclode do coração da população de rua. Em São Paulo, a Igreja Católica é uma das que mais pautam e trabalham com essa causa, reclamando uma cidade mais humanizada, menos desigual. Igualmente, insurge-se contra a própria Igreja uma formação religiosa defasada de muitos cristãos-católicos que, na contramão do Evangelho, aferram-se a práticas de fé inócuas e, por vezes, alheias àquilo que a própria instituição ensina. Educar corações novos para uma fé renovada, coerente, consequente, responsável e capaz de ser semente de novos cristãos é missão urgente da Igreja. Na mesma linha, desponta um novo cenário religioso, moldado pelas redes digitais, que desafiam a Igreja a uma presença qualitativa – visto que quantitativa já há – nas mídias digitais. Esse “admirável mundo novo” das redes digitais é seara que numa capital “multiconectada” exorta à evangelização. Há ainda uma dezena de outros desafios, mas limitamo-nos a estes.

Enfim, no aniversário de uma das maiores cidades brasileiras, que surgiu e cresceu sob forte influência católica, é imprescindível que o catolicismo continue ofertando colaboração. Não para reaver espaço ou poder, mas por sua irrecusável missão de ser testemunha do Senhor na grande cidade.

Padre Reuberson Ferreira, MSC, mestre e doutorando em Teologia pela PUC-SP, é Pároco da Paróquia Nossa Senhora do Sagrado Coração.

1 comentário em “A Igreja e a metrópole de 468 anos”

  1. Excelente reflexão sobre a cidade de todos nós(paulistas, paulistanos, nordestinos, mineiros, cariocas) e tantos outros. Mais conhecimento adquirido. Parabéns Padre Reuberson.

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