Aos amigos de São Paulo

Reproduzimos a seguir a carta de Dom Paulo Evaristo Arns, publicada na capa da edição do O SÃO PAULO de 13 de maio de 1998, seu último texto na condição de Arcebispo Metropolitano de São Paulo

Aos amigos de São Paulo, Jornal O São Paulo
Douglas Mansur/Arquivo O SÃO PAULO

Meus amigos, católicos, cristãos, homens que buscam Deus e que seguem a consciência na procura da verdade e do bem: Às vésperas de deixar o cargo de Arcebispo Metropolitano de São Paulo, desejo expressar o mais profundo afeto e gratidão a todo o povo e seus padres, seminaristas, religiosas e religiosos, consagrados e consagradas e aos bispos, por terem alimentado a minha esperança cotidianamente nestes 27 anos, 5 meses e 23 dias de lutas em comum.

Prezados amigos: o meu primeiro pedido é de darmos todo o afeto e ajuda aos que mais sofrem. Nesses longos anos, tivemos muitos encontros que nos fortaleceram mutuamente. O povo todo esteve sempre diante de nossos olhos e bem dentro do coração. O povo da rua que o diga, neste momento. Nenhuma só vez fui por ele recebido com indiferença, embora não lhe pudesse dar tudo o que desejava.

Quero dizer-lhes, de coração: continuem a formar os seus núcleos, a fim de buscar alternativas para a subsistência material e o conforto espiritual. A Casa de Oração do bairro da Luz aí está, para acolhê-los.

À classe média e a todos que possuem mais recursos, lembro o que tantas vezes comentamos: não podemos viver como indivíduos, mas temos que assumir a dignidade e a missão de pessoas que vivem para a sua família, mas também para todo o povo. Só assim atingiremos as queridíssimas crianças e restituiremos aos jovens a sua esperança.

A todos os cristãos, sem distinção de classe, transmito nesta hora a palavra mais sentida de gratidão e amizade. Apoiamo- -nos mutualmente e foi nesse sentido que eu me considerei pastor desta cidade, designado pelo Cristo, que supre as nossas deficiências e aceita os nossos pedidos.

Aos religiosos e demais consagrados, devo a graça de me abrirem o caminho para o coração do povo. Foram elas e eles que possibilitaram o contato com os grupos que mais sofrem e por vezes até com povos distantes que se interessam pelo Brasil. Eles e elas souberam o que significa amar. Se pudermos dar-lhes um conselho, nesta última palavra oficial, diremos que cultivem o seu carisma e os seus talentos, porque assim cumpriremos a missão evangélica e nos tornaremos instrumentos do plano divino.

Foi o Criador que nos deu olhos e os demais sentidos para descobrirmos a alegria e a esperança daqueles que ajudam os mais sofridos, particularmente aqueles que são vítimas das drogas e da violência. Continuem a ter o povo no coração, cada vez que se encontram com Deus em suas preces e em seus trabalhos insubstituíveis.

Aos meus caríssimos padres, que poderia eu dizer? Impressionou-me a afirmação do Concílio, cujos textos fui incumbido de traduzir, em grande parte, para a nossa língua. Foi o Espírito Santo que me trouxe a São Paulo e nos transformou em um só corpo para a ação em favor do povo. A “porção do povo de Deus”, junto com os seus bispos, constitui o sentido de toda a nossa existência.

Foi no estado de São Paulo que fiz os meus três anos de experiência após os anos de estudos rigorosos no País e no exterior. Não imaginava, porém, naquele tempo, que Deus me concedesse a graça que considero insuperável, de ordenar 284 padres e 19 bispos, justamente por ser Arcebispo de São Paulo. Os senhores bispos auxiliares, sempre tão unidos à minha pessoa e ação, ampliaram esse número que, hoje, constitui a esperança para o futuro.

A cada um dos padres de nossa Igreja, devo reafirmar que a minha vida lhes pertence, porque foi Deus mesmo que nos uniu pelo Espírito Santo para a obra de Cristo. Aos sacerdotes mais idosos, para quem construímos o lar “Casa São Paulo”, desejo neste momento exprimir minha admiração, por terem me acolhido com tanta espontaneidade na hora em que o Papa Paulo VI me designou para pastor desta cidade, quando me sentia desprevenido e despreparado para tanto.

Permitam-me, os meus irmãos presbíteros, que lhes deixem como lembrança e advertência um desejo muito simples, profundamente arraigado em meu espírito: amem este povo, rezem sempre por ele, leiam muito para acompanhar os tempos e evangelizar com ardor, muito unidos ao queridíssimo Papa João Paulo II.

Os bispos regionais sabem que formávamos e formaremos para sempre um colégio de apóstolos unidos a Cristo, guiados pelo Espírito Santo para cumprir o plano do Pai.

Meus amigos: cada palavra que brota do meu coração, neste momento, é inspirada e ungida pelo Espírito de Deus. O amor que sempre nos uniu deve preparar a solidariedade que torna mais justa e mais fraterna toda a convivência do povo de São Paulo.

Pai Nosso…

Leia outros artigos na página especial do centenário do nascimento

Deixe um comentário