Janeiro de 2024, noite de domingo. Nem basílica nem encíclica: a televisão italiana. Fabio Fazio perguntou ao Papa Francisco como imaginava o rosto de Deus. Francisco respondeu como o pai do filho pródigo, que não o deixa terminar o discurso, e acrescentou: “Isto não é um dogma de fé, é uma coisa minha, pessoal: gosto de pensar que o inferno está vazio; espero que seja realidade”. Francisco morreu em 2025. A frase sobreviveu a ele.
Sobreviveu mal compreendida. Muitos ouviram: “O inferno não existe”. Não foi o que Francisco disse – “gosto de pensar” é verbo de desejo, não de definição. Mas seria desonesto culpar só quem ouviu: a frase estava exposta ao equívoco, e o equívoco caiu bem.
Caiu bem: já estávamos prontos. Abolimos o inferno – não por misericórdia, mas por distração. Deixamos de crer na condenação porque já não cremos que nossos atos sejam definitivos: aprendemos a explicar o mal por tudo, menos pela liberdade. Um mundo sem inferno não é mais compassivo: é um mundo em que nada pesa – e onde nada pesa não há ninguém para salvar.
Por isso, a frase só pesa em quem supõe o inferno real.
A doutrina não se dobra. O Catecismo da Igreja Católica afirma a existência e a eternidade do inferno (n.1035) e que “Deus não predestina ninguém para o inferno”: é preciso uma aversão voluntária a Deus e persistir nela até o fim (n.1037). O inferno não é arbitrariedade imposta de fora; é uma porta que o homem pode trancar por dentro. E não convém suavizar: “Retirai-vos de mim, malditos! Ide pa-ra o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos” (Mt 25,41). Quem espera o inferno vazio espera sabendo o que está escrito.
Há, porém, uma assimetria: a Igreja proclama santos pelo nome e nunca declarou condenado um só homem. Dos anjos que recusaram Deus, sabemos o destino; de homem algum, o nome.
Poucos levaram o inferno tão a sério quanto Santa Teresa de Ávila. No “Livro da Vida”, conta ter recebido uma visão na qual o Senhor lhe mostrou o lugar que os demônios tinham preparado “e eu merecido, por meus pecados”, e o descreve com minúcia de repórter: o beco estreito, o lodo, o fogo dentro da alma. Não fez da visão uma lista de condenados: escreveu que padeceria muitas mortes de boa vontade para livrar uma só alma. Viu o inferno e saiu da visão com uma urgência: que nenhuma alma se perdesse.
Em Fátima, três crianças tiveram também uma visão do inferno – e nela havia almas. Nossa Senhora não deu censo de condenados: ensinou a jaculatória –“Levai as almas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem”. As almas todas!
E nós, o que fazemos aqui? Não o censo. O Juízo é de Deus – ainda bem: seríamos implacáveis com o pecado alheio, indulgentes com o próprio. O que nos cabe é o resgate: o pastor deixa as noventa e nove, conta a que falta e sai.
Isso tem um nome desagradável. Há uma pessoa por quem levei meses para rezar. Quando, enfim, a incluí no Terço, percebi que pedia sua correção, não sua salvação – diferença pequena na aparência, enorme na consciência. Justiça, sim: misericórdia nunca foi impunidade. Posso julgar seus atos e desejar que responda por eles. Difícil é desejar sinceramente encontrá-la no Céu. A oração pelo inimigo é a única que não conseguimos fingir.
Agosto é o Mês Vocacional no Brasil. Falamos de padres, consagrados, casados. Antes de tudo, porém, houve um chamado que nos precedeu: alguém nos levou à pia antes que tivéssemos opinião e nos entregou, com a fé, a conta da ovelha que falta.
De cem almas, interessam-nos as cem.
Continuo gostando de pensar que nenhuma alma humana esteja no inferno. Não porque duvide de que exista, mas porque me assusta menos um inferno vazio do que um Céu em cuja porta eu hesitasse, por causa da companhia.




