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Meu Senhor e meu Deus! 

Passada a Páscoa, as leituras narram os acontecimentos imediatamente posteriores à Ressurreição. Entre esses textos, agrado-me particularmente de dois: a cena de São Tomé e a passagem dos discípulos de Emaús. Vejo nestes dois episódios uma semelhança com o que acontece em nossas vidas. 

Sobre Tomé, não gosto da abordagem simplista e crítica que, às vezes, se faz dele, como sendo um homem de pouca fé, incrédulo crônico, ou aquele que duvidou de seus amigos. 

Prefiro imaginar que fosse um homem de grande inteligência, decidido, colérico e racional. Aquele que precisa entender tudo pela lógica e pela razão. Um homem sensato, que decidiu seguir Jesus depois de pensar bastante. Nunca se moveu por impulsos, e foi movido sempre por uma fé embasada e equilibrada. 

Quando Jesus falava de sua Ressurreição, como à irmã de Lázaro, sempre entendeu tratar-se da “ressurreição do último dia”. Quando ouviu rumores de terceiros falando da Ressurreição de Jesus, Tomé irritou-se pelo uso de Seu nome em vão. 

Na minha imaginação, quando confrontado pelos discípulos que disseram “vimos o Senhor”, não quis acreditar porque sua inteligência não conseguiu montar um raciocínio lógico, talvez porque a morte de Seu Mestre já houvesse sido muito dolorosa, e não queria acreditar para depois sofrer tudo novamente. 

Mas talvez fosse também, como bom colérico, um pouco orgulhoso, pensando ter uma visão superior à dos demais, e tenha pensado: “Por que eles o viram e eu não?” 

Imaginando essa condição huma-na, nosso personagem não nos surpreenderia ao dizer: “Se não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei!” (Jo 20,25). 

Quando Jesus lhes aparece novamente, ninguém havia “dedado” Tomé, contando a Jesus o que havia dito. O Senhor, que tudo sabe e tudo vê, olha com muito amor para aquele homem inteligente, mas ainda aprisionado à sua “lógica humana”, e lhe diz docemente: “Não sejas incrédulo, mas homem de fé.” (Jo 20,27). Ao dizer isso, Jesus infunde em seu coração um ensinamento muito maior: “Há coisas que a razão não pode explicar, para as quais é necessário um passo exclusivamente assentado na fé”. 

Mesmo no homem racional deve haver um espaço para o “sobrenatural”. E Jesus complementa: “Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!” (Jo 20,29), como que sustentando: foi fácil para você que me viu, outros darão passo igual, mas sem me ver. 

Mas aí acontece a parte mais impressionante dessa história. Diante de seus amigos chateados por não lhes ter da-do crédito e sem pensar em pedir desculpas por não ter acreditado sem ver, Tomé se ajoelha. Olha profundamente nos olhos de Jesus e diz o que, na minha visão, é a frase mais linda dita por um discípulo: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). 

É a frase mais curta e mais completa de todo o Evangelho. Aqui está resumida toda a matéria da qual é construído um católico de verdade. 

O Senhorio de Jesus: quando, pela razão, decidimos nos colocar sob o jugo e a tutela de Jesus; quando vivemos verdadeiramente a oração que fazemos todos os dias: “Seja feita a tua vontade”; quando confiamos, de fato, em Jesus, como rezamos no Terço da Misericórdia: “Sangue e água, que jorrastes do coração de Jesus para nós, eu confio em vós.” 

A divindade de Jesus: a confirmação, aí sim pela fé, de que Jesus é realmente o Filho de Deus, Aquele a quem devemos prestar culto, o único para quem nos ajoelhamos; Aquele que veio para cumprir as Escrituras, o ungido de Deus. 

Diante dessas duas realidades, não precisamos de mais nada. Que possamos manter nossa fé e razão unidas a Jesus, a quem devemos dizer todos os dias: “Meu Senhor e meu Deus”. O único que pode manter, neste mundo, nossos corações aquecidos, como fez com os discípulos de Emaús, de quem falaremos em outra oportunidade. 

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