Doutora da Igreja

Há 25 anos, em 19 de outubro de 1997, São João Paulo II proclamava Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face como doutora da Igreja: doutora da ciência do amor. Aquela que o mundo inteiro invoca como Santa Teresinha, agora passa a ser reconhecida pela Igreja como uma verdadeira Mestra. 

Algo aparentemente inusitado, não é? Uma doutora da Igreja com apenas 24 anos, que propriamente não deixou uma obra teológica sistemática, mas que, sem sombra de dúvidas, é a mais importante escritora espiritual dos últimos 150 anos. 

Há, no entanto, muitos que se enganam com esta simpática Carmelita. Acostumados à superficialidade, acabam vendo nela apenas uma moça sentimental e boazinha. Ledo engano... 

Teresa é mais, muito mais. Alma de poeta, desenvoltura de atriz, força de guerreira. Mística, cômica, tudo lhe cai bem, dirá dela uma carmelita que a conheceu muito bem. Uma jovem mulher, que se deixando encontrar pelo Amor, descobriu as profundezas da sua ternura. 

Teresa, ao experimentar o Amor misericordioso, generosa e livremente a Ele se ofereceu, com um único desejo: deixar-se amar. Assim, descobriu um caminho – um pequeno caminho – que não é para poucos e seletos, mas para absolutamente todos. Sua oferta ao Amor não repousa sobre a perfeição da oferenda em si, mas sobre a Misericórdia de quem a recebe. Ela escancarou para sua amada Igreja uma verdade do Evangelho: os caminhos da união com Deus, da santidade, não são destinados a uma elite, a uma seleção de ilustres, mas, ao contrário, são um caminho universal. 

E no seu total escondimento, ela será iniciadora de uma legião, que ela mesma pediu ao Senhor: uma multidão silenciosa de almas oferecidas ao Amor Misericordioso. Pessoas que acreditando na Misericórdia a ela se oferecem. São as forças propulsoras da Igreja. Não está no poder, nem nas armas, nem no dinheiro, nem sequer na ciência inflada pela soberba: o destino do mundo está na mão das crianças que se entregam ao Amor. E por elas, a Misericórdia vivifica o mundo. 

Na Itália, Oliva Bonaldo (1893- 1976), cujo amor incomparável à Igreja a levará a fundar as Filhas da Igreja, será inspirada por Teresa e sua missão eclesial. Nos Estados Unidos, a jornalista e ativista Dorothy Day (1897-1980) até mesmo escreverá um livro sobre ela. Na Índia, mais precisamente em Calcutá, outra Teresa (1910-1997) – cujo nome religioso fora inspirado por ela – será inspirada a irradiar este Amor aos mais pobres dos pobres. No Vietnã, Marcel Van (1928-1959), irmão Redentorista, inspirado e sensivelmente conduzido por Teresa, chegará à completa oblação de amor, num campo de trabalhos forçados comunista. Num distante leprosário da África, nos Camarões, o jovem Robert Naoussi (1947-1970) descobrirá como transformar sua dor, dando-lhe um profundo senso missionário, apoiando-se na história de Teresa. A lista não teria fim. Realmente, a pequena Teresa se tornou incontornável. 

Mas, fica a pergunta: como uma jovem francesa do final do século XIX, uma completa desconhecida, uma carmelita, pôde se tornar tão universal? Como seus escritos, que aparentemente são tão datados, tiveram e têm tanto impacto ainda hoje? 

É o paradoxo de Teresa, o paradoxo do Amor Misericordioso. A sua força vem da experiência de sua fraqueza, de sua fé viva e total confiança, vem de sua entrega generosa e total ao Amor. E isso é mais que atual, é urgente. 

José Eduardo Câmara, advogado, tradutor e escritor. É autor do livro “Os anjos na vida dos santos”. 

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