E se eu morrer?

Sergio Ricciuto Conte

Temos vivido tantas perdas, algumas muito próximas, tantas famílias enlutadas, tanto sofrimento, tanto medo… Como enfrentar isso? Como encarar a realidade da morte? Como não encarar? Alguns brincam que as duas únicas certezas da vida são a morte e os impostos. Os impostos encaramos todos os dias. E a morte? Um dia ela chegará para todos, mas parece que não, parece que ela não vai chegar. Sempre nos assustamos com as notícias de doenças graves e perdas prematuras. O que dói mais é a morte precoce…

O fato, porém, é que ela chega, cedo ou tarde. A pandemia nos tem obrigado a essa reflexão. Como ficariam os meus se eu morresse? Como ficariam minhas filhas? E meu marido? Minha mãe? Viver sem mim os obrigaria a um renascer, à construção de uma nova vida, a encontrar forças para seguir em frente e encontrar o sentido de sua própria existência. Conjeturei que, cada vez que alguém entra em nossa vida ou sai dela, nos obriga a um renascer. No casamento, um cônjuge passa a integrar a vida do outro de forma, pode-se dizer até sobrenatural, e dessa união nasce um ser conjugal. Cada um traz sua realidade, sua cultura, seu jeito de ser, seu temperamento, seus gostos. Muitas vezes, esse jeito de ser não encontra ressonância no jeito de ser do outro. E aí vem o desafio de “baixar a guarda” e buscar um modo comum de ser casal. Isso ocorre no dia a dia, no modo de cuidar da casa, de fazer as compras, de guardar ou gastar o que se ganha, de viver a sexualidade, de suportar o que ainda não foi possível ajustar.

A chegada do filho exige uma readaptação da vida conjugal, pois introduz dois papéis fundamentais: a paternidade e a maternidade. É nesse momento que as diferenças de temperamento e cultura aparecem com mais força, pois um é mais severo, outro mima demais, um acredita que o melhor para os filhos é uma coisa, o outro, a coisa oposta… Os ideais de casamento e família que cada um trazia vão se desfazendo e, assim, vai nascendo a família real, um todo formado de pessoas imperfeitas, cheias de limitações, mas repletas de boa vontade.

Não é exceção a vinda de novas pessoas a essa entidade familiar, na acolhida de pais e parentes com alguma limitação e, necessariamente, haverá uma readaptação, “reconstruir o construído”, tirar um tijolo daqui e colocar outro ali, até que, com o tempo e muita paciência, a vida se estabiliza. São muitos os desafios na construção da nova vida partilhada, mas, ao superá-los, criam-se vínculos sólidos que formam um “porto seguro” para os que os criaram, especialmente se Cristo é a pedra angular dessa construção.

Em contrapartida, todos estão sujeitos ao advento de uma doença grave, de um rompimento familiar, do divórcio, enfim… da morte. Como sobreviver a essas perdas? É uma parte de nós que se vai. Só quem já passou pela experiência pode saber como é. Há pouco, ouvi de alguém que perdeu a mãe ainda menina como foi imensa a dor. Com o passar do tempo, contudo, houve o nascer de uma pessoa mais forte e menos suscetível. A verdade é que não estamos sozinhos. Há o nosso “porto seguro”, há os nossos amigos e irmãos de sangue e de caminhada na fé. Existe Deus e sua Graça. É preciso seguir em frente, encontrar a missão a cumprir. 

Morrer é um renascer… da alma para Deus. De sentido para quem fica. 

Perguntei às minhas filhas adolescentes como seria se eu morresse. A expressão no rosto denunciou a tristeza e o desespero desse pensamento. Em seguida, porém, uma força interior as fez começar a pensar nas saídas, nos meios de superar a dor e seguir em frente. Fiquei satisfeita.

Daniela Jorge Milani é mestra e doutora em Filosofia do Direito pela PUC-SP e advogada em São Paulo.

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