A guerra cultural e a proposta cristã

Como forma de despertar a participação cívica em temas de especial relevância para a sociedade, é cada vez mais comum a utilização do conceito de “guerra cultural”. Segundo essa proposta, estaríamos no meio de uma batalha que envolve valores morais e visões de mundo, com muitas consequências para a legislação, a cultura e, muito especialmente, para a formação da juventude, a exigir um contundente posicionamento de todas as pessoas de boa vontade.

Certamente, é muito positivo o objetivo de promover a participação – verdadeiro protagonismo – de muitas famílias nos grandes temas da sociedade. Como lembra a Doutrina Social da Igreja, é responsabilidade de cada um contribuir para que a cultura e as leis do país estejam ordenadas ao bem comum. Por exemplo, boas leis não surgem por um passe de mágica. É preciso muito estudo, muita mobilização, muita atuação cidadã.

A partir do seu lugar na sociedade – de sua profissão, de seu entorno social, de suas capacidades, também financeiras –, todos podem e devem contribuir para que a sociedade seja mais justa, de forma a um crescente (e não decrescente) respeito à dignidade da vida humana em todas as suas fases e dimensões. Ao mesmo tempo, é preciso estimular que muitas pessoas de boa vontade participem ativamente não apenas do debate público, mas das tarefas públicas e políticas.

É muito benéfico para toda a sociedade, por exemplo, que muitas mães se candidatem a cargos políticos. A maternidade oferece uma especial perspectiva da vida como serviço, cuidado, responsabilidade pelos mais frágeis.

Vale ressaltar, no entanto, que o conceito de “guerra cultural” tem também alguns riscos, que não convém ignorar. Em primeiro lugar, ele comunica a ideia de que aquele que pensa diferente (especialmente quem promove valores diferentes dos nossos) é um inimigo a ser vencido. Afinal, é essa a lógica da guerra: vencer o adversário. E o mesmo ocorre na política, segundo o velho adágio latino:  Mors tua vita mea (a tua morte é a minha vitória).

Tão presente nas guerras e nas eleições, essa lógica não serve quando se fala em difundir valores e uma nova sensibilidade em relação ao humano. Não se trata de aniquilar o outro, mas de estabelecer um profícuo diálogo com o maior número de pessoas possível. De alguma forma, na guerra se quer distância do adversário. Na aventura de propagar o bem, o que se quer é proximidade, começando por escutar e compreender o outro.

Outra consequência especialmente frequente do conceito de “guerra cultural” é uma espécie de autorização para a agressividade. Já que se está numa guerra, não haveria especial problema em ser violento com o outro. Algumas vezes, há inclusive uma explícita chamada à agressividade, como elemento necessário para ganhar a guerra cultural.

Não se conquistam os corações com violência, maus modos, tampouco falta de educação. A proposta cristã não precisa da muleta da violência. Ao contrário, seu grande cartão de apresentação é a caridade, a compreensão, a delicadeza com o outro. Há quem diga que não se pode ser ingênuo. Se o “outro lado” é às vezes violento (com preconceitos, discriminações, ironias), não se pode abdicar desses instrumentos. Aqui, vale lembrar que o modo como cada um age revela sua identidade; e o modo como reagimos manifesta quem somos. A atuação do outro não pode definir nossa atuação, menos ainda nossa identidade. Na verdade, a aventura de propagar o bem significa justamente romper a lógica da ação e reação na mesma moeda, com respostas criativas, generosas, magnânimas.

O conceito de “guerra cultural” transmite também uma mensagem subliminar profundamente anticristã, uma espécie de maniqueísmo. Haveria no mundo uma força a favor do bem e outra a favor do mal. Assim, o mal passa a ser visto como uma entidade. As pessoas que defendem outros valores passam a ser encaradas como encarnação do mal.O Cristianismo tem outra proposta. O mal não é uma entidade em si, mas a ausência de bem. O equívoco moral é, na realidade, uma grande carência de luz, de verdade, de carinho. E é justamente esse o papel dos cristãos na sociedade. Não são uma espécie de gladiadores de Deus. São, devem ser, sal e luz do mundo.

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