As eleições estão se aproximando novamente e quase todos nós já nos sentimos cansados de antemão com o “novo normal” da polarização estéril que, sabemos, vai dominar o debate político.
O Papa Francisco, falando à classe dirigente brasileira, durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013, insistiu na responsabilidade social: “O futuro exige hoje o trabalho de reabilitar a política; reabilitar a política, que é uma das formas mais altas da caridade […] Que ninguém fique privado do necessário, e que a todos sejam asseguradas dignidade, fraternidade e solidariedade: esta é a estrada proposta”. Também enfatizou a importância do diálogo: “Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo […] É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem uma vigorosa contribuição das energias morais em uma democracia que permaneça fechada na pura lógica ou no mero equilíbrio de representação de interesses constituídos […] Quando os líderes dos diferentes setores me pedem um conselho, a minha resposta é sempre a mesma: diálogo, diálogo, diálogo”.
Entretanto, não pode haver nem diálogo nem responsabilidade social sem um olhar realista sobre os problemas sociais, um olhar que busca a verdade e o bem comum. No debate polarizado, afirmar a própria posição parece mais importante do que investigar a realidade e encontrar juntos os caminhos possíveis para superar os desafios.
A Doutrina Social da Igreja (DSI) não quer dar respostas aos problemas sociais – esta é uma atribuição do mundo laico. No entanto, ela quer nos ajudar a ter uma posição humana mais adequada para encontrar estas respostas e superar as polarizações. O mundo pode ser de César, mas o coração de César pertence a Deus… A DSI quer ajudar o nosso coração a ser mais verdadeiro e mais realista, menos influenciado pelas paixões e pelas palavras fáceis deste ou daquele influenciador político. Com este olhar, os Cadernos Fé e Cidadania, do O SÃO PAULO, vão enfrentar, ao longo deste ano, algumas das questões que mais preocupam os brasileiros.
Iniciamos com o tema da saúde. Todos sabemos como a situação é difícil. Cerca de 75% da população depende exclusivamente do SUS, mas o investimento público por habitante continua muito abaixo do necessário. O debate político continua em uma estéril confrontação entre duas afirmações verdadeiras: a universalização do atendimento à saúde com qualidade é um imperativo moral e político, e o Estado tem limites orçamentários reais, que geram outros problemas quando são subestimados.
A DSI afirma com clareza que a saúde não é mercadoria, mas direito inalienável enraizado na dignidade humana. São João Paulo II ensinava que há bens que não podem ser reduzidos a simples mercadorias. Bento XVI alertava que quando o mercado e o Estado se unem em torno de interesses particulares, e não do bem comum, a solidariedade definha. A DSI oferece critérios de discernimento: respeito à dignidade humana, promoção do bem comum, amor aos pobres e vulneráveis, e o binômio tão pouco entendido da solidariedade (que orienta para o trabalho conjunto para realizar o bem comum) com a subsidiariedade (que indica a primazia do protagonismo das pessoas e dos grupos sociais na realização deste bem comum).
Daí nascem perguntas e compromissos concretos: como nós e nossos candidatos trabalharemos – cada um no âmbito do contexto em que está e com as responsabilidades que lhe cabem – para que todos tenham uma saúde de qualidade? Como enfrentar os corporativismos e o fisiologismo político? Esperamos que nós ajudemos a encontrar as melhores respostas para estas e outras perguntas igualmente fundamentais.




