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Afinal, de que lado está a Igreja nestas eleições?

Com a proximidade do 1º turno das eleições gerais no Brasil, em 4 de outubro, intensificam-se os debates entre os candidatos aos cargos de presidente da República, governador, senador e deputado estadual e federal, e, lamentavelmente, também se verifica uma crescente polarização em diferentes espaços de convivência social, bem como nas famílias e até nas paróquias. Diante disso, há quem se pergunte: não poderia a Igreja dar uma indicação mais explícita sobre qual partido ou candidato o católico deve votar?

A resposta é: não! Assim é apontado pela Doutrina Social da Igreja e recorrentemente tem sido lembrado pelo episcopado brasileiro, como na mensagem da CNBB por ocasião das eleições, publicada em junho; e também o enfatizaram os cardeais brasileiros em um diálogo transmitido por tevês de inspiração católica no começo deste mês. No referido encontro, eles indicaram, porém, muitos aspectos a serem considerados pelos católicos na hora de escolher seus representantes políticos e para o acompanhamento do mandato dos eleitos.

Um dos princípios irrenunciáveis é que a política seja exercida em vista do bem comum, em síntese, para o bem de todos e não em benefício de grupos específicos, pois só assim trará incidência positiva real na vida de todos, por meio de ações nas áreas da saúde, educação, moradia, geração de emprego e remuneração justa aos trabalhadores, segurança pública, cuidado com o meio ambiente e a defesa da vida em todas as suas etapas.

Orientada ao bem comum, a política – “a mais nobre expressão da caridade” – também se torna campo aberto para a solidariedade social, com um olhar de atenção preferencial para os mais pobres, sem, contudo, que isso se reduza a um assistencialismo sistemático que gere dependência permanente de “políticas de salvação” ou de “salvadores da pátria”. 

Também é fundamental, como lembraram os cardeais brasileiros, que cada cidadão participe de modo consciente do processo democrático, votando para todos os cargos em disputa, a partir de reto discernimento sobre a biografia dos candidatos, seus projetos e propostas, a fim de que os eleitos possam contribuir para a promoção da justiça, da dignidade humana, da inclusão social e de uma cultura de solidariedade.

Aos católicos, de modo especial, as eleições também são momento oportuno para que aprofundem saberes sobre a Doutrina Social da Igreja. Quem assim o fizer, entenderá, por exemplo, que a Igreja Católica tem um olhar para a política baseado em alguns princípios, entre os quais a valorização da dignidade da pessoa, a solidariedade social, a busca do bem comum, a primazia do trabalho sobre o capital, o amor preferencial pelos pobres e a subordinação da ordem social à ordem moral, o que envolve não tolerar nem relativizar os casos de corrupção, pois esta “é a deturpação do bem comum, é uma chaga na vida da sociedade e não pode ser tolerada”, como foi enfatizado no referido encontro entre os cardeais.

Ao longo do processo eleitoral, as opiniões divergentes permeiam os debates entre os candidatos, os projetos de governo e as discussões entre os eleitores, mas de modo algum devem ser razão para fomentar polarizações e discursos de ódio – quem pensa diferente politicamente ou é um adversário eleitoral jamais deve ser tratado como inimigo – ainda mais no ambiente eclesial, afinal, passadas as eleições, a Igreja permanecerá com suas portas abertas para acolher a todos, sejam os fiéis que professam a fé católica, sejam os que procuram as ações de caridade organizada, sejam os próprios eleitos – católicos ou não – que buscam construir um país, um estado e uma cidade melhores, ouvindo a experiência dos mais de 2 mil anos de história da “mãe e mestra da humanidade”. Tal qual a perfeita simetria do maior símbolo do cristão, a cruz – nem pendendo mais à direita nem mais à esquerda – a Igreja não tem um lado político-partidário, ela tem princípios, expressos em sua Doutrina Social, pelos quais olha para a política.

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