No domingo, 17 de maio, a Igreja celebra globalmente o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Instituído em 1967 pelo Papa Paulo VI, fê-lo com a intenção de refletir sobre os desafios e oportunidades da comunicação, além de incentivar a cristandade a se engajar e promover uma comunicação mais humana, ética e ao serviço do Evangelho. Neste ano, o Papa Leão XIV adotou como tema “Preservar vozes e rostos humanos” para abordar os riscos de um uso excessivo e descuidado das IAs e as maneiras de utilizar essas ferramentas de forma humana.
A preocupação com esse tema não é algo recente. Pelo contrário, está no coração da Igreja desde seus primórdios e, ao longo dos séculos, sempre procurou fomentar a comunicação e ampliá-la para que a mensagem de Cristo chegue a todas as pessoas. Nes-se sentido, pode-se dizer que é um exemplo e mandamento do próprio Jesus: ao longo de toda a sua vida pública, dedicou-se a pregar, ensinando e exortando e, antes de subir aos Céus, deu a seguinte ordem aos discípulos: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).
Após a Ascensão de Nosso Senhor, São Lucas narra nos Atos dos Apóstolos várias das missões realizadas pela Igreja primitiva em vista de anunciar a todas as gentes a salvação. Em uma época sem as facilidades de comunicação que se têm atualmente, São Paulo não se retrai e sai em missão justamente para espalhar o Evangelho às mais diversas nações. Nesse mesmo período, tão preocupados com a veracidade da mensagem transmitida, os apóstolos fazem questão de escrever os livros, cartas e epístolas que comporiam futuramente o Novo Testamento. Pouquíssimos séculos depois, na época de Diocleciano, os cristãos arriscavam suas próprias vidas para defender os escritos sagrados em um contexto em que o imperador ordenava que fossem queimados.
Na Idade Média, tampouco a Igreja mudou sua posição. Preocupada com a edificação da sociedade e sua missão de transmitir a fé, foi ela quem não mediu esforços para copiar os grandes escritos à mão por meio dos monges copistas e preservá-los da destruição em invasões bárbaras e muçulmanas. Após a invenção da prensa pelo católico Johannes Gutenberg, seus principais clientes e patrocinadores foram as instituições eclesiásticas (mosteiros, universidades e ordens religiosas), que a utilizaram para a impressão tanto de textos religiosos, litúrgicos e teológicos quanto para imprimir clássicos da Antiguidade e obras humanistas.
No século passado, com o advento dos meios de comunicação de massa, os papas e autoridades eclesiais também se dedicaram a estudá-los, a fim de destacar suas qualidades e apontar seus eventuais riscos. Já em 1936, ainda no início do cinema, o Papa Pio XI escreveu a encíclica Vigilanti Cura, repudiando filmes imorais e alertando sobre a responsabilidade ética na produção e consumo. Seu sucessor, o Papa Pio XII, em 1957 escreveu também a Miranda Prorsus sobre os novos meios de comunicação social que surgiam e se popularizavam, como o rádio, o cinema e a TV. Nessa carta encíclica, ele as vê como “dons de Deus” para a educação, informação e entretenimento, mas também alerta para perigos morais.
Não causa estranheza, portanto, o olhar do Papa Leão XIV para as tecnologias de IA. Diferentemente das possibilidades anteriores, a Inteligência Artificial tem potencial para o bem e para o mal muito mais elevado, pois sua “estrutura dialógica e adaptativa, mimética, […] é capaz de imitar os sentimentos humanos e, assim, simular uma relação”. Isso pode se tornar tanto algo bom, fazendo com que o processo de aprendizado se torne mais individualizado e divertido quando usado com sabedoria, quanto pode levar os homens a se tornarem “arquitetos ocultos dos nossos estados emocionais e, desta forma, invadir e ocupar a esfera da intimidade das pessoas”.
Dessa forma, diante das formas de comunicação cada vez mais avançadas, utilizemo-las com prudência e temperança. Na mensagem de Leão XIV, cuja leitura é recomendável a todos os fiéis, ele indica três pilares como guia ao lidar com as inteligências artifi-ciais: responsabilidade, cooperação e educação. Tenhamos isso em mente neste novo tempo e ordenemos sempre a comunicação àquilo que a Igreja sempre ordenou: ao Evangelho, à verdade e à edificação das pessoas.




