Ao se apresentar ao mundo como filho de Agostinho, na primeira bênção que dirigiu à cidade e ao mundo, em maio de 2025, Leão XIV não ofereceu apenas um dado biográfico, mas uma chave de leitura do seu pontificado. Antes de qualquer programa, disse de onde vinha: da família religiosa inspirada no bispo de Hipona. Desde então, Agostinho frequentemente reapareceu em seus pronunciamentos, sempre a partir dos mesmos núcleos – o amor que atrai, a escuta, a humildade, a unidade, a autoridade como serviço.
O Caderno Fé e Cultura desta edição do O SÃO PAULO busca se aprofundar na riqueza dessa herança religiosa e cultural que chega até nós pelo atual Papa. Encontramos, no século V, um homem extremamente atual, com uma história de conversão que poderia ter acontecido hoje. Maniqueu, cético e professor de retórica em busca de reconhecimento, Santo Agostinho leu a própria conversão não como conquista de uma vontade esforçada, mas como dom recebido antes de qualquer mérito. Dessa experiência nasce sua convicção de que a iniciativa é sempre de Deus. Cabe à nossa liberdade responder a ela. Nasce também a convicção, retomada por Leão XIV ao falar a seus irmãos agostinianos, de que a vida cristã não se reduz a regras a observar nem a um hábito vestido por fora: ela começa quando alguém se descobre atraído por algo grande o bastante para saciar o coração: o Cristianismo nasce de um encontro.
Poucos descreveram com tanta precisão os movimentos internos da alma: a memória, o tempo vivido, o desejo, a vontade dividida contra si mesma. Em um tempo saturado de estímulos e de identidades montadas para a exibição pública, suas Confissões seguem sendo o mais extraordinário relato de uma consciência que se examina diante de Deus; e suas Retratações, escritas no final da vida, bem menos lidas, mostram algo ainda mais raro: um autor maduro que corrige o que escreveu. Não por acaso, ele vem sendo redescoberto por filósofos sem qualquer vínculo confessional, atentos à sua análise da interioridade, da linguagem e da mente.
Há, enfim, o Agostinho pastor, muito necessário nestes tempos que atravessamos. Contra os donatistas, que faziam a validade do sacramento depender da pureza do ministro, o santo de Hipona fixou que a eficácia sacramental vem de Cristo, e desenhou a Igreja como um só corpo, unido pela caridade e não pela impecabilidade de seus membros – mensagem fundamental em tempos de escândalo e condenações públicas, baseadas em pecados objetivos, mas que não podem nos afastar do encontro com Cristo.
Na reflexão de Agostinho sobre a história humana, as duas cidades permanecem misturadas ao longo do tempo. Elas são formadas por dois amores contrários: a cidade terrena, pelo amor de si levado até o desprezo de Deus; a cidade de Deus, pelo amor de Deus levado até o descentramento de si. Daí uma lição que continua difícil de aprender em tempos de polarização: nenhum partido, nação ou projeto de poder coincide plenamente com a cidade de Deus. A fronteira decisiva não se deixa reduzir às identidades políticas, pois também diz respeito à orientação dos amores que governam cada pessoa e cada comunidade.
Dos ensinamentos de Agostinho brota a leitura que Leão XIV faz da sinodalidade: menos a disputa sobre quem decide, mais a pergunta sobre como guardar juntos o dom confiado a todos. A autoridade, tema de sua tese doutoral sobre o governo das comunidades agostinianas, aparece como serviço; e a unidade, como critério – sem que isso signifique uniformidade. A humildade e a escuta, como virtudes necessárias a todos.




