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O esporte e a formação integral da pessoa 

No último dia 11 de junho, teve início a Copa do Mundo de Futebol, sediada pela primeira vez em três países: México, Estados Unidos e Canadá. Este evento é, por uma boa margem, o mais assistido do planeta: somente a partida final de 2022 foi acompanhada por cerca de 1,5 bilhão de espectadores simultaneamente. Durante os 39 dias de competição, esse costuma ser o assunto mais comentado entre a maioria da população. Muitas vezes, quando os jogos de seus países caem durante a semana em horário comercial, os empregadores até dispensam seus funcionários para que possam assistir às partidas. Sem dúvidas, esta é uma ótima oportunidade de comunhão fraterna com amigos e familiares para desfrutarem juntos de momentos de convivência e lazer. 

A ampla atenção despertada pelos grandes eventos esportivos oferece também uma ocasião propícia para refletirmos, à luz da fé, sobre o verdadeiro significado do esporte na vida humana, mesmo que não necessariamente do futebol. Neste mesmo ano, em fevereiro, o Papa Leão XIV já havia escrito uma carta sobre esse tema, por ocasião dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, chamada A Vida em abundância. Nela, o Santo Padre aborda como o esporte pode ser uma oportunidade para construir a paz, formar caráter, fazer apostolado e favorecer momentos lúdicos e de lazer. 

A dimensão física da pessoa sempre mereceu atenção da Igreja. Ao longo da história da Igreja, especialmente durante a Idade Média, surgiram movimentos dualistas que retomavam elementos do antigo gnosticismo e do maniqueísmo: ideologias dualistas ou doutrinas gnósticas e maniqueístas defendiam, cada uma a sua maneira, que o corpo humano e a matéria seriam intrinsecamente maus. A Igreja, então, condenou essas ideias e reforçou a fé ortodoxa de que a matéria era algo bom e criação de Deus. 

Em diversos momentos, é possível ver a prática dessa crença no próprio cotidiano de ordens religiosas e posicionamentos magisteriais. Na carta, o Papa cita diferentes ordens e santos que aplicaram as atividades físicas com o fim de promover o desenvolvimento da pessoa: as escolas dos jesuítas, baseadas nos escritos de Santo Inácio de Loyola; educadores como São Felipe Néri e São João Bosco, entre outros. Na verdade, até mesmo em Hugo de São Vítor e Santo Tomás de Aquino há importantes reflexões sobre o valor do lazer, da recreação e do cultivo equilibrado das capacidades humanas. Pode-se dizer que tudo isso está fundamentado na ideia resumida pelo humanista Michel de Montaigne: “Não educamos uma alma, nem educamos um corpo: educamos uma pessoa. Não devemos dividi-la em duas partes.” 

Vale ressaltar, todavia, que a preocupação com a dimensão corporal não surgiu com a Igreja. De fato, é algo muito natural pensar que alguém deveria preservar sua saúde e cultivar capacidades físicas. Dedicar-se a esse aspecto da vida é, para além de uma ação apenas individualista, também uma ação social: alguém doente necessita de outro para dar-lhe os devidos cuidados, indivíduos fracos tornam-se incapazes de ajudar outros com tarefas exigentes e a própria disciplina essencial para o desenvolvimento corporal pode ser fonte de crescimento de várias outras virtudes adjacentes. Esses são alguns dos motivos que fizeram com que Sócrates falasse desde a antiguidade que “é uma vergonha para um homem envelhecer sem jamais ver a beleza e a força de que seu corpo é capaz”. 

Portanto, que a Copa do Mundo seja ocasião de motivarmo-nos e iniciarmos, ao menos aqueles que ainda não o praticam, exercícios físicos. A preocupação com a saúde não é algo que deveria escapar ao cristão, especialmente tendo consciência de que nosso corpo é Templo do Espírito Santo. Que façamos isso não com motivos de vaidade ou superioridade, mas, sim, como realmente uma ação de caridade para conosco e com o próximo. E, por fim, como não poderia faltar, que torçamos muito para nossa seleção voltar com o hexa! 

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