Destacou Leão XIV aos fiéis reunidos na Praça da Liberdade em Castel Gandolfo; Pontífice voltou a pedir o fim da violência contra os palestinos

O Angelus dominical do Papa Leão XIV foi em Castel Gandolfo, para onde se dirigiu por ocasião da Solenidade da Assunção da Virgem Maria, celebrada em 15 de agosto. Nesta festa, afirmou o Pontífice, contempla-se Nossa Senhora na sua inseparável relação com o Filho: nem mesmo a morte conseguiu interromper essa comunhão de alma e corpo, que é vida eterna. Assim, todos os domingos, Ela nos recorda que essa mesma plenitude está reservada a quem segue Jesus: a sua ressurreição não é um acontecimento do passado, mas uma vida nova que nos envolve.

Comunicar paz de Cristo para além das fronteiras
Isso é demonstrado hoje pela mulher cananeia, protagonista do Evangelho proclamado na liturgia (Mt 15, 21-28). Apesar de não pertencer ao seu povo e de viver numa região estrangeira, ela procura insistentemente falar com Jesus, desejando a paz para a sua filha atormentada. Os discípulos veem-na como uma pessoa incômoda, e o próprio Jesus resiste aos seus pedidos. Em certo momento, porém, acontece algo inesperado, Jesus se deixa tocar pelo que vê e ouve. Por fim, diz: ‘Mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas’”.
“Também hoje a Igreja pode deixar-se surpreender pela obra de Deus e comunicar a paz de Cristo para além das fronteiras já traçadas”, disse Leão XIV. A sua missão é antecipada pela graça divina, que atua no segredo das consciências, de modo que, em cada encontro, mesmo naqueles que perturbam os nossos planos, “é preciso prestar atenção, abrir os olhos e abrir o coração ao que Deus nos quer dizer”.
Desigualdades e discriminações são insuportáveis
Para o Santo Padre, da mulher cananeia devemos aprender a humildade e a determinação: “Graças à sua fé, aprendemos que a mesa de Deus está preparada para todos e que a ninguém estão reservadas só as migalhas porque cada um, junto do Pai, tem o seu lugar. À luz desta fé, as desigualdades, as discriminações e as barreiras que pisam a dignidade de tantos filhos e filhas de Deus tornam-se insuportáveis”.
O Pontífice concluiu recordando aos fiéis que “somos a Igreja de Jesus Cristo num mundo atormentado, que procura a paz. A Maria, nossa Mãe, pedimos que interceda por nós”

Pelo fim da violência contra os palestinos
“Renovo o meu apelo para que cessem as repetidas violências contra a população civil palestina na Cisjordânia e peço com urgência à comunidade internacional que faça em modo que progrida a solução de dois Estados, para uma paz justa e duradoura”.
Logo após rezar o Angelus, o Papa Leão XIV dirigiu seu olhar para a Cisjordânia, onde a população palestina sofre com os ataques ilegais de colonos israelenses, que cresceram mais de 63% apenas no primeiro semestre, superando as marcas históricas anteriores. Autoridades registraram mais de 3.400 incidentes violentos, incluindo incêndios provocados em veículos, oliveiras e residências.
Já dura uma semana o cerco a Qusra, vilarejo perto de Nablus, na Cisjordânia, Estado da Palestina. Seis moradores de duas famílias estão confinados em suas casas há dias, bloqueados por postos avançados de colonos israelenses, privados até mesmo de comida e água. Apesar do fechamento da área pelas Forças de Defesa de Israel (IDF) e de uma retirada parcial dos colonos, a situação permanece tensa.
Uma equipe da prefeitura de Qusra foi atacada no sábado por um grupo de colonos israelenses enquanto se dirigia à casa da família Abu Rida no vilarejo para restabelecer a rede elétrica, após ter sido danificada por colonos no início da semana.
Segundo a agência de notícias palestina Wafa, apesar do bloqueio militar da área pelas Forças de Defesa de Israel (IDF), na manhã de sábado um grupo de 15 colonos voltou a se aproximar de uma das casas dos palestinos. De acordo com fontes internacionais, entre as casas afetadas pelo cerco está a de Loui Ridi, um cidadão palestino-estadunidense, cuja família relatou que o fornecimento de água e eletricidade foi cortado e que eles não podem sair de casa por medo que o imóvel seja atacado.
Enquanto os Estados Unidos continuam a pedir ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que condene o que está acontecendo, o Ministério dos Negócios Estrangeiros espanhol emitiu uma declaração para “exortar Israel a respeitar as suas obrigações”, “prevenir a violência arbitrária e a intimidação dos colonos contra os palestinos”. A diplomacia madrilenha reiterou também o seu firme compromisso com a implementação da solução de dois Estados, “com Israel e a Palestina vivendo juntos em paz e segurança, como único caminho para uma paz justa, sustentável e duradoura na região”.
“Todos os dias recebemos notícias de violência cometida por colonos contra povoados palestinos. Este último caso é um exemplo entre outros”, afirmou o Vigário-geral do Patriarcado Latino de Jerusalém, Dom William Shomali, a descrever a situação à Agência SIR. O prelado sublinhou que, apesar da retirada parcial dos colonos, a situação continua instável: “Mesmo que os colonos tenham se retirado das imediações da casa, eles permanecem na colina próxima e podem regressar a qualquer momento”. Para o vigário do Patriarcado Latino, a solução passa por um compromisso renovado da comunidade internacional: “Para pensar numa saída que garanta aos palestinos o respeito pelos seus direitos, o direito internacional deve ser fortalecido, dando mais força às Nações Unidas e ao Conselho de Segurança”. O seu pedido surge num momento em que cresce o alarme sobre o aumento dos incidentes de violência perpetrada pelos colonos na Cisjordânia.
Segundo as Nações Unidas, até o final de junho, cerca de 2.200 palestinos foram deslocados na Cisjordânia por causa da violência dos colonos ao longo deste anos de 2026.
Relatórios da organização israelense Yesh Din apontam que cerca de 91% das investigações de crimes de colonos contra palestinos são arquivadas sem condenação.
Fonte: Vatican News




