Deus nos fala nos detalhes. O onomástico, dia dedicado a um santo, de São Francisco de Assis, neste ano, coincidiu com o dia do primeiro turno das eleições no Brasil. O que o pobrezinho de Assis pode nos dizer em uma ocasião assim? O que Deus nos comunica nesta coincidência?
Nós, cristãos, gostaríamos de que nossa fé nos desse a garantia de nunca errar, estar sempre certo, do lado mais justo e mais inteligente. A história e, objetivamente, nossas divisões internas, mostram-no que a realidade não é assim. Entretanto, o fato é que, acertemos ou erremos, Deus nunca deixa de se comunicar a nós em qualquer situação. Por isso, entender o significado da vida e da mensagem de São Francisco, mesmo em um momento tão efervescente como este das eleições, não é afastar-se da realidade, mas encontrar aquilo que nos permite estar presente na realidade de modo mais livre e mais humano.
Pouquíssimos santos e santas são tão queridos como Francisco de Assis. Ao longo da história, toda a humanidade se apaixona por sua simplicidade, sua ternura para com toda a realidade – seja o leproso e o pobre, seja a Mãe Terra e a Irmã Morte corporal. Mas, já que estamos em um momento político, vale a pena lembrar também seu encontro com os muçulmanos. Em 1219, em plena Cruzada, foi ao encontro do sultão Al-Malik al-Kamil. Os relatos desse encontro variam. Os mais favoráveis dizem que o sultão ficou positivamente impressionado, os mais críticos que ele apenas expulsou Francisco ileso. O fato é que seu gesto permaneceu um sinal de paz para o Oriente. Até hoje, no meio do trágico conflito palestino-israelense, o Cardeal Pizzaballa, franciscano, Patriarca de Jerusalém, permanece como uma das vozes mais eloquentes e assertivas em favor da paz naquela região.
Quando, na Assis medieval, o filho dos Bernardone ficou nu em praça pública, dizendo não querer nada de seu pai biológico, o que terão pensado seus conterrâneos? Provavelmente algo como “pobre família, deu tanto a este filho e ele é um louco fracassado!”. Mal sabiam que nenhum outro homem de seu tempo seria tão lembrado e tão amado quanto aquele jovem. Quantos homens e mulheres sensatos não terão depreciado seu “tolo” apego à pobreza (Dante, na Divina Comédia, o apresenta como enamorado por ela, que fora desprezada pelos homens depois da morte de seu esposo, o Cristo)! Quantos políticos poderosos olharam com desprezo para aquele louco! Mas nenhum deles deixou suas pegadas na história como aquele “pobrezinho”.
Francisco foi um homem paradoxal, seja qual for a época na qual seja olhado, mas provavelmente ainda mais na nossa – não é à toa que G.K. Chesterton, o grande apologeta católico, mestre dos paradoxos, se apaixonou por ele. Como explicar que um amante da beleza, com grande sensibilidade poética, que louvava a Deus pelo fascínio da criação, se lançasse em espinheiros para combater a luxúria e vivesse entre pobres e doentes, frequentando ambientes que nada tinham de belo? Só uma paixão arrebatadora, um amor que a tudo transforma, poderia explicar esse comportamento. No santo de Assis, o amor radical a Cristo e a experiência mística de seu encontro com Ele se manifestam em uma explosão de beleza e bondade que iluminam toda a realidade.
Nesta edição, o jornal O SÃO PAULO lembra o grande santo. Para aqueles que comemoram a vitória de seus candidatos na eleição, São Francisco traz uma advertência incomoda: não é no êxito do poder, mas na humildade do amor, que encontramos a Cristo e construímos um bem que permanece na história. Para aqueles que se desesperam porque seus candidatos perderam a eleição, ele é um sinal de esperança: mesmo diante de um poder adverso, a humildade do amor nos permite encontrar a Beleza que dá sentido à vida.




