A grande tentação

No primeiro Domingo da Quaresma, leem-se na Liturgia os textos da tentação de Adão e Eva no paraíso terrestre (cf Gn 2,7-9; 3,1-7) e sobre as tentações de Jesus no deserto (cf Mt 4,1-11). Nossos primeiros pais não superaram a tentação e pecaram. Jesus, ao contrário, superou a tentação, vencendo Satanás.

Dito assim, parece tudo óbvio e já conhecido, pouco importando para nossa vida. Mas não é assim. Os textos bíblicos não são relatos de crônica, dos quais poderíamos dizer: já me contaram, já li, já conheço. Mais ainda, no contexto da Liturgia da Quaresma, esses textos são pedagógicos e significativos para nós.

Por certo, a tentação de Adão e Eva não foi a de comer uma fruta. E não havia nenhuma cobra a falar com os dois. Era o demônio mesmo! O objeto da tentação era o fruto proibido “da árvore da vida no meio do jardim e o da árvore do conhecimento do bem e do mal” (cf Gn 2,9). A linguagem é simbólica e o que está em jogo é a ordem estabelecida por Deus, ou seja, a lei de Deus. Trata-se de aceitar essa ordem, ou não; de obedecer a Deus, ou não. Eva recorda a severa proibição e advertência divina: “no dia em que comerdes do fruto, morrereis” (cf Gn 3,3).

A réplica da serpente enganadora deixa mais claro de quê se trata, em última análise: “não, vós não morrereis… Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como Deus’ (Gn 3,4-5). O fruto proibido é querer ser como Deus. Adão e Eva deixaram-se seduzir por esse fruto proibido e caíram na enganação de Satanás. Após comerem, seus olhos de fato se abriram e eles deram-se conta do tamanho do erro, por terem acreditado na serpente enganadora. “Vendo que estavam nus, teceram para si tangas com folhas de figueira” (Gn 3,7). A surpresa da nudez significa a percepção da verdade “nua e crua”, sem engano nem subterfúgio. Eles não eram deuses, mas criaturas. Adão e Eva deram-se conta de sua condição humana e de sua fragilidade.

Que tentação insidiosa: “não morrereis… sereis como Deus”! Essa foi e continua a ser até hoje a maior tentação. É muita pretensão – ser como Deus, ou até mesmo, tomar o lugar de Deus! Estar acima do bem e do mal, não aceitar a lei de Deus sobre o mundo e sobre o homem, ser “senhor” absoluto e não dever dar contas a ninguém e a nada… Essa tentação é atual e permanente. Somos todos como Adão e Eva e nos deixamos aliciar facilmente pela enganação da “serpente antiga, que se chama Diabo e Satanás, que engana o mundo inteiro” (Ap 12,9).

No período da Quaresma, preparamos a celebração da Páscoa e recordamos questões fundamentais da nossa vida cristã, para as quais devemos prestar especial atenção. A ação da “serpente antiga” e suas tentações insidiosas merecem nossa constante vigilância, “para não cairmos em tentação” (Pai Nosso). A ação do maligno e a tentação são coisas sérias. Jesus recomendou aos discípulos que vigiassem e orassem para não entrarem na tentação (cf Mt 26,41; Lc 22,40). O cristão precisa estar consciente de sua fragilidade e lutar a vida inteira contra a tentação que, no fundo, é sempre uma só: não reconhecer Deus, não obedecendo às suas leis e mandamentos, voltando as costas para Ele. Como consequência, isso leva a querer o lugar de Deus: “sereis como Deus”.

E para nos lembrar que ninguém está livre de tentação, lemos que o próprio Jesus também foi tentado no deserto, durante os quarenta dias de sua preparação para a missão pública. O Diabo sabe que Jesus é o Filho de Deus; mesmo assim, tenta colocar dúvidas na cabeça dele: “se és o Filho de Deus”. É grande, a ousadia do tentador! As três tentações de Jesus são nossas tentações também, e nós não somos o “Filho de Deus”! A terceira tentação de Jesus é a mais terrível: o Diabo promete ceder o poder e o domínio sobre o mundo, se Jesus se ajoelhasse diante dele para o adorar. Quanto engano! O Diabo não tem posse nem poder sobre o mundo para entregar a alguém. É promessa falsa. Mas a proposta é muito ousada, pedindo a Jesus, o Filho de Deus, que adore o Diabo! Literalmente, isso significava fazer pacto com o Diabo e “vender a alma pro Diabo”! Será que isso existe ainda hoje?

É possível vencer a tentação? Jesus não entrou no jogo da “serpente antiga” e mandou o Diabo pro inferno, que é o lugar dele. O Papa Francisco, a propósito das tentações de Cristo, observou que não se deve negociar com o Diabo, pois ele é esperto e enganador. Perderemos sempre, se o fizermos. Jesus venceu o tentador, fazendo recurso a três “defesas”, que são sugeridas a nós todos também: a penitência (jejum), a oração e a Palavra de Deus. Se nos servirmos dessas três defesas, poderemos vencer toda tentação, como Jesus venceu. Deus não nos deixa sós na nossa luta diária contra as insídias do tentador. A Quaresma é o tempo de nos exercitarmos na luta contra o espírito do mal, para permanecermos firmes e fieis a Deus, no caminho da vida cristã.

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Jorge Daros
Jorge Daros
11 meses atrás

Lindas e pertinentes palavras para vivermos cristãmente este tempo de preparação para a grande passagem, a Páscoa.