Celebramos a Solenidade litúrgica da Assunção de Maria Santíssima ao céu em corpo e alma, e nos perguntamos: afinal, por quais motivos a Igreja coloca em destaque esse fato de nossa fé católica? Compreendemos bem que se trata de um privilégio especialíssimo concedido por Deus àquela que gerou o Filho de Deus para este mundo e se tornou a mãe do Salvador.
Temos nossa admiração por Maria, que mereceu esse privilégio único entre os humanos, pois somente ela foi a mãe do Salvador. E entre os humanos somente foi concedido a ela participar, logo após a sua morte para este mundo, da glória celeste em corpo e alma. Para os demais, nós incluídos, a participação, em corpo e alma, na glória de Jesus ressuscitado permanece objeto de fé e de esperança. Mas o que significa e sinaliza a Assunção para nós?
Grandes e importantes são os seus ensinamentos e significados. Os textos litúrgicos da Solenidade são indicativos daquilo que a Igreja compreende e ensina a respeito da Assunção de Maria ao céu. Na segunda Leitura, São Paulo trata da Ressurreição de Jesus Cristo e da certeza de nossa ressurreição futura (cf. 1Cor 15,20-27). “Como em Adão todos morrem, em Cristo todos reviverão”. Portanto, a morte também não terá a última palavra sobre a nossa existência, mesmo devendo ainda esperar a plenitude da manifestação do Reino de Deus (v.23) para a nossa participação na Ressurreição de Cristo. O certo é que a própria morte será destruída: “o último inimigo a ser destruído é a morte” (v.26).
A primeira Leitura, do Livro do Apocalipse, traz o anúncio esperançoso da vitória da Mulher e do Filho da Mulher sobre o Dragão, ou seja, de Cristo e da Igreja contra o inimigo de Deus e dos homens. No contexto histórico do Livro do Apocalipse, tratava-se da perseguição que o império romano movia contra os cristãos e a Igreja; e o “grande sinal” aparecido no céu devia encorajar os cristãos a permanecerem firmes e a não se intimidarem com as ameaças do terrível Dragão, dando-lhes a certeza da vitória final. No nosso contexto, isso diz respeito à luta cotidiana que temos de enfrentar todos os dias contra o “Dragão”, que continua atuando no mundo, mas que não terá a última palavra sobre nossa existência e sobre a história deste mundo.
A ação do “Dragão”, a “serpente antiga” (cf. Ap 12,9), segue atual no mundo e disso há tantos sinais facilmente perceptíveis: a violência insana, a desordem moral, a corrupção econômica e política, as guerras, as injustiças oprimentes, o desrespeito à dignidade e ao direito das pessoas, a indiferença e o egoísmo cegos, o ódio que mata… Tudo isso, certamente, não é sinal da ação de Deus. Além disso, estamos cercados de fragilidades por conta de nossa própria natureza imperfeita; apesar dos desejos de onipotência que possamos trazer em nós, nossa vida é um sopro e o desejo de felicidade nunca é plenamente realizado neste mundo. Enquanto uns sofrem, mesmo inocentes, outros riem e se fecham diante do sofrimento alheio. Será que isso vai continuar sempre assim? Não haverá nunca superação para o que limita e até frustra a vida?
“Um grande sinal apareceu no céu”. Olhando para Maria, elevada à glória de Deus, a fé da Igreja responde: Sim, haverá superação, há esperança segura. Maria, na glória de Deus, é “sinal de inabalável esperança e consolo para o povo peregrino. Ela é o primeiro fruto da Redenção realizada plenamente e a imagem da Igreja chamada à glória” (Prefácio da Missa). O que a Igreja afirma a respeito da Assunção de Maria ao céu não diz respeito apenas aos cristãos, mas é um grande sinal de Deus também para a humanidade inteira, que busca, luta, sofre e aspira pela superação plena de seus males e deseja a plenitude da vida. Em Maria, Deus deu um sinal daquilo que todos poderão conseguir pela graça e misericórdia divinas.
O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen gentium, sobre a Igreja (capítulo VIII), trata do papel de Maria na vida de Cristo e da Igreja. Glorificada no céu em corpo e alma, Maria nos recorda que devemos “estar atentos às coisas do alto”, mas não de braços cruzados; ela nos deu o exemplo de dedicação a Deus e ao próximo e nos orienta e encoraja a “fazermos tudo o que Jesus mandou” (cf. Jo 2,5), envolvendo-nos em toda obra boa, para que apareçam os sinais do Reino de Deus. Ela é a Mãe e Intercessora junto de Deus, para que todos os seus filhos também participem um dia da glória de Jesus ressuscitado.




