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O Papa em Metz: cuidado com a ilusão do rearmamento

No encontro “nas raízes da Europa pela paz e unidade”, em Metz, o Papa Leão XIV pediu “coragem nas negociações”, pediu “esforços criativos para promover a paz mundial” e não apenas para “conter a hemorragia da guerra”. A propósito dos ensinamentos de Robert Schuman para a Europa e o mundo atuais, o Papa citou “um profundo desejo de paz”.

O Papa em Metz: cuidado com a ilusão do rearmamento - Jornal O São Paulo
Vatican Media

O Papa Leão XIV participou do encontro intitulado “nas raízes da Europa pela paz e unidade” no Centro de Congressos “Robert Schuman”, em Metz, última etapa da viagem apostólica internacional do Pontífice à França, nesta segunda-feira (28/09).

“O título proposto inspira-se, sem dúvida alguma, na figura do Venerável Robert Schuman, a quem desejamos hoje prestar uma homenagem especial, neste centro que tem o seu nome; e, sobretudo, aqui em Mosela, onde ele viveu durante muito tempo e agora repousa, tendo sido, durante muitos anos, o seu representante na Assembleia Nacional”, disse o Papa, acrescentando:

Foi desta região, com as suas vicissitudes nos séculos XIX e XX, que ele retirou a inspiração para ajudar a moldar a Europa de hoje e de amanhã através da sua célebre Declaração de 9 de maio de 1950. Este texto constitui, simultaneamente, o ponto de partida e de chegada do seu compromisso com a reconciliação e a unidade do continente europeu que marcou toda a sua vida.

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De que forma Robert Schuman foi moldado pela história desta terra, da qual era filho, e como contribuiu fundamentalmente para moldar a Europa moderna, a ponto de ser considerado um ‘Pai fundador’?

“É sempre muito difícil, tanto no presente como no passado, formular uma definição da Europa”, disse o Papa, afirmando que “a Europa foi tomando consciência de si mesma gradualmente, ao longo dos períodos históricos da civilização helenística, do Império Romano e da difusão do cristianismo, integrando, com o passar do tempo, novas culturas – tais como as germânicas e eslavas, entre outras – até abranger regiões cada vez mais vastas”. “Portanto, antes mesmo de ser uma realidade geográfica, a Europa entende-se como uma realidade cultural e histórica. Ao longo dos séculos, ela foi adquirindo novos contornos e definições, passando por períodos de crescimento, crises profundas e novos renascimentos”, frisou Leão XIV.

Para compreender esta longa história, o Papa mencionou “outro Pai da Europa: São Bento, que São Paulo VI proclamou seu Padroeiro em 1964, definindo-o como «mensageiro da paz, construtor da união, mestre da civilização»”.  

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A ajuda aos pobres, aos doentes e aos idosos; a educação das crianças e as universidades; os hospitais e a medicina; a arquitetura e a engenharia; o desenvolvimento das ciências; o direito e a organização das cidades e dos próprios Estados: tantas áreas, na Europa, foram profundamente influenciadas por São Bento e pelos seus monges! Sem estes fundamentos monásticos, a civilização europeia tal como a conhecemos não existiria.

Em Metz, “graças à obra de São Crodegango e de outros, respira-se um espírito beneditino de fraternidade, comunhão e partilha. Foi a partir daqui que o canto gregoriano se espalhou pelos territórios carolíngios, levando harmonia e beleza a todo o continente”, sublinhou Leão XIV. “Desse modo, não é possível falar da Europa sem fazer referência ao cristianismo”, ressaltou. A seguir, o Pontífice recordou outro Pai fundador da Europa contemporânea: Alcide De Gasperi que colocou a ênfase na «herança europeia comum».

Portanto, o Papa enfatizou a necessidade de a Europa redescobrir as próprias raízes e se abrir ao diálogo com o outro. “Trata-se de uma necessidade social e política a fim de que se redescubra o papel central da pessoa humana e se dê uma consistência real a palavras como liberdade, democracia, paz e unidade”, sublinhou Leão XIV, ressaltando que “este duplo movimento de redescoberta e diálogo permitirá também restabelecer um adequado equilíbrio entre os próprios direitos, bem como entre direitos e deveres”.

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Na verdade, a Europa contemporânea encontra-se diante de uma nova etapa da sua longa história de encontros, com a chegada ao continente de tantos homens e mulheres que fogem de zonas de guerra e perseguição ou que procuram uma vida melhor longe da pobreza e da miséria.

A propósito, o Papa recordou sua recente visita às Ilhas Canárias, na Espanha, dizendo que «a dignidade humana exige vias legais e seguras, resgate e assistência, cooperação concreta contra os traficantes, proteção efetiva às vítimas, processos sérios de acolhimento e integração, e políticas que permitam a cada pessoa viver com dignidade na sua própria terra».

“No entanto, tudo isto ainda não seria suficiente: acolher uma pessoa significa integrá-la como se fosse da própria família, oferecendo-lhe a possibilidade de desenvolver os seus talentos, capacidades e sensibilidade, mas também de entrar no espírito da casa que a acolhe. É preciso compreender o alcance histórico do que está acontecendo, ou seja, um encontro sem precedentes entre povos e culturas, que apela a uma redescoberta criativa das nossas raízes e, ao mesmo tempo, a uma escuta atenta do outro. A universalidade dos valores basilares da Europa garante-nos que este diálogo é possível e que poderá proporcionar uma base sólida às nossas sociedades, permitindo-nos agir de forma mais eficaz em prol da paz e de um mundo reconciliado”, sublinhou o Papa.

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“Foi precisamente esta lucidez que inspirou homens como Schuman a superar a oposição entre as identidades culturais e a dar vida às instituições europeias no final da terrível tragédia da Segunda Guerra Mundial, que revelou quão grande é o mal causado pelo homem quando acredita não encontrar obstáculos no exercício do seu poder”, disse ainda Leão XIV.

“Tendo crescido num contexto em que o orgulho e o espírito de vingança pareciam prevalecer, Schuman empenhou-se pela paz e fraternidade entre os povos que, após um longo período de confrontos entre si, reconheceram finalmente que precisavam uns dos outros”, destacou.

Propósito dos ensinamentos de Robert Schuman para a Europa e o mundo atuais, o Papa citou “um profundo desejo de paz”. “Infelizmente, mesmo na Europa hodierna, a guerra reapareceu: um novo «massacre inútil», que todos os dias causa inúmeras vítimas civis”, sublinhou. Leão XIV ressaltou a necessidade de se comprometer “num diálogo paciente, demonstrar coragem nas negociações e estar disposto a sacrificar algumas posições em prol do bem maior da paz”.

“Certamente, a busca pela paz na Europa, tal como no resto do mundo, não deve ser confundida com um irenismo ingénuo. Pelo contrário, as palavras de Schuman são mais atuais do que nunca: «A paz mundial não poderá ser salvaguardada sem esforços criativos que estejam à altura dos perigos que a ameaçam».  É preciso ter cuidado com a ilusão do rearmamento”, ressaltou o Pontífice.

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Promover a paz é uma tarefa ativa. Hoje, é preciso perguntar-nos se estamos realmente envidando “esforços criativos” para promover a paz mundial ou se estamos simplesmente tentando “conter a hemorragia da guerra” e a preparar-nos melhor para aquelas que presumimos que ainda estejam por vir.

O Papa sublinhou que, ainda segundo Schuman, “a Europa assenta no respeito pelo direito internacional”. “O direito internacional e o multilateralismo sublinham a igualdade efetiva dos Estados nas suas relações mútuas e constituem o melhor antídoto contra a vontade de dominar que está na origem de cada disputa”, ressaltou Leão XIV, afirmando que “hoje em dia, as relações humanas e as relações entre os Estados tornam-se cada vez mais bárbaras. O valor da palavra dada é desprezado; em vez disso, a mentira e o engano são motivos de orgulho”.

A Europa pode pôr fim a esta espiral graças ao respeito pelo outro que soube cultivar e preservar, pois demonstrou amplamente, nos últimos oitenta anos, que é possível fazer valer opiniões, reivindicações e interesses divergentes, procurando o diálogo em vez do confronto.

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De acordo com o Pontífice, “a pretensão moderna de ‘querer tudo para ontem’ não corresponde à história e cultura europeias que, pelo contrário, ensinam o valor do tempo e da paciência. É com pequenos passos que se pode dar vida a esta solidariedade concreta, que implica que ninguém se sinta abandonado ou esquecido”.

“Ao partilhar estas reflexões, penso, em primeiro lugar, nos jovens, chamados a construir a Europa de hoje e de amanhã”, disse Leão XIV que concluiu, dizendo: “Aos jovens digo: tenham a coragem de viver com responsabilidade a missão de construir a paz no seu coração, em suas relações, em sua família, nas escolas e nas universidades, na vida das suas cidades, de seus países e de toda a Europa. Não se submetam à lógica da violência e da opressão. Amem a vida em cada momento e não tenham medo do futuro! Não tenham medo de formar uma família, de ter filhos, de defender a dignidade de cada pessoa, do primeiro instante no seio da mãe ao último suspiro. Não tenham medo de trabalhar incansavelmente, também através do compromisso político, em prol do bem de suas comunidades. Sejam construtores de comunidade! Com vocês, a Europa, solidamente enraizada, continuará florescendo e inspirando o mundo inteiro.”

Fonte: Vatican News

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