O Evangelho segundo Marcos conta: “Tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, Jesus manifestou-se, primeiramente, a Maria de Mágdala, de quem expulsara sete demônios. Ela foi anunciar àqueles que com ele estiveram, que estavam aflitos e lamentando-se. Eles, porém, tendo ouvido que estava vivo e que fora visto por ela, não creram” (Mc 16,9-14). O Evangelho segundo João diz coisa parecida quando narra o episódio das aparições nas quais Tomé devia ter acreditado na palavra dos outros discípulos e, não o fazendo, também foi reprovado por Jesus (cf. Jo 20,24-29). Assim, a difusão do evento salvífico da Ressurreição de Jesus teve de passar pela contradição entre a verdade que devia ser anunciada e a aceitação do mesmo anúncio como uma mensagem capaz de ser recebida como verdade.
Assim acontece até os nossos dias. Mas, isso vem da própria contradição do ser humano entre a dúvida e a fé. Na mitologia grega, Cassandra teria sido uma sacerdotisa troiana dedicada ao deus Apolo e destinada a proferir profecias verdadeiras nas quais ninguém acreditaria. A personagem é mencionada na Ilíada e na Odisseia, porém o enredo mais popular será encontrado na peça de Ésquilo, obra muito posterior. Nessa versão, Cassandra já possuía o dom da profecia. Ela afirma que teria prometido seu amor ao deus Apolo, mas depois voltou atrás. Então, irritado, Apolo lhe teria tirado o dom da persuasão, fazendo com que ninguém acreditasse nas suas profecias, embora fossem prenúncios verdadeiros. O mito mostra que a verdade não depende da aceitação ou do consenso das pessoas. Também mostra o quanto o ser humano pode padecer por não acreditar na verdade anunciada por quem tem apenas a palavra para convencer.
Contudo, se pensarmos bem, por que os discípulos deveriam ter acreditado na palavra da mulher que antes tivera sete demônios? A credibilidade deveria apoiar-se em algum fundamento que a sustentasse. Foi por isso que Pedro diria mais tarde: “Santificai Cristo, o Senhor, sempre prontos a responder a todos que vos pedirem uma palavra sobre a esperança que há em vós” (1Pd 3,15). O fundamento, portanto, não é uma prova científica, mas a própria fé, conforme ensina a Carta aos Hebreus: “A fé é a certeza do que se espera e a prova do que não se vê” (Hb 11,1).
Anunciar a Ressurreição de Jesus é transmitir um fato, não um mito. Basta ver que nenhum dos discípulos saiu dizendo que Jesus tinha ressuscitado só porque o túmulo estava vazio. O Evangelho segundo João diz que Pedro e o discípulo amado acreditaram que o túmulo estava vazio somente depois de terem ido até lá, mas não saíram dizendo que Jesus tinha ressuscitado (cf. Jo 20,1-10). A Ressurreição era uma verdade que só poderia ser constatada no encontro pessoal com o Ressuscitado e, ainda assim, se podia duvidar das próprias visões. Note-se que, a princípio, Jesus Ressuscitado nunca era reconhecido pelos discípulos, a não ser depois do partir do pão, ou da pesca milagrosa, ou do pronunciamento do nome “Maria” (no caso de Madalena).
O acolhimento dessa verdade dependeria, como depende até hoje, de abertura e fé. Então, o que carece de averiguação e prova não é o fato inacessível da visão do Ressuscitado, mas a fé de que Jesus ressuscitou, está vivo e presente no nosso meio. Aí é que entra o “martírio”, que significa “testemunho”. Foi o testemunho dos Apóstolos que convenceu os primeiros neófitos. Alguns podiam achar que os discípulos podiam ter inventado que Ele ressuscitou. No entanto, o que convencia é que os discípulos eram capazes de morrer para anunciar isso. Por isso, o martírio não prova a Ressurreição, mas prova que os discípulos acreditavam, de fato, que Jesus está vivo. Mentir é fácil, morrer pela mentira inventada é pouco provável. Deve ter sido por isso que, mais tarde, Tertuliano afirmaria: “O sangue dos mártires é a semente dos cristãos” (Apologético 50, 13).




