Vocação: cultivar a amizade com Deus e com os irmãos

Ao longo deste ano, a Igreja no Brasil celebra o ano vocacional. Iluminados pelo lema “Corações ardentes, pés a caminho” (Lc 24,32-33), somos convocados a refletir sobre a vivência do nosso chamado e como colocamos nossos dons a serviço da comunidade. Afinal, vocação é um instrumento capaz de favorecer nossa amizade com Deus, bem como um meio da ação divina na realidade em que estamos inseridos. Mas como essa vivência da vocação pode se efetivar em nosso dia a dia?

Ao olharmos para a oração da coleta do 12º Domingo do Tempo Comum, que logo mais celebraremos, podemos encontrar pistas para uma possível resposta. A oração eleva nossa súplica a Deus para que Ele nos proporcione a graça de amá-Lo, uma vez que, como filhos, participamos de Seu amor. E o amor é uma característica fundamental da vocação. Vocação é um chamado e resposta de amor. Sob a dinâmica de um movimento dialógico, constatamos a presença de um Deus que nos ama incondicionalmente. Assim, sob a ótica vocacional, o Pai, que nos ama, chama-nos, e nós, que O amamos, também Lhe respondemos.

Cabe ainda salientar que o amor a Deus se desdobra no amor aos irmãos. É o que nos ensina o próprio Cristo: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). Por isso, toda vocação deve ser capaz de superar as barreiras do próprio eu para encontrar um tu. Daí decorre que, verdadeiramente, nossa vocação deve ser para a promoção das pessoas, principalmente as marginalizadas e excluídas, tornando-se um elo de comunhão entre nós e Deus. No Evangelho segundo Mateus, Jesus pede para não termos medo de dar testemunho em favor Dele diante dos homens (cf. Mt 10,32), o que, de certo modo, significa desenvolver nossa capacidade de amar outrem a partir do próprio Cristo, de manifestar nossa adesão a Ele na vida do próximo.

Nesse sentido, a vivência plena de nossa vocação implica o cultivo e a manutenção perene de nossa relação de amizade com Deus e os irmãos e irmãs. E, à medida que buscamos corresponder, em nosso dia a dia, ao chamado de amor, por meio de nossas escolhas e ações, é que nossa vocação se concretiza. Toda vocação é graça e missão, implica estar onde Jesus estaria e agir como Ele agiria, ou como nos indica São Paulo na carta aos Coríntios 3,4-11, ser conduzido pelo Espírito que comunica a vida.

Por fim, recordo uma das admoestações de São Francisco de Assis sobre como deve ser o humilde servo de Deus sob a perspectiva vocacional: “Bem-aventurado o servo que não se considera melhor quando é engrandecido e exaltado pelos homens do que quando é considerado insignificante, simples e desprezado, porque quanto é o homem diante de Deus, tanto é e não mais” (Ad XIX, 1-2). Portanto, uma vivência autêntica da vocação não busca elogios ou holofotes, mas, pelo contrário, trabalha para reforçar uma vida com humildade que testemunhe a ação de Deus e o compromisso com seu Reino. É desse modo que poderemos nutrir essa relação de amizade com o Pai e com os irmãos, dando respostas diárias aos desafios e exercendo, na prática, o verdadeiro amor ao qual pertencemos.

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Luiz Carlos
Luiz Carlos
8 meses atrás

Cada vez mais aprendemos com o verdadeiro Amor … !