Eucaristia e sacrifício de Jesus

A renovação litúrgica do Concílio Vaticano II deixou de lado ou até negou a dimensão de “sacrifício” na celebração da Eucaristia? Esta questão já foi amplamente esclarecida no passado, mas foi levantada novamente em recentes considerações sobre o Motu Proprio “Traditionis custodes”, acerca do uso, em nossos dias, do Missal de São João XXIII (1962). Aqui apresento breves esclarecimentos.

Um pressuposto necessário é situar a questão na história. Após o Concílio de Trento, a renovação da teologia sobre a Eucaristia e sua celebração destacou muito na celebração eucarística as dimensões de “renovação incruenta do sacrifício de Jesus na cruz” e da “presença real” de Jesus na Eucaristia. Isso foi necessário naquela época, pois a Reforma protestante negava ou reduzia o significado desses dois aspectos importantes do Sacramento da Eucaristia. Com o passar dos tempos, porém, a teologia católica sobre a Eucaristia acabou ficando unilateral, deixando na sombra outras dimensões também importantes desse “sublime Sacramento”.

O movimento teológico que precedeu a reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II recuperou novamente alguns aspectos do Sacramento da Eucaristia, um tanto deixados de lado. À luz dos estudos bíblicos e patrísticos, e, também, da Tradição perene da Igreja, foram destacados os aspectos de banquete e ceia pascal, alimento da fé, ação de graças, “comunhão” com Cristo e com a Igreja, “vínculo de caridade”, anúncio do banquete escatológico do encontro definitivo com o Senhor e penhor da vida eterna. O Sacramento da Eucaristia é riquíssimo de dimensões e significados que não podem ser reduzidos a um ou dois apenas. A celebração da Eucaristia é também a “epifania da Igreja”, que manifesta a natureza íntima de maneira perceptível.

A renovação litúrgica do Concílio não abandonou a dimensão sacrifical da celebração da Eucaristia, nem a deixou em segundo plano. Aqui não devem ser tomadas como referência as eventuais atitudes e manifestações individuais de algum celebrante ou teólogo, mas os textos oficiais do Magistério sobre a Eucaristia e os próprios textos da celebração eucarística, especialmente das Anáforas, ou Orações Eucarísticas. O ensino do Magistério está sintetizado no Catecismo da Igreja Católica (cf. parágrafos 1322-1419). Passemos a algumas breves referências.

Nos três Prefácios da Santíssima Eucaristia a dimensão sacrifical do Sacramento aparece claramente: Jesus “instituiu o sacrifício da nova Aliança e mandou que o celebrássemos em sua memória” (Prefácio 1). “Para que a memória da Cruz salvadora permanecesse para sempre, ele se ofereceu a vós como cordeiro sem mancha e foi aceito como sacrifício de perfeito louvor” (Prefácio 2). A morte salvadora de Jesus por nós também é evocada no 3º Prefácio da Eucaristia: “Vosso Filho, obediente até a morte de cruz, nos precedeu no caminho de volta para vós, que sois o fim último de toda esperança humana”.

Em todas as Anáforas, aparece com abundância e clareza a dimensão sacrifical da Eucaristia, não apenas nas palavras da consagração. “Eles vos oferecem este sacrifício de louvor por si e por todos os seus” (Anáfora 1). “Celebrando, pois, a memória da paixão do vosso Filho (...), vos oferecemos, ó Pai, dentre os bens que nos destes, o sacrifício perfeito e santo, pão da vida eterna e cálice da salvação” (ibidem). “Celebrando, pois, a memória da morte e ressurreição do vosso Filho” (Anáfora 2). As Anáforas 3 e 4 têm o maior número de referências: “Não cessais de reunir o vosso povo para que vos ofereça, em toda parte, do nascer ao pôr do sol, um sacrifício perfeito” (Anáfora 3). “Celebrando, pois, ó Pai, a memória do vosso Filho, da sua paixão que nos salva (...) vos oferecemos em ação de graças este sacrifício de vida eterna” (ibidem). “Reconhecei o sacrifício que nos reconcilia convosco” (ibidem). “Celebrando, pois, ó Pai, a memória da nossa redenção, anunciamos a morte de Cristo” (Anáfora 4). “Nós vos oferecemos o seu corpo e sangue, sacrifício do vosso agrado” (ibidem). “Olhai o sacrifício que destes à vossa Igreja” (ibidem). “Pelos quais vos oferecemos este sacrifício” (ibidem). “Em torno deste altar, vos oferecem este sacrifício” (ibidem).

Também as demais Anáforas mencionam a dimensão sacrifical da celebração eucarística. Quando celebramos a Eucaristia, nós, que não estivemos junto da cruz de Jesus, no Calvário, fazemos o “memorial” da paixão e morte de Jesus por nós. De forma ritual e na fé da Igreja, participamos do único e eterno sacrifício da nossa redenção e recebemos dos seus frutos. Sem esquecer as outras dimensões da Eucaristia, que também fazem parte da única fé da Igreja.

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