Missionários companheiros de Jesus

Neste Mês das Missões, em que temos refletido sobre o anúncio do Evangelho, desejamos dedicar este editorial à relação entre missionariedade e vida interior.

O tema é importante porque nossos esforços missionários frequentemente se veem ameaçados pelo perigo de um “tecnicismo ativista”: muitas vezes, concebemos a evangelização como uma atividade puramente humana, que deve ser planejada e conduzida unicamente de acordo com critérios e metodologias técnicas – e com isso deixamos de lado o papel fundamental da Graça.

O remédio contra tal perigo passa por três pontos sempre lembrados em nossa Tradição católica: a precedência da oração e da vida interior, a necessidade de unidade de vida e o apostolado de pessoa a pessoa.

Primeiro, então, a oração: para entendermos a primazia da vida interior sobre os esforços exteriores, convém lembrar que a Igreja escolheu como Padroeira das Missões Santa Teresinha, uma monja de clausura, que, em seus breves 24 anos de vida, jamais saiu em missão! No escondimento de seu mosteiro, no entanto, as orações e os sacrifícios de Teresinha, pela graça de Deus e pela comunhão dos santos, convertiam multidões. É claro que a maioria de nós não é chamada à clausura – no entanto, qualquer esforço apostólico que fizermos só fará sentido se for superabundante de intimidade com Jesus.

Em segundo lugar, é fundamental que os apóstolos modernos, antes de entoar hinos e campanhas sobre o Evangelho, incorporem em suas próprias vidas esta verdade. A esse respeito, o então Cardeal Joseph Ratzinger, em seu livro Olhar para Cristo – Exercícios de fé, esperança e caridade, lembrava que, depois da era apostólica, a Igreja antiga não utilizava nenhuma técnica propriamente missionária, e, no entanto, foi o período de maior difusão da fé: “A conversão do mundo antigo ao Cristianismo não foi resultado de uma atividade planejada da Igreja, mas fruto da afirmação da fé tal qual se fazia visível na vida dos cristãos e na comunidade eclesiástica. Uma experiência a convidar outra experiência – foi essa e apenas essa, em termos humanos, a força missionária da Igreja antiga. A comunidade vital da Igreja convidava à participação nesta vida, em que se revelava a verdade de que esta mesma provinha. Por outro lado, a apostasia da modernidade se fundamenta na não verificação da fé na vida dos cristãos. Aqui se revela a grande responsabilidade dos cristãos de hoje. Eles deveriam ser pontos de referência da fé como pessoas que ‘sabem’ de Deus, deveriam demonstrar em sua vida a fé como verdade, convertendo-se, assim, em sinais para os outros”. No mesmo sentido, o Papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii gaudium, 259, nos recorda de que “Jesus quer evangelizadores que anunciem a Boa-Nova, não só com palavras, mas, sobretudo, com uma vida transfigurada pela presença de Deus”.

Quer isto dizer que as conversões de que a Igreja tanto precisa não virão primariamente de grandes campanhas publicitárias, mas de um apostolado pessoal, de amizade, em que um cristão com vida interior se interesse pelos que estão a seu redor, os ouça, e busque sinceramente entender suas aspirações e angústias.

Realizemos todos, então, nosso exame de consciência. Eu, que faço parte de alguma pastoral, que dedico meu tempo a falar sobre o Evangelho: será que eu tenho uma sólida vida de oração? Será que rezo o Terço todos os dias, como nos pediu Nossa Senhora em Fátima? Será que entretenho frequentes conversas a sós com Jesus eucarístico? 

As pessoas que ouvem nossa pregação devem dizer de nós o que o Sinédrio disse de Pedro e João: “Reconheciam-nos como companheiros de Jesus” (At 4,13).

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